Pix, FedNow e RTP: como Brasil e Estados Unidos disputam a ‘guerra’ da infraestrutura financeira digital
Entenda a batalha geopolítica entre meios de pagamento, no contexto da visita do presidente Lula aos EUA
Após o recente encontro entre Lula e Trump na Casa Branca, em Washington D.C., um dos temas de expectativa é o possível freio do presidente norte-americano nas investigações sobre o Pix.
Embora a ferramenta brasileira tenha se consolidado como um dos sistemas de pagamentos instantâneos mais bem-sucedidos do mundo, a ascensão de modelos públicos digitais fora da órbita financeira americana passou a despertar atenção estratégica nos Estados Unidos, especialmente em um momento em que diferentes países disputam protagonismo sobre a infraestrutura global de pagamentos, dados financeiros e circulação digital de dinheiro.
Na prática, a avaliação é de que essa movimentação inaugura uma espécie de “guerra” silenciosa pela infraestrutura financeira digital, em que o controle sobre meios de pagamento, liquidação instantânea e dados transacionais passa a representar não apenas vantagem econômica, mas também influência geopolítica e poder regulatório no sistema financeiro internacional.
Durante décadas, o sistema financeiro americano foi visto como referência mundial em inovação, profundidade de mercado e sofisticação tecnológica. Mas quando o tema é pagamentos instantâneos, a dinâmica atual revela um cenário curioso: o Brasil construiu uma infraestrutura pública digital mais integrada, interoperável e amplamente adotada do que a existente hoje nos Estados Unidos.
O contraste entre o Pix brasileiro, o FedNow do Federal Reserve e o RTP (Real-Time Payments) americano mostra que a disputa global por infraestrutura financeira digital vai muito além da velocidade dos pagamentos. “Trata-se de uma disputa sobre soberania tecnológica, controle regulatório, interoperabilidade, dados financeiros e o futuro do dinheiro digital”, explica Carlos Akira Sato, co-Founder da Fenynx Digital Assets e especialista em Mercados Regulados e Infraestrutura Financeira.
Escala transacional: o contraste entre Brasil e Estados Unidos
Os números de adoção, volume de transações e valor financeiro movimentado mostram que o Pix brasileiro já opera em escala significativamente superior aos sistemas americanos de pagamentos instantâneos.
Enquanto o Pix rapidamente se tornou um instrumento de massa utilizado por consumidores, varejo, empresas e governo, tanto o FedNow quanto o RTP ainda operam em um modelo mais dependente da adesão institucional dos bancos americanos.
“Outro aspecto importante é que o RTP americano concentra operações de maior valor médio, frequentemente associadas a pagamentos corporativos e tesouraria, enquanto o Pix conquistou o varejo de massa e os pagamentos do dia a dia”, afirma o especialista.
| Sistema | País | Lançamento | Usuários / instituições | Volume transacional | Volume financeiro |
| Pix | Brasil | 2020 | +170 milhões de usuários | +7 bilhões de transações em jan/2026 | +R$ 3 trilhões em out/2025 |
| FedNow | Estados Unidos | 2023 | +1.600 instituições financeiras | 8,4 milhões de transações em 2025 | US$ 853,4 bilhões em 2025 |
| RTP | Estados Unidos | 2017 | +950 instituições financeiras | 107 milhões de transações no 2T25 | US$ 481 bilhões no 2T25 |
Fontes: Banco Central do Brasil, página Pix em números / estatísticas, que informa mais de 7 bilhões de transações realizadas em janeiro de 2026 e volume superior a R$ 3 trilhões em outubro de 2025; Federal Reserve Financial Services, FedNow Service Volume and Value Statistics e dados de 2025 consolidados, indicando mais de 8,4 milhões de pagamentos liquidados e US$ 853,4 bilhões em valor no ano; The Clearing House, RTP Network Statistics e release de 17 de julho de 2025, informando 107 milhões de transações e US$ 481 bilhões no 2T25.
O RTP foi lançado em 2017 pela The Clearing House, entidade privada controlada pelos maiores bancos americanos. O objetivo era modernizar os pagamentos instantâneos nos Estados Unidos sem depender diretamente do Federal Reserve como operador central da infraestrutura. “O modelo americano seguiu sua lógica histórica, com forte protagonismo do setor privado, competição entre redes e menor centralização regulatória”, acrescenta Akira.
Mas o lançamento do FedNow em 2023 revelou que o Federal Reserve percebeu um risco estratégico relevante. Permitir que a infraestrutura de pagamentos instantâneos fosse controlada exclusivamente pelo setor privado poderia ampliar concentração financeira, fragmentação operacional e dependência sistêmica das grandes instituições bancárias. “O FedNow surge, portanto, não apenas como solução tecnológica, mas também como resposta institucional do governo americano ao avanço do RTP”.
