BIS alerta: Tether enfrenta risco de liquidez

Manter reservas em ativos considerados os mais seguros do mundo não garante proteção total em cenários de estresse financeiro. Essa é a principal conclusão de uma análise do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Segundo a instituição, emissores de stablecoins como Tether e Circle podem enfrentar riscos relevantes de liquidez, mesmo com grande parte dos recursos alocada em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

O ponto central não está na qualidade dos ativos, mas na velocidade de conversão em dinheiro. Em outras palavras, em um cenário de pânico, investidores podem tentar resgatar seus tokens simultaneamente. Assim, até carteiras compostas por T-bills podem não ser liquidadas com rapidez suficiente para atender à demanda.

Concentração amplia vulnerabilidade no setor

Domínio de Tether e Circle no mercado global

Dados do Banco Central Europeu indicam que Tether e Circle concentram cerca de 90% do mercado global de stablecoins. Esse nível de concentração cria um ponto crítico de risco sistêmico. Caso ambas precisem vender grandes volumes de títulos ao mesmo tempo, o impacto pode ultrapassar o universo das criptomoedas.

Além disso, a liquidação simultânea pode pressionar os mercados monetários tradicionais. Como resultado, preços podem cair e a liquidez geral diminuir. Portanto, o risco deixa de ser isolado e passa a ter implicações mais amplas no sistema financeiro.

O aumento da exposição reforça esse cenário. Em 2024, o Tether tornou-se o sétimo maior comprador de títulos do Tesouro dos EUA, com aquisições líquidas de US$ 33,1 bilhões. Com isso, ganhou relevância sistêmica, mas também ampliou a exposição a eventuais corridas por resgates.

Reservas seguras não eliminam riscos estruturais

Mudanças na composição não resolvem o problema

Nos últimos anos, emissores de stablecoins buscaram melhorar a transparência e a qualidade das reservas. Em outubro de 2022, o Tether eliminou completamente o uso de commercial paper e passou a manter uma carteira predominantemente composta por títulos do governo dos EUA.

Da mesma forma, a Circle, responsável pelo USDC, adota uma abordagem mais transparente, com relatórios frequentes e concentração em ativos de curto prazo. Ainda assim, o BIS avalia que essas mudanças não eliminam vulnerabilidades estruturais.

Com efeito, fundos tradicionais do mercado monetário enfrentam desafios semelhantes, mas operam sob regulações rigorosas, incluindo limites de resgate e exigências de liquidez. Em contrapartida, emissores de stablecoins ainda atuam sem grande parte dessas salvaguardas em várias jurisdições.

Além disso, o setor carece de mecanismos padronizados de proteção. Nesse sentido, em momentos de estresse, a ausência dessas medidas pode amplificar riscos, especialmente no ecossistema de stablecoins.

Impactos potenciais no sistema financeiro

Riscos vão além do mercado cripto

Autoridades monetárias acompanham de perto o avanço das stablecoins. O Banco Central Europeu já destacou sua relevância para as condições do mercado monetário. Ao mesmo tempo, o Federal Reserve demonstrou preocupação com a migração de depósitos bancários tradicionais para esses ativos.

Se consumidores passarem a manter recursos em USDT ou USDC, os bancos podem perder uma fonte relevante de financiamento. Consequentemente, a capacidade de concessão de crédito pode ser afetada. Nesse cenário, o capital deixa o sistema bancário e passa a financiar a compra de títulos públicos por emissores de stablecoins.

Outro fator relevante é a baixa diversificação do setor. Como resultado, a concentração em poucas empresas aumenta a exposição a choques coordenados. Caso ocorra perda de confiança, o risco de corridas por resgates tende a crescer de forma significativa.

Pressão regulatória ganha força global

Regras mais rígidas em debate

Diante desse contexto, aumenta a pressão por regulamentação nos Estados Unidos e na Europa. Entre as propostas estão exigências semelhantes às aplicadas a bancos e fundos monetários, como padrões mais rígidos de reservas e auditorias frequentes.

Além disso, autoridades avaliam mecanismos de controle de resgates para reduzir a probabilidade de crises de liquidez. Ainda assim, a implementação dessas regras varia entre jurisdições, mantendo o setor em fase de transição.

Em suma, o alerta do BIS indica que, embora a qualidade das reservas tenha melhorado, os desafios estruturais persistem. A combinação de alta concentração, dependência de liquidação de ativos e ausência de salvaguardas cria um cenário sensível. Assim, em momentos de estresse, o risco não está na segurança dos ativos, mas na capacidade de convertê-los rapidamente em liquidez.