Durante muitos anos, acreditou-se que a Terra era composta de quatro elementos: água, terra, fogo e ar. Levou até quase 1750 para que os cientistas descobrissem que, na verdade, o fogo não é um elemento, mas o resultado de um processo.

Mais tarde, em 1869, Dimitri Mendeleev revelou sua Tabela Periódica de Elementos, que mostrava quais elementos químicos realmente poderiam existir, incluindo aqueles que não estão presentes na Terra. O trabalho de Mendeleev iniciou um significativo processo de busca e síntese de elementos, resultando no avanço de muitos ramos industriais.

Há uma sensação de que as pessoas estão fazendo a mesma coisa com ativos digitais atualmente, chamando-os de criptomoedas tradicionais, ICO tokens, tokens de utilidade, etc. Essa vasta nomenclatura deixa confusos tanto a mídia, quanto a população.

Começou-se a acreditar que tudo que envolva cripto (ou token) é algo mágico e possui novas características e modelo monetário. Reguladores são os últimos a alcançar a marcha e, por vezes, considerando tudo como inovador, sem uma análise mais profunda da matéria.

Definir critérios de classificação de ativos digitais proporcionará um avanço na indústria e simplificará o trabalho dos reguladores, assim como o dos investidores.

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Definições e pré-condições

Um ativo digital é qualquer coisa que exista em formato binário, juntamente com o direito de utiliza-lo.

Ativos digitais são escassos, o que quer dizer que, a qualquer momento, pode haver apenas um proprietário (ou um grupo deles) de um dado ativo.

Um token é uma unidade de medida que representa o saldo de seu proprietário em relação à um determinado ativo.

Princípios de classificação

Existem cinco processos em um sistema de contabilidade digital, que deve ter pelo menos três estados (centralizado, descentralizado e impossível), e cada um deles pode ser gerido por um cargo ou por cargos separados. Estes processos são: governança, custódia, emissão e distribuição, processamento de transação e auditor.

As diferentes formas como estes processos são geridos leva à diferentes tipos de ativos digitais (que chamaremos de tabela periódica distribuída).

Exemplos

Estes são os termos estabelecidos mais comuns atualmente:

Criptomoeda

Uma rede que executa a emissão e a distribuição inicial de uma moeda, em adição ao processo de transações de forma descentralizada, utilizando um algorítimo matemático seguro e comprovável.

Todos os cinco processos de um sistema de contabilidade digital são geridos por este algorítimo, que é executado independentemente por cada participante da cadeia. A característica chave de uma criptomoeda está em seu nível de descentralização (o número de participantes e a correlação entre suas decisões).

Outra importante característica é a participação independente de permissão, o que requer um sistema sem censura. As condições para uma criptomoeda são: um número indefinido de participantes-validadores, que devem ser totalmente anônimos, sem um sistema de reputação, cujas transações são totalmente privadas.

Um bom exemplo para o que foi listado acima são as moedas baseadas em proof-of-work, como bitcoin e monero.

Moeda com banco centralizado

Um sistema com todos os cinco processos centralizados e geridos por um banco centralizado, onde uma moeda digital é amarrada a uma moeda nacional em uma razão 1:1.

Moeda digital

Em alguns sistemas, processos como a validação de transações, a definição e atualização de taxas podem ser feitas através de uma rede descentralizada de usuários – enquanto a emissão e distribuição inicial é controlada por uma organização centralizada.

Custódia não é aplicável, pois não há garantia. Bons exemplos são Ripple, IOTA e Stellar.

Tokens apoiados em commodities

Uma commodity é um item produzido para satisfazer vontades ou necessidades. Quando tokens possuem lastro em commodities, significa que o grupo de proprietários (ou proprietário) possui parte ou totalmente uma commodity. Tokens são geridos em um sistema com governança, custódia e emissão centralizadas. Este processo é executado por um prestador de serviços, ou por alguém que detenha a custódia da commodity física.

Um token é sempre vinculado a uma quantidade fixa de commodity, e a razão 1:1 é garantida por um grupo.

Um exemplo é o dólar estadunidense antes de 1971, uma moeda que representava uma quantidade de ouro ou um recibo de armazém (um documento que comprova a posse de commodities) – nesse caso, processamento e auditoria são feitos igualmente de forma centralizada.

Já no mundo das criptos, um exemplo seria a Tether, que é descentralizada.

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Equity tokens

No português, tokens de patrimônio líquido. Título financeiro é um instrumento financeiro fungível que guarda certo valor.

Tokens de patrimônio líquido representa quanto você possui de uma companhia ou quanto você participa em seus ganhos. Tokens de título financeiro, que estão inseridos nessa classificação, representam sua parte em um fluxo de dinheiro gerado pelo sistema.

Essas tokens são geridas em um sistema com governança, custódia e emissão centralizadas. Esses processos são executados por um depositário ou por uma companhia. Neste sistema, um token sempre representa uma parcela em ações ou uma porcentagem em um fluxo de dinheiro. O processamento destes tokens pode ser feito de forma centralizada por um depositário.