Já o Brasil seguiu um caminho completamente diferente. Segundo Akira, o Banco Central brasileiro desenhou o Pix desde o início como infraestrutura pública nacional, interoperável e obrigatória para os principais participantes do sistema financeiro.
“Em vez de múltiplas redes concorrentes, o BC optou por uma arquitetura unificada, centralizada e altamente regulada. O resultado disso foi impressionante, porque, em poucos anos, o Pix atingiu níveis de adoção raramente observados em sistemas financeiros de grande escala. Bancos tradicionais, fintechs, varejo, governo, marketplaces e consumidores passaram a utilizar o sistema de forma massiva, criando uma padronização operacional inédita no mercado brasileiro”.
Hoje, o Pix funciona como uma camada estrutural da infraestrutura financeira digital brasileira. A agenda evolutiva do Pix inclui Pix Automático, Open Finance, QR interoperável, cobrança híbrida, pagamentos offline, integração futura com Drex (futuro) e potencial expansão internacional. “O Brasil opera um sistema mais integrado, coordenado e interoperável. Nos Estados Unidos, por outro lado, o sistema continua fragmentado entre ACH, Fedwire, RTP, FedNow, cartões, wallets privadas e big techs financeiras”, compara o especialista.
A coexistência entre RTP e FedNow, conforme Akira, ainda convive com forte dependência das estruturas tradicionais de cartões e ACH, preservando parte importante da intermediação histórica do sistema bancário americano
“Essa diferença talvez explique por que o Pix alcançou uma velocidade de adoção muito superior à observada no mercado americano. A verdadeira disputa, contudo, vai além dos pagamentos instantâneos. Ela envolve o futuro da infraestrutura do dinheiro digital, a relação entre setor público e privado e o avanço das stablecoins como potencial camada alternativa de liquidação financeira global”, explica.
Outro aspecto estratégico é que o Pix reduziu drasticamente custos transacionais e ampliou competição no sistema financeiro brasileiro. Pequenas fintechs passaram a competir com grandes bancos utilizando a mesma infraestrutura pública de liquidação instantânea.
“Nesse contexto, o Brasil parece ter tomado uma decisão estratégica clara: Pix, Drex (futuro) e sistema regulado formarão o núcleo da infraestrutura financeira digital nacional. E nesse contexto, o debate vai além da tecnologia e entra nos campos geopolítico, regulatório e econômico. Porque quem controlar a infraestrutura dos pagamentos instantâneos controlará, em grande medida, os dados financeiros, os fluxos transacionais, a liquidez e a arquitetura do sistema financeiro digital do futuro”, conclui Akira.
Quadro comparativo: Pix x FedNow x RTP
| Aspecto | Pix (Brasil) | FedNow (EUA) | RTP (EUA) |
| Operador | Banco Central do Brasil | Federal Reserve | The Clearing House |
| Natureza | Infraestrutura pública | Infraestrutura pública | Infraestrutura privada |
| Modelo | Centralizado e interoperável | Paralelo ao sistema privado | Rede privada bancária |
| Participação | Obrigatória para grandes instituições | Facultativa | Facultativa |
| Liquidação | Instantânea 24/7 | Instantânea 24/7 | Instantânea 24/7 |
| Adoção | Massiva e nacional | Ainda em expansão | Concentrada em grandes bancos |
| Volume transacional | +7 bilhões em jan/2026 | 8,4 milhões em 2025 | 107 milhões no 2T25 |
| Volume financeiro | +R$ 3 trilhões em out/2025 | US$ 853,4 bilhões em 2025 | US$ 481 bilhões no 2T25 |
| Integração com Open Finance | Sim | Limitada | Limitada |
| Integração futura com moeda digital | Drex | Ainda indefinida | Ainda indefinida |
| Relação com stablecoins | Defesa do sistema regulado | Convivência competitiva | Convivência competitiva |
| Fragmentação do sistema | Baixa | Alta | Alta |
No cenário global atual, o Pix talvez seja mais do que um sistema de pagamentos instantâneos. Pode ser o primeiro grande caso de sucesso de uma infraestrutura pública nacional de finanças digitais construída para competir diretamente com redes privadas globais.
Fonte:
Carlos Akira Sato – Co-Founder da Fenynx Digital Assets e especialista em Mercados Regulados, Infraestrutura Financeira, Governança e Inovação. Vice-Presidente de Relações Institucionais da PAGOS.
*Comunicado de imprensa.