SEC adia plano de ações tokenizadas nos EUA
A SEC, reguladora do mercado financeiro dos Estados Unidos, decidiu adiar a implementação de um modelo que permitiria a negociação de ações tokenizadas em infraestrutura baseada em blockchain. A informação foi divulgada pela Bloomberg em reportagem.
Anteriormente, a proposta vinha sendo conduzida sob a liderança do presidente da SEC, Paul Atkins. A expectativa era que o plano fosse apresentado ainda nesta semana. No entanto, o adiamento indica que o órgão busca maior alinhamento regulatório antes de avançar.
O projeto integra o chamado “Project Crypto”, uma iniciativa mais ampla que pretende flexibilizar regras para ativos digitais e estimular a inovação no mercado financeiro dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a proposta levanta preocupações entre participantes tradicionais.
Modelo de ações tokenizadas entra no radar regulatório
No centro da proposta está a chamada “isenção de inovação”. Esse mecanismo abriria espaço para a criação de tokens digitais vinculados a ações de empresas como Apple, Nvidia e Tesla. Esses ativos poderiam ser negociados de forma contínua, ou seja, 24 horas por dia, sete dias por semana.
Além disso, a negociação ocorreria em plataformas descentralizadas, sem depender diretamente da infraestrutura das bolsas tradicionais. Dessa forma, o modelo criaria uma alternativa ao sistema financeiro convencional e ampliaria o acesso a investidores globais.
Por outro lado, a proposta permitiria que terceiros criassem versões tokenizadas dessas ações sem autorização das empresas emissoras. Em outras palavras, agentes externos poderiam desenvolver representações digitais baseadas no preço dos ativos e disponibilizá-las em protocolos de finanças descentralizadas.
Esses tokens funcionariam como “espelhos” das ações originais. Contudo, não garantiriam automaticamente direitos tradicionais, como voto ou dividendos. Ainda assim, a SEC avalia exigir que plataformas ofereçam esses direitos, sob pena de remoção dos ativos.
Esse movimento ocorre em paralelo ao crescimento do interesse por ativos digitais. Nesse sentido, a tokenização surge como uma ponte potencial entre o mercado tradicional e o ecossistema cripto.
Impactos estruturais no mercado financeiro
A proposta representa uma mudança estrutural relevante. Afinal, permitiria a coexistência de dois sistemas: o tradicional e um ambiente descentralizado. Assim, investidores poderiam escolher entre diferentes formatos de negociação para o mesmo ativo.
Entretanto, essa duplicidade pode gerar desafios. Por exemplo, a criação de múltiplas versões digitais de uma mesma ação tende a fragmentar a liquidez. Como consequência, isso pode afetar a formação de preços e a eficiência do mercado.
Além disso, surgem dúvidas sobre transparência e padronização. Nesse contexto, especialistas apontam riscos relacionados à segurança jurídica, sobretudo pela ausência de vínculo direto com as empresas emissoras.
Pressão de bolsas influencia decisão da SEC
O adiamento ocorreu após a SEC receber contribuições de importantes participantes do mercado. Entre eles, executivos de bolsas de valores e instituições financeiras demonstraram preocupação com os impactos da medida.
A Federação Mundial de Bolsas, que reúne Nasdaq, Cboe e CME Group, enviou uma carta à SEC em novembro de 2025. No documento, o grupo alertou que a iniciativa poderia enfraquecer proteções aos investidores. Além disso, argumentou que regras mais flexíveis para plataformas cripto criariam concorrência desigual.
Segundo a organização, implementar esse modelo antes de garantir total conformidade regulatória pode gerar efeitos negativos. Portanto, o adiamento reflete, ao menos em parte, a necessidade de avaliar esses riscos com maior profundidade.
Enquanto isso, diferentes abordagens disputam espaço. Em março de 2026, por exemplo, a Nasdaq recebeu aprovação da SEC para um modelo próprio de tokenização. Nesse caso, todas as operações permanecem dentro da infraestrutura da bolsa.
Modelos concorrentes e próximos passos
Diferentemente da proposta mais ampla da SEC, o modelo da Nasdaq preserva integralmente os direitos dos acionistas. Além disso, utiliza o blockchain corporativo da DTCC, reforçando o controle institucional.
Em contrapartida, a “isenção de inovação” permitiria um ecossistema paralelo mais aberto. Nesse ambiente, múltiplos emissores poderiam lançar tokens vinculados ao mesmo ativo. Ainda que isso estimule a inovação, também aumenta a complexidade do mercado.
Em suma, o adiamento indica que a SEC tenta equilibrar inovação e proteção ao investidor. A decisão final dependerá da análise das contribuições recebidas e da definição de regras mais claras.
Até o momento, não há nova data para o anúncio do modelo. Ainda assim, o tema segue no centro do debate regulatório e pode redefinir a negociação de ações nos Estados Unidos nos próximos anos.