Economistas pedem avanço em euro digital público
Setenta economistas europeus divulgaram uma carta aberta defendendo que a União Europeia avance com um euro digital público capaz de fortalecer a autonomia financeira do bloco. O documento alertou que decisões equivocadas podem aprofundar a dependência da região de redes estrangeiras e de stablecoins lastreadas em US$.
A carta foi publicada pelo Sustainable Finance Lab, da Universidade de Utrecht, e surge enquanto o Parlamento Europeu discute o formato final da nova moeda digital. Além disso, os economistas afirmam que o risco de o projeto se tornar apenas simbólico cresce caso não sejam adotadas medidas estruturais que garantam um sistema competitivo e seguro.

Riscos de dependência e impacto na infraestrutura de pagamentos
Entre os signatários, nomes como Thomas Piketty e Paul De Grauwe enfatizam que treze países da zona do euro dependem totalmente de redes internacionais de cartões. Segundo eles, essa estrutura expõe governos e consumidores a pressões comerciais externas. Além disso, o avanço de stablecoins apoiadas por empresas dos Estados Unidos amplia a vulnerabilidade estratégica do bloco.
“Essa dependência de provedores estrangeiros expõe a Europa a riscos que estão fora de seu controle”, afirma o texto.
Os especialistas defendem três pilares essenciais para o sucesso da moeda digital. O primeiro exige que o euro digital funcione como base de uma infraestrutura soberana, operada por empresas europeias e com padrões elevados de privacidade. O segundo defende acesso amplo à população, estimulando inclusão financeira. O terceiro recomenda limites de armazenamento amplos e graduais, permitindo que o ativo se consolide como reserva de valor.
No entanto, eles alertam que o projeto pode fracassar caso empresas possam recusar o euro digital ou se os limites forem muito restritivos. Assim, a moeda enfrentaria obstáculos para se tornar alternativa viável no cotidiano.
Visão do BCE e orientação estratégica
O debate ganhou força após um discurso de Philip Lane, do Conselho Executivo do Banco Central Europeu. Em apresentação à Sociedade Econômica Dinamarquesa, Lane explicou que o euro digital integra um esforço maior para modernizar o sistema financeiro diante de mudanças geopolíticas, digitalização e pressões climáticas.

Segundo Lane, o ativo oferecerá uma forma digital de dinheiro do banco central alinhada aos novos meios de pagamento. Além disso, ele destacou o déficit de ativos seguros na Europa e sugeriu ampliar a emissão conjunta de títulos para financiar bens públicos. Lane também citou a proposta de divisão entre blue bonds e red bonds, que utilizaria receitas tributárias previamente garantidas.
Essa abordagem ajudaria a reduzir custos de financiamento ao aumentar o estoque de dívida considerada segura pelos mercados internacionais.
Avanço político e próximos passos
O Banco Central Europeu concluiu a fase técnica do projeto em outubro. A presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou que a parte operacional está pronta e que o avanço agora depende do Parlamento Europeu. Além disso, Piero Cipollone indicou que testes podem começar em 2027, com possível emissão inicial em 2029.
O Conselho da União Europeia também definiu diretrizes, incluindo modos online e offline. A versão offline permitirá transações diretas entre dispositivos, mesmo sem internet, preservando privacidade em compras de baixo valor e seguindo regras contra lavagem de dinheiro.
Lagarde reforçou que o euro digital coexistirá com o dinheiro físico e com stablecoins reguladas pelo MiCA. No entanto, pesquisas internas do BCE mostram que parte da população ainda não vê necessidade imediata para a nova moeda, o que representa um desafio para sua aceitação futura.