Trust Investing: líderes recebem até 16 anos de prisão
“Number One”, pastor e mais 4 são condenados em esquema bilionário de pirâmide: Patrick Abrahão e o pai, Ivonélio, eram responsáveis por captar investidores.
A Trust Investing voltou ao centro das atenções após a Justiça Federal confirmar longas penas aos líderes do esquema que prometia lucros irreais com operações de cripto. A investigação, que apurou fraudes bilionárias, mostrou que o grupo atraiu cerca de 1,3 milhão de brasileiros com falsas promessas de rendimentos e produtos ligados ao mercado digital.
Conforme sentença assinada pelo Juiz Federal Substituto, Felipe Alves Tavares – que data do último dia 22, publicada hoje (27) em Diário da Justiça, a Justiça Federal condenou seis réus acusados de integrar o esquema da Trust Investing. Organização descrita pela acusação como uma estrutura criminosa descoberta na Operação La Casa de Papel, desencadeada pela PF (Polícia Federal) em outubro de 2022. O esquema era voltado à captação ilegal de recursos, gestão fraudulenta de investimentos e lavagem de dinheiro, com atuação no Brasil e no exterior. Além disso, a decisão encerrou um caso que expôs uma das maiores pirâmides financeiras recentes.
“Particularmente mediante a captação e aplicação de recursos financeiros de terceiros, inclusive em caráter transnacional, submetendo as vantagens financeiras a lavagem de dinheiro e, ainda, destinando parte do proveito para o exterior”, cita o relatório da sentença.
Penas elevadas definidas pela Justiça Federal
O julgamento ocorreu na 3ª Vara Federal de Campo Grande/MS e foi concluído com a publicação da sentença no Diário Oficial. Segundo o juiz Felipe Alves Tavares, os condenados receberam penas que chegam a 16 anos, somadas a multas milionárias. Além disso, o grupo terá de pagar R$ 10 milhões por danos morais coletivos, valor estabelecido de forma solidária.
A sentença destacou que o esquema funcionava como um clássico modelo Ponzi. Assim, os líderes dependiam da entrada de novos investidores para manter a estrutura ativa. Conversas interceptadas mostraram que eles sabiam da natureza ilícita das operações e discutiam estratégias para manter a pirâmide funcionando.
Diego Ribeiro Chaves e Diorge Roberto de Araújo Chaves receberam 16 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão. Já Fabiano Lorite de Lima foi condenado a 16 anos e 1 mês. Além disso, Ivonélio Abrahão da Silva recebeu 13 anos, 10 meses e 26 dias, enquanto Patrick Abrahão Santos Silva cumprirá 12 anos, 2 meses e 8 dias. O único a ficar em regime semiaberto, Cláudio Barbosa, terá pena de 7 anos e 11 meses.
Criações de criptoativos e manipulação de valores
As investigações identificaram que o grupo criou criptoativos próprios, como Truster Coin e Trust Energy. Segundo a sentença, os valores desses ativos eram manipulados artificialmente, o que garantia ganhos ilusórios. No entanto, o esquema terminou em rug pull, deixando investidores com moedas sem valor.
Para justificar atrasos nos pagamentos, os responsáveis alegaram ataques hackers e auditorias inexistentes. Além disso, usaram essas narrativas para ocultar bens e tentar reorganizar fluxos financeiros que já estavam insustentáveis.
A Justiça também analisou promessas de lastro em esmeraldas, vinculadas à operação Trust Diamond. A apuração apontou que a extração era ilegal e ocorria sem autorização ambiental, o que configurou crimes adicionais contra o patrimônio da União.
Lavagem de dinheiro e bens apreendidos
O lucro obtido com o esquema era lavado por meio de empresas de fachada, como Victory Pedras Preciosas e Zyon Tecnologia. Além disso, parte dos valores passou por uma instituição religiosa usada para mascarar movimentações suspeitas. O dinheiro obtido ilegalmente financiou carros de luxo, embarcações, imóveis e até cabeças de gado, muitos registrados em nome de terceiros.
A Justiça determinou o perdimento de dezenas de bens apreendidos, como veículos, joias e valores bloqueados. Apenas uma lancha e um Audi A5 foram devolvidos, pois os compradores foram considerados de boa-fé. Além disso, todos os réus seguem proibidos de deixar o país e tiveram os passaportes retidos, embora possam recorrer em liberdade.
O caso ganhou projeção nacional por causa das falsas promessas de lucros de até 300% ao ano e da suposta atuação em mais de 80 países. A interrupção dos pagamentos em 2021 marcou o início do colapso do esquema. Portanto, a nova decisão reforça que a empresa atuava de forma organizada para enganar investidores, movimentar grandes somas e enriquecer seus líderes, deixando prejuízo estimado em mais de R$ 4 bilhões.