Um exemplo deste sistema no mundo das criptos seriam os tokens DAO, cujo processamento é descentralizado.

Tokens contábeis

Tokens contábeis representam algo que faz sentido contabilizar, mas que não faz sentido transferir.

Governança, emissão, custódia e auditoria são centralizadas. Identity, reputation e ratings são exemplos destes ativos.

Web-of-trust identities pertencem à esta categoria. Contudo, neste caso, emissão, custódia e auditoria são descentralizadas.

Colecionáveis digitais

Um “colecionável” é qualquer objeto considerado como valioso a um colecionador.

Estes objetos são únicos e infungíveis. Tokens desta categoria representam a posse de um dado objeto. Governança e emissão são centralizados.

CryptoKitties são exemplos destes ativos.

Utility tokens

Utility tokens conferem o direito de utilizar funcionalidades de um sistema. Sua função é tornar o uso do sistema mais simples, o que acontece sobre certas condições.

Eles proporcionam diversas funções – como uma moeda interna, aumentam o valor do sistema. À longo prazo, deve ser fragmentadas em diferentes divisões – moeda digital, tokens de título financeiro, tokens contábeis. Governança e emissão são centralizadas.

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Como determinar o tipo de um ativo digital

Aqui vão algumas perguntas para verificar a qual categoria um token pertence:

  • O token representa um certo ativo?
    1. Ele é fungível?
    2. A proveniência do ativo importa?
  • A emissão do token é predeterminada por um algorítimo matemático?
    1. Há como usuários mudaram sua constituição?
  • Faz sentido transferir tokens entre os usuários?
  • Possuir o token lhe permite participar de lucros gerados pelo sistema?
  • O sistema possui um proprietário definido que está fornecendo o serviço ou garantindo a custódia de um ativo ao qual o token está atrelado?
  • Qualquer transação feita com um token afeta todos os participantes do sistema?
  • Ter posse deste token significa ter parte de um negócio?
  • Faz sentido o preço do token aumentar indefinidamente?
    1. Como as taxas do sistema serão afetadas?
    2. Se o sistema fornece o serviço, ele se tornará muito caro?
  • O sistema pode funcionar sem um token?
    1. Ele poderia utilizar outros tokens (como criptomoedas) para realizar pagamento e recompensar seus participantes?
    2. O sistema precisa de sua própria política monetária (controlando oferta e demanda)?
    3. Se o token é usado para prevenir um ataque DDoS, há formas alternativas de proteção?

A análise

Antes da bitcoin emergir, acreditava-se que todos os processos só poderiam ser geridos de forma centralizada. Contudo, o Bitcoin mostrou que é possível criar sistemas financeiros descentralizados. Ao afirmarmos anteriormente que cada sistema pode ser executados de três formas (centralizado, descentralizado e impossível), o resultado são centenas de combinações possíveis.

Vamos expor alguns:

  • Todos os processos são centralizados – isso é “ok”, e nos dá a moeda com banco centralizado.
  • Todos os processos são descentralizados – uma opção que nos deu bitcoin.
  • Os quatro primeiros processos são descentralizados, mas a auditoria é impossível – sistemas como este existem, como é o caso da criptomoeda monero (ou zcash).
  • Os quatro primeiros processos são descentralizados, mas a auditoria é centralizadal. Isso é possível – por exemplo, se os parâmetros iniciais de segurança do zcash não tivessem sido destruídos.
  • Governança e emissão são centralizados, mas custódia, processamento e auditoria são descentralizados – como acontece com Ripple e Stellar.
  • Todos os processos são centralizados, mas transferências são impossíveis – como acontece com PKI (uma infraestrutura centralizada de chaves de acesso públicas).
  • Governança é centralizada, custódia, emissão, auditoria são descentralizadas, mas transações são impossíveis – isso corresponde à identity nos blockchains.
  • Transações são impossíveis, todo o resto é descentralizado (auditoria pode ser impossível) – web-of-trust identities.
  • Custódia é impossível, emissão e outros processos são centralizados – land registry.
  • Custódia é impossível; emissão e governança são centralizados; processamento e auditoria são descentralizados – land registry em um blockchain.

Admirável mundo novo

Estamos à beira de um grande avanço, onde veremos novos modelos de negócios e aplicação de “tokenização”. Isto se tornará possível devido às melhorias tecnológicas nas ferramentas de criptografia (encriptação homomórfica eficiente, rápidas e curtas zero-knowledge proofs, computação quântica), malhas de redes, infraestrutura de networking, etc.

Estes novos modelos de negócios se basearão principalmente em novos tipos de ativos sintetizados e resultarão em mudanças sociais e econômicas significativas. É importante ter um vocabulário preciso para que tudo faça sentido.

Fonte: CoinDesk

Edição: Webitcoin