StarkWare propõe proteção quântica para Bitcoin

Uma proposta apresentada por Avihu Levy, diretor de produto da StarkWare, sugere que o Bitcoin pode ganhar uma camada adicional de proteção contra computação quântica sem mudanças no protocolo. A ideia foi publicada no GitHub e descreve um método que opera dentro das regras atuais da rede, sem exigir soft fork ou hard fork.

Batizada de Quantum Safe Bitcoin (QSB), a abordagem busca mitigar riscos associados a avanços da computação quântica. Em especial, considera cenários em que algoritmos como o de Shor poderiam comprometer sistemas de cripto tradicionais. Embora essa ameaça ainda não seja imediata, o tema vem ganhando relevância entre pesquisadores e desenvolvedores.

Nova abordagem tenta contornar limitações do ECDSA

Mecanismo alternativo muda base da segurança

Atualmente, o Bitcoin utiliza o algoritmo ECDSA, baseado na dificuldade do logaritmo discreto em curvas elípticas. Esse modelo permanece seguro contra computadores clássicos. No entanto, análises recentes indicam que máquinas quânticas suficientemente avançadas poderiam explorar vulnerabilidades nesse sistema.

Estimativas citadas por Levy sugerem que centenas de milhares de qubits físicos poderiam, em tese, quebrar chaves ECDSA de 256 bits. Ainda assim, esse cenário depende de avanços tecnológicos que não foram alcançados até o momento, o que mantém o debate em estágio preventivo.

Para lidar com esse possível risco, a proposta introduz o mecanismo chamado hash-to-sig puzzle. Em vez de provar a posse de uma chave privada tradicional, o usuário precisa encontrar um dado cujo hash corresponda a uma assinatura válida. Dessa forma, a segurança deixa de depender exclusivamente de estruturas vulneráveis ao algoritmo de Shor.

O processo envolve tentativa e erro computacional. Até onde se sabe, não existem atalhos eficientes para computadores quânticos resolverem esse tipo de problema. Assim, a robustez do modelo passa a depender principalmente da resistência das funções hash.

Além disso, a proposta não altera diretamente o ECDSA. Em vez disso, modifica as condições de gasto das transações. Como resultado, o formato das transações e as regras de consenso permanecem inalterados.

Maior poder computacional é necessário para QSB. Fonte: GitHub

Custo computacional limita adoção no curto prazo

Uso tende a ser restrito a operações de alto valor

Apesar do potencial técnico, a proposta enfrenta barreiras relevantes. Segundo Levy, cada transação no modelo QSB pode exigir entre US$ 75 e US$ 150 em processamento com GPUs. Portanto, o custo tende a inviabilizar o uso em pagamentos cotidianos.

Por outro lado, o modelo pode encontrar espaço em operações de maior valor. Transferências institucionais e armazenamento em carteiras frias são exemplos que podem se beneficiar dessa abordagem, ainda que de forma seletiva.

Outro ponto importante é a distribuição do esforço computacional. Nesse caso, o custo recai sobre o emissor da transação, enquanto a rede Bitcoin processa essas operações de forma semelhante às tradicionais.

Além disso, a proposta ainda não passou por revisão acadêmica formal nem foi submetida como um Bitcoin Improvement Proposal (BIP). Assim, não há um caminho definido para adoção ou padronização no ecossistema.

Algumas figuras do setor demonstraram interesse. Eli Ben-Sasson, CEO da StarkWare, afirmou que a ideia poderia tornar o Bitcoin resistente a ameaças quânticas já no cenário atual. Ainda assim, essa interpretação é vista como ampla, já que o modelo cobre apenas casos específicos.

Na prática, o QSB surge como uma alternativa complementar e possivelmente temporária. Enquanto isso, a comunidade segue avaliando soluções estruturais mais abrangentes para o longo prazo. Como resultado, a proposta reforça a crescente preocupação com a segurança futura do Bitcoin diante da evolução tecnológica.