Bitcoin e “power projection” nas Forças Armadas dos EUA

Durante audiências do Comitê de Serviços Armados do Senado dos Estados Unidos, em abril de 2026, o comandante do Indo-Pacific Command (INDOPACOM), almirante Samuel Paparo, citou o Bitcoin como uma ferramenta relevante da ciência da computação. Segundo ele, o ativo pode ter papel em “power projection” no campo da cibersegurança militar. Além disso, o comandante afirmou que o INDOPACOM já opera um nó de Bitcoin como parte de testes práticos com o protocolo.

As declarações ocorreram dias após relatos de que o Irã teria exigido pagamentos em Bitcoin para permitir passagem segura pelo Estreito de Hormuz. Nesse contexto, o uso do termo “power projection” remete às ideias de Jason Lowery, pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e assessor do INDOPACOM, autor da tese conhecida como Softwar.

Bitcoin e a lógica de projeção de poder

No campo militar, “power projection” descreve a capacidade de um país influenciar eventos além de suas fronteiras. De acordo com o Departamento de Defesa dos EUA, isso envolve instrumentos políticos, econômicos, informacionais e militares. Assim, essa capacidade vai da diplomacia ao uso de tecnologias estratégicas.

Lowery aplica esse conceito ao ambiente digital. Segundo ele, o Bitcoin pode funcionar como um mecanismo de projeção de poder no ciberespaço, onde formas tradicionais de dissuasão são limitadas. Em outras palavras, o alto consumo de energia do sistema de prova de trabalho cria uma barreira física contra ataques digitais.

Além disso, o pesquisador compara a rede elétrica global a um “macrochip”. Nesse modelo, a mineração de Bitcoin atua como uma lógica programável baseada em energia. Dessa forma, o ambiente digital passa a ter custos físicos reais, o que torna ataques mais caros e menos viáveis.

Multisig, segurança e efeito de dissuasão

Um exemplo prático envolve carteiras multisig, que exigem múltiplas chaves privadas para autorizar transações. Assim, permitem distribuir o controle de fundos entre diferentes locais e jurisdições.

Como resultado, o custo de um ataque aumenta significativamente. Isso ocorre porque um invasor precisaria comprometer várias chaves simultaneamente e sem detecção. Portanto, o modelo reforça o efeito de dissuasão, conceito central em estratégias militares.

Além disso, ao contrário do sistema financeiro tradicional, o Bitcoin apresenta resistência à censura. Ou seja, os usuários mantêm controle direto sobre seus ativos, mesmo diante de tentativas de intervenção.

Electro-Cyber Dome e defesa baseada em energia

Lowery também propõe o conceito de “Electro-Cyber Dome”, um modelo de defesa digital baseado em prova de trabalho. O objetivo é proteger redes contra ameaças comuns no ambiente digital.

Entre os principais riscos estão spam, ataques Sybil, bots automatizados, desinformação em larga escala e ataques DDoS. Além disso, o modelo busca mitigar falsificação de comandos e abuso de privilégios internos. Dessa maneira, a segurança é ampliada por meio de custos computacionais.

Esse princípio não é novo. Ele remonta ao Hashcash, sistema criado para combater spam exigindo trabalho computacional antes do envio de mensagens. No entanto, o Bitcoin expandiu essa abordagem ao introduzir um sistema descentralizado com blockchain público e dificuldade global.

Apesar disso, integrar esse modelo a sistemas externos ainda representa um desafio técnico relevante. Por isso, especialistas seguem debatendo sua viabilidade prática.

Gráfico explicativo sobre mineração e energia no Bitcoin

Limitações, críticas e riscos estratégicos

A teoria de Lowery divide opiniões. Por um lado, há quem considere exagerada a ideia de substituir conflitos militares por disputas computacionais. Por outro, críticos apontam limitações técnicas no uso do protocolo fora do ecossistema do Bitcoin.

Além disso, surgem preocupações estratégicas. Grande parte da produção de chips ASIC está concentrada na China. Assim, o uso de algoritmos baseados em SHA-256 pode criar dependências sensíveis para os Estados Unidos.

Outro ponto envolve a natureza das soluções propostas. Caso sistemas externos utilizem versões simplificadas de prova de trabalho, sem blockchain ou sem o ativo BTC, não se trata do Bitcoin propriamente dito, mas de adaptações do conceito original.

Ilustração sobre segurança e proof of work

 

Aplicações práticas e próximos passos

Apesar das críticas, já existem aplicações do Bitcoin além de pagamentos. Projetos como o SimpleProof utilizam a blockchain para registrar dados e comprovar sua existência em determinado momento, funcionando como um cartório digital descentralizado.

Além disso, experimentos com identidade digital baseada em Bitcoin indicam possíveis caminhos, embora ainda com baixa adoção. Ainda assim, até críticos reconhecem o valor de soluções baseadas em prova de trabalho, especialmente em mecanismos anti-spam.

Em suma, o debate gira em torno da extensão do uso do Bitcoin como infraestrutura de segurança. As declarações do almirante Samuel Paparo indicam que o ativo já integra discussões estratégicas no meio militar. Nesse sentido, cresce o interesse em seu modelo baseado em energia e prova de trabalho, mesmo diante de desafios técnicos e geopolíticos.

O autor:

Contabilidade de Criptomoedas