Petróleo: importação da China é a menor desde 2022
A China registrou em abril de 2026 seu pior desempenho recente nas importações de petróleo bruto, em meio à escalada militar entre Irã, Estados Unidos e Israel. No mês, as compras externas caíram 20% ante abril do ano anterior, para 38,5 milhões de toneladas métricas. Assim, o resultado marcou o menor nível desde julho de 2022 e aumentou a pressão sobre o mercado global de energia.
A dinâmica do episódio aponta o aperto na oferta do Oriente Médio como principal causa da queda. Desde o início de março de 2026, o Estreito de Ormuz enfrenta forte disrupção após a intensificação do conflito no fim de fevereiro. Com isso, a China perdeu acesso a uma fonte relevante de barris com desconto. O país vinha comprando entre 1,0 milhão e 1,4 milhão de barris por dia de petróleo iraniano. Esse volume equivalia a cerca de 12% a 13% das importações totais chinesas de petróleo bruto.
Além disso, o choque atinge uma cadeia já sensível a custos, fretes e risco geopolítico. A importância do Estreito de Ormuz ajuda a explicar a dimensão do problema. A U.S. Energy Information Administration estima que a rota responda, em condições normais, por cerca de um quinto do consumo global de petróleo.
Refinarias independentes perdem barris iranianos
Teapots enfrentam margens ainda mais apertadas
O impacto recai com mais força sobre as refinarias independentes chinesas, conhecidas como teapots, concentradas principalmente na província de Shandong. Em grande medida, esse grupo estruturou seu modelo de negócios com base no acesso ao petróleo iraniano com desconto. Portanto, sem esses carregamentos, as margens, que já eram apertadas, ficam ainda mais pressionadas.
Para reduzir parte da lacuna, a China ampliou a busca por petróleo russo. Ainda assim, as importações totais do país encolheram em cerca de 3,6 milhões de barris por dia nos meses seguintes ao fechamento do Estreito de Ormuz. Em outras palavras, a substituição parcial por barris russos não compensou integralmente a perda do fluxo iraniano.
Ao mesmo tempo, Pequim dispõe de uma almofada relevante no curto prazo