BRCA mira proteção a desenvolvedores cripto nos EUA

O debate sobre a regulação do mercado de criptomoedas nos Estados Unidos costuma se concentrar no rendimento das stablecoins. No entanto, essa leitura simplifica uma discussão estrutural muito mais ampla. Afinal, enquanto bancos e empresas disputam receitas sobre reservas, uma definição jurídica pode redesenhar o futuro da indústria.

O ponto central está na Seção 604 do projeto conhecido como CLARITY Act. Essa seção trata da responsabilidade legal de desenvolvedores de software não custodial. Em outras palavras, discute se programadores que criam carteiras digitais, protocolos e aplicações descentralizadas podem ser enquadrados como transmissores de dinheiro sob a legislação federal dos Estados Unidos.

Assim sendo, a interpretação dessa regra tem impacto direto sobre a inovação, bem como sobre a permanência de empresas e talentos no país. Portanto, o tema vai além de disputas comerciais envolvendo stablecoins.

BRCA ganha protagonismo regulatório

O Blockchain Regulatory Certainty Act (BRCA) surge como peça central nesse cenário. Com apoio bipartidário, o projeto busca esclarecer que desenvolvedores e provedores de infraestrutura que não controlam fundos de usuários não devem ser classificados como transmissores de dinheiro.

Em princípio, o BRCA estabelece uma distinção essencial: escrever código não equivale a movimentar recursos financeiros. Além disso, a proposta não altera regras de combate à lavagem de dinheiro nem oferece proteção a atividades ilícitas. Seu objetivo é garantir segurança jurídica ao desenvolvimento tecnológico.

Contudo, na ausência dessa proteção, o cenário se torna mais rígido. Desenvolvedores de softwares não custodiais podem ser enquadrados sob a Seção 1960 da legislação federal. Nesse caso, o risco não se limita a sanções administrativas. Há possibilidade de responsabilização criminal, inclusive com penas de prisão.

Esse risco já deixou de ser hipotético. Casos recentes mostram profissionais sendo processados por criarem ferramentas utilizadas por terceiros em atividades controversas. Ainda que não tenham participação direta, esses desenvolvedores enfrentaram penalidades severas.

Casos recentes ampliam pressão jurídica

Atualmente, esses precedentes aumentam o temor no setor. Programar, antes uma atividade essencialmente técnica, passa a carregar riscos jurídicos relevantes. Dessa forma, cresce a preocupação de que os Estados Unidos se tornem um ambiente menos favorável à inovação.

Por outro lado, defensores do BRCA argumentam que a clareza regulatória pode evitar interpretações excessivas. Discussões jurídicas debatidas no Congresso dos EUA,  reforçam que a distinção entre desenvolvedor e intermediário financeiro é crucial para manter a coerência legal.

Risco de fuga de capital e talentos

Caso o CLARITY Act avance sem incorporar as proteções do BRCA, o impacto econômico pode ser imediato. Nesse sentido, empresas, investidores e desenvolvedores tendem a migrar para jurisdições mais favoráveis, como Suíça, Singapura e Emirados Árabes Unidos.

De fato, poucas empresas aceitariam operar em um ambiente onde desenvolver software pode resultar em prisão. Assim, a insegurança jurídica se torna um fator decisivo na escolha de localização.

Além disso, essa possível migração implica não apenas perda de empresas, mas também fuga de capital e redução de investimentos. Como resultado, o ecossistema tecnológico local pode enfraquecer.

Em contrapartida, países com regras claras tendem a atrair inovação. Dessa maneira, a competitividade global dos Estados Unidos pode ser diretamente afetada.

Impacto na economia baseada em IA

O momento do debate é particularmente sensível. Isso ocorre porque coincide com o avanço da chamada economia agentic, baseada em agentes de inteligência artificial capazes de executar transações de forma autônoma.

Esses sistemas dependem de infraestrutura com liquidação contínua, pagamentos instantâneos e verificação criptográfica, características inerentes às blockchains. Em contraste, sistemas financeiros tradicionais apresentam limitações operacionais e custos mais elevados.

Assim, grandes empresas de tecnologia e investidores já reconhecem esse potencial. A expectativa é de crescimento significativo nas próximas décadas. No entanto, paradoxalmente, os próprios desenvolvedores dessa infraestrutura podem ser afastados por falta de proteção legal.

Como consequência, os Estados Unidos correm o risco de perder protagonismo em uma das principais transformações tecnológicas do século.

Princípios legais em jogo

Além das implicações econômicas, a discussão envolve princípios jurídicos fundamentais. Em diversos setores, fabricantes de ferramentas não são responsabilizados pelo uso indevido de seus produtos. Montadoras, por exemplo, não respondem por crimes cometidos com veículos.

No entanto, no caso das criptomoedas, desenvolvedores podem ser tratados de forma diferente. Essa abordagem levanta questionamentos sobre coerência regulatória e coloca em debate valores como liberdade de inovação e livre iniciativa.

Em suma, a decisão sobre o BRCA não se limita a uma questão técnica. Trata-se de definir como os Estados Unidos pretendem posicionar a tecnologia dentro de sua economia. Questões como rendimento de stablecoins seguem relevantes, mas tornam-se secundárias diante da necessidade de proteger quem constrói a infraestrutura do setor.

Assim, o Congresso enfrenta uma janela decisiva. A inclusão de salvaguardas claras pode fortalecer a liderança tecnológica do país. Caso contrário, a inovação tende a buscar ambientes regulatórios mais previsíveis.

O autor:

Contabilidade de Criptomoedas