BIS valida reservas tokenizadas em pagamentos globais

O Bank for International Settlements (BIS) divulgou em 27 de maio os resultados do Project Agorá. A instituição confirmou que reservas tokenizadas de bancos centrais, combinadas a depósitos tokenizados de bancos comerciais, podem acelerar pagamentos internacionais no atacado. Segundo o BIS, a arquitetura testada permite liquidação atômica, operação contínua e processamento em múltiplas moedas.

Na prática, o experimento indica que a infraestrutura de pagamentos transfronteiriços pode funcionar de forma mais integrada que o modelo atual de bancos correspondentes. Hoje, mensagens, reconciliação, verificações de conformidade e liquidação final costumam ocorrer em etapas separadas. Além disso, essas etapas passam por sistemas distintos, fusos horários diferentes e janelas operacionais limitadas.

O desenho do projeto busca reduzir a fragmentação típica desse arranjo tradicional. Dessa forma, o modelo tenta eliminar atrasos causados pelo encadeamento de vários intermediários em uma única transferência internacional entre instituições financeiras.

Project Agorá reúne bancos centrais e setor privado

O protótipo do Project Agorá usa um livro-razão unificado. Assim, ele reúne em uma única operação os elementos centrais de uma transferência internacional entre instituições financeiras. A princípio, esse desenho reduz a complexidade operacional e encurta o intervalo entre a instrução e a liquidação.

O BIS informou que oito bancos centrais participaram da iniciativa, entre eles o Federal Reserve Bank of New York e o Bank of England. Ademais, mais de 40 instituições financeiras privadas integraram o projeto. Com isso, o teste ganhou escala e passou a refletir um ambiente mais próximo da operação real do sistema bancário internacional.

Segundo os resultados divulgados, o sistema atendeu exigências essenciais, como regras de combate à lavagem de dinheiro e proteção de dados. Além disso, o BIS enfatizou que a liquidação permaneceu ancorada em dinheiro de banco central, e não em um novo token privado. Em outras palavras, a estrutura usou reservas tokenizadas de bancos centrais e depósitos tokenizados de bancos comerciais, sem tokens privados ou stablecoins.

Esse ponto reforça a diferença entre a abordagem institucional do BIS e alternativas comuns no mercado de criptomoedas. Nesse sentido, o projeto delimita o tipo de ativo considerado adequado para infraestrutura crítica de pagamentos no atacado.

Liquidação contínua mira falhas do sistema atual

A capacidade de operar 24 horas por dia, sete dias por semana, aparece como um dos principais ganhos do modelo testado. Afinal, o sistema atual depende dos horários de funcionamento de diferentes centros financeiros. Por consequência, muitas operações precisam esperar a abertura de um mercado para concluir a outra ponta.

Além disso, a liquidação atômica reduz o risco Herstatt, associado ao descasamento temporal entre a entrega de uma moeda e o recebimento de outra em operações cambiais. Assim, o novo arranjo pode diminuir uma vulnerabilidade histórica dos pagamentos internacionais. Ao mesmo tempo, pode simplificar reconciliação, verificação de conformidade e liquidação final em uma mesma infraestrutura.

BIS avança para fase com valor real

Após a etapa de simulação, o BIS anunciou que o Project Agorá passará para uma fase de transações com valor real. Nessa nova fase, moedas selecionadas e participantes específicos do mercado estarão envolvidos. Portanto, o projeto deixa o campo estritamente experimental e avança para um teste mais próximo das condições efetivas de uso.

A entrada recente do Bank of Canada amplia o grupo de bancos centrais participantes. Além disso, o movimento sinaliza que a iniciativa está ganhando escala institucional. Esse avanço também sugere que as próximas etapas devem concentrar atenção em pares cambiais relevantes e líquidos, em vez de corredores exóticos ou de baixo volume.

O projeto se apoia em trabalhos anteriores conduzidos pelo próprio BIS, como o Project Helvetia e o Project mBridge. Ambos exploraram modelos de tokenização em múltiplas jurisdições. Conforme o relatório econômico anual de junho de 2025, o BIS apresentou uma estrutura em “trilogia”. Nela, reservas tokenizadas de bancos centrais e dinheiro bancário comercial tokenizado ocupam papel central em um ecossistema financeiro de nova geração.

Estratégia indica continuidade institucional

Esse histórico mostra continuidade estratégica. Em vez de tratar a tokenização como um experimento isolado, o BIS conecta diferentes iniciativas para testar infraestruturas de liquidação mais modernas. Dessa maneira, a instituição tenta preservar o papel central do dinheiro emitido por bancos centrais, enquanto avalia inovação, controle regulatório e segurança sistêmica.

Para bancos, operadores de câmbio e agentes de pagamentos internacionais no atacado, os próximos anúncios sobre moedas selecionadas devem indicar o alcance real do projeto. Ainda assim, os resultados publicados em 27 de maio já mostram uma mensagem clara. A modernização institucional dos pagamentos globais deve passar por reservas tokenizadas de bancos centrais e depósitos tokenizados de bancos comerciais, não por tokens privados ou stablecoins.

Como resultado, o Project Agorá demonstrou uma estrutura com verificações de conformidade, proteção de dados e liquidação em dinheiro de banco central. Com a entrada do Bank of Canada e a transição para transações com valor real, o BIS reforça a tese de que a tokenização pode modernizar pagamentos transfronteiriços sem romper com a base monetária tradicional.