Morgan Stanley: IA desafia elasticidade dos EUA
Os investimentos em IA levaram o Morgan Stanley a revisar uma dinâmica central da economia dos Estados Unidos. Andrew Sheets, chefe global de pesquisa em renda fixa do banco, apresentou a análise em um podcast publicado em 11 de maio.
Segundo Sheets, os gastos com infraestrutura de inteligência artificial podem reduzir a sensibilidade da demanda ao avanço dos preços. Em outras palavras, grandes empresas seguem comprando insumos essenciais para IA mesmo após fortes aumentos de custos.
Assim, a leitura do banco desafia um princípio econômico clássico. Normalmente, preços mais altos desestimulam novas compras. Ainda assim, a corrida por capacidade computacional, data centers e energia continua acelerada.
Custos sobem, mas empresas mantêm pedidos
De acordo com Andrew Sheets, alguns componentes centrais da infraestrutura de IA registraram altas expressivas nos últimos 12 meses. O cobre subiu 40% na comparação anual. Além disso, as turbinas a gás avançaram 50%. Já os chips de memória acumularam valorização entre 150% e 300% no mesmo período.
Mesmo com esse encarecimento, as empresas continuam ampliando pedidos. Para Sheets, esse gasto é “singularmente insensível a preço”. Dessa forma, companhias envolvidas nessa expansão seguem comprando chips, equipamentos de energia e capacidade de data center, apesar do valor das faturas.
Esse comportamento ganhou relevância porque aponta uma mudança no mecanismo tradicional de ajuste da economia. Afinal, quando uma parcela importante do investimento corporativo deixa de responder ao aumento dos preços, a pressão inflacionária pode durar mais. Nesse sentido, o tema passou a interessar não apenas executivos de tecnologia, mas também analistas de crédito, inflação e juros.
Projeções do banco para 2026 e 2027
O Morgan Stanley agora projeta que grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos invistam US$ 800 bilhões em IA em 2026. O valor representa quase o dobro das estimativas anteriores para o período e cerca de três vezes o montante gasto em 2024.
Além disso, para 2027, a previsão sobe para US$ 1,1 trilhão. Com efeito, esses números ajudam a explicar por que a IA passou de tendência corporativa para variável macroeconômica.
O banco entende que esse ciclo de investimento pode influenciar crescimento, inflação e condições financeiras de forma direta. Por isso, a discussão ganhou espaço também entre investidores de renda fixa e gestores institucionais.
PIB ganha impulso, mas inflação segue no radar
Andrew Sheets descreveu o cenário como uma combinação de fatores positivos e negativos. Por um lado, o forte volume de capital destinado à IA tende a sustentar a atividade econômica. Assim, gastos dessa magnitude apoiam o crescimento do PIB, favorecem o emprego em construção e manufatura e reforçam resultados corporativos.
No cenário de meio de ano do Morgan Stanley, a expectativa é de alta de 7% nos investimentos das empresas dos Estados Unidos no quarto trimestre de 2026. Em seguida, para 2027, a previsão aponta crescimento adicional de 8%. Segundo o banco, os gastos com infraestrutura de IA terão participação relevante nesse avanço.
Por outro lado, a continuidade das compras mesmo com custos crescentes pode dificultar o controle da inflação. Se empresas mantêm a demanda por cobre e chips de memória apesar dos reajustes, produtores tendem a enfrentar menos resistência para elevar preços. Portanto, a inflação pode se mostrar mais persistente do que parte do mercado espera.
Essa lógica também importa para quem acompanha o mercado cripto, ainda que o tema tratado por Sheets não envolva diretamente criptomoedas. Afinal, juros mais altos por mais tempo costumam influenciar a precificação de ativos de risco em várias classes.
Crédito corporativo entra na equação
Além da inflação, Sheets destacou possíveis reflexos no mercado de crédito. Na avaliação do executivo, os spreads de crédito podem se ampliar no mercado de títulos corporativos. Isso ocorreria porque empresas que financiam grandes projetos de expansão com emissão de dívida pressionam o ambiente mais amplo da renda fixa.
Se um número suficiente de companhias recorrer ao endividamento para bancar infraestrutura de IA, o prêmio de risco dos títulos corporativos pode subir. Como consequência, o custo de captação tende a ficar mais alto de forma disseminada. Desse modo, o efeito da IA não se limitaria ao setor de tecnologia, mas alcançaria diferentes partes do sistema financeiro.
Renda fixa observa efeito sobre juros
Para investidores em renda fixa, o impulso inflacionário associado aos gastos com IA pode manter os juros elevados por mais tempo. Segundo a tese de Sheets, o Federal Reserve tenta desacelerar a economia. Ao mesmo tempo, porém, existe um motor de investimentos próximo de US$ 1 trilhão operando com aparente imunidade ao aperto monetário.
Nesse cenário, a transmissão tradicional da política de juros perde eficiência. Uma política monetária mais restritiva pode ter menos efeito do que o esperado sobre segmentos ligados à expansão da inteligência artificial. Isso acontece porque a prioridade estratégica das empresas continua sendo ampliar capacidade computacional, energia e data centers, mesmo sob custos crescentes.
Sheets ressaltou que sua análise se refere aos mercados financeiros tradicionais. Ou seja, não houve menção a moedas digitais ou ativos do mercado de criptomoedas. Ainda assim, a tese do Morgan Stanley reúne números relevantes e efeitos potenciais amplos para a economia dos Estados Unidos.
Em suma, o banco aponta um cenário no qual cobre subiu 40%, turbinas a gás avançaram 50% e chips de memória dispararam entre 150% e 300%. Ao mesmo tempo, projeta US$ 800 bilhões em gastos com IA em 2026 e US$ 1,1 trilhão em 2027, além de crescimento de 7% e 8% nos investimentos empresariais dos Estados Unidos em 2026 e 2027, respectivamente.