Fluxo bilionário em USDT liga exchanges do Reino Unido ao IRGC

O uso de USDT em transações internacionais voltou ao centro de um debate sensível após uma nova investigação apontar que duas plataformas registradas no Reino Unido movimentaram cerca de US$ 1 bilhão ligado ao IRGC. A análise, conduzida pela TRM Labs, avaliou a atividade das exchanges Zedcex e Zedxion e revelou padrões que sugerem uma estrutura financeira paralela operando com foco em agilidade e baixo custo por meio da rede Tron.

As duas exchanges aparentavam operar como serviços convencionais. No entanto, os dados mostraram fluxos contínuos relacionados a carteiras sancionadas, intermediários offshore e empresas iranianas envolvidas com o setor de cripto. Além disso, a TRM Labs conseguiu mapear parte da infraestrutura das plataformas após realizar pequenos depósitos e retiradas, o que confirmou a conexão operacional entre elas.

Aumento das transações em cripto e uso estratégico de Tron

A investigação destacou que a maior parte das movimentações suspeitas ocorria em USDT pela blockchain Tron. Esse formato permitia ao IRGC atuar com velocidade, reduzindo taxas e dispersando suas transações. A partir desse rastreamento, os analistas monitoraram 187 endereços atribuídos pelas autoridades de Israel ao grupo. Com base nesse conjunto de dados, a TRM Labs estimou que mais da metade de todo o volume transacionado entre 2023 e 2025 pelas duas plataformas tinha relação direta com entidades ligadas ao IRGC.

O total movimentado cresceu ao longo do período, o que indica uma evolução gradual da estratégia do grupo. Assim, as exchanges parecem ter servido como corredores financeiros constantes. Esse padrão forneceu ao IRGC uma rota alternativa para enviar e receber recursos que não poderiam circular no sistema bancário tradicional, devido às sanções impostas ao Irã.

Riscos regulatórios e inconsistências nas plataformas

As exchanges investigadas mantêm registros ativos no Reino Unido e afirmam cumprir programas de combate à lavagem de dinheiro. No entanto, a TRM Labs identificou divergências relevantes nas listas de países bloqueados. Enquanto a Zedcex incluía o Irã como jurisdição proibida, a Zedxion omitia essa restrição. Além disso, ambas se recusaram a responder aos questionamentos do The Washington Post, que também apurou o caso e confirmou a operação conjunta entre as plataformas.

O Office of Financial Sanctions Implementation, responsável por supervisionar o cumprimento das sanções financeiras no Reino Unido, não comentou o caso. Portanto, especialistas avaliam que a ausência de resposta reforça dúvidas sobre a eficácia do controle regulatório presente no país.

Especialistas apontam criação de estrutura financeira paralela

Segundo representantes da TRM Labs, os dados sugerem que as transações não ocorreram de forma isolada. Em vez disso, indicam a construção de infraestrutura própria para sustentar operações mais amplas e contínuas. Além disso, um ex-integrante do Tesouro dos Estados Unidos afirmou ao The Washington Post que o volume movimentado ao longo de dois anos confirma o uso crescente de cripto na formação de um sistema bancário paralelo capaz de contornar sanções internacionais.

O jornal identificou ainda uma transferência de US$ 10 milhões enviada de uma carteira vinculada ao IRGC para um indivíduo no Iêmen sancionado por financiar os Houthis. Esse movimento reforça, portanto, o papel das exchanges como ferramentas de suporte a aliados regionais do Irã.

Os dados levantados mostram que o uso de plataformas registradas no Reino Unido permitiu ao IRGC movimentar grandes quantias mesmo sob forte pressão internacional. Além disso, o foco no uso de USDT pela rede Tron demonstra uma estratégia que combina velocidade, custos reduzidos e execução prática. Assim, essa infraestrutura paralela ampliou consideravelmente a capacidade do grupo de operar fora dos limites impostos pelo sistema financeiro tradicional.