Stablecoins no centro do debate
O primeiro dia do MERGE São Paulo 2026 aconteceu hoje (18), aberto ao público, no World Trade Center de São Paulo. O evento que reuniu empresários do setor financeiro e de criptoativos para debater o futuro dos ativos digitais.
E as stablecoins consolidaram-se como o tema central e transcendendo o nicho de cripto e entrando no sistema financeiro tradicional e na estratégia de empresas.
As stablecoins vêm ampliando seu uso em operações ilícitas por oferecerem previsibilidade de valor e menor volatilidade. Além disso, permitem transferências rápidas entre diferentes redes, o que pode atrair agentes criminosos. Por outro lado, esse mesmo ambiente também tem reforçado a atuação das autoridades, que conseguem bloquear carteiras com maior agilidade.
Se antes as stablecoins eram discutidas principalmente como ferramentas de pagamento e reserva de valor, os painéis do MERGE São Paulo indicaram uma expansão significativa dos casos de uso rumo ao mercado institucional. O evento reuniu representantes do Ministério da Justiça e da Advocacia-Geral da União (AGU). Segundo participantes, esses ativos ocupam um papel ambíguo no ecossistema cripto. Ao mesmo tempo em que podem facilitar crimes financeiros, também abrem espaço para respostas mais eficientes.
De acordo com Samuel do Nascimento Souza, comissário especializado em crimes envolvendo criptomoedas, criminosos tendem a buscar estabilidade para financiar operações ilegais. Assim, evitam oscilações bruscas e preservam valor ao longo das transações.
Bloqueio de fundos depende de emissores centralizados
Apesar do uso crescente em crimes, as stablecoins também ampliam a capacidade de bloqueio por parte das autoridades. Segundo a procuradora Ana Paula Bez Batti, a presença de emissores centralizados pode facilitar ações mais rápidas. Dessa forma, pedidos de congelamento tendem a ser executados com maior eficiência.
Em um dos casos citados, investigadores rastrearam cerca de US$ 460 mil em USDT até uma carteira específica. Em seguida, orientaram o Ministério Público a incluir o endereço em uma lista de bloqueio. Como resultado, a resposta ocorreu em poucos dias, o que indica a efetividade desse mecanismo.
Além disso, a interação direta com empresas do setor tem acelerado processos. Nesse contexto, a cooperação com intermediários se tornou um elemento relevante para conter movimentações suspeitas.
Ambiente multichain amplia desafios
Por outro lado, o avanço técnico das operações ilícitas trouxe novas dificuldades. O uso de múltiplas blockchains e bridges fragmenta as transações. Assim, o rastreamento se torna mais complexo e exige maior preparo das equipes.
Segundo especialistas, esse cenário funciona como um labirinto digital. Nesse ambiente, usuários transitam entre redes distintas, o que dificulta a identificação de responsabilidades e a análise de dados.
Mesmo assim, as transações continuam rastreáveis. Conforme discutido no evento, os registros permanecem disponíveis nas redes. Portanto, o desafio está na integração das informações e na capacidade analítica.
Cooperação e tecnologia moldam resposta
Outro ponto central envolve a necessidade de cooperação entre diferentes atores. Investigações não dependem apenas da análise on-chain. Além disso, exigem parcerias com corretoras, emissores e empresas de inteligência.
Segundo os participantes, a combinação entre tecnologia e articulação institucional tende a aumentar a eficácia das ações. Dessa maneira, o rastreamento pode se converter em bloqueios concretos.
O avanço do uso de stablecoins em atividades ilícitas não indica apenas fragilidade do sistema. Em paralelo, também sugere que o mercado desenvolveu mecanismos mais sofisticados de resposta. Iniciativas internacionais acompanhadas pela Chainalysis analisam padrões de uso ilícito e apoiam autoridades.
Em síntese, o cenário aponta para um equilíbrio delicado. Enquanto criminosos exploram a eficiência e estabilidade desses ativos, autoridades ampliam ferramentas de rastreamento e bloqueio. A tendência é de intensificação desse movimento, com avanços simultâneos dos dois lados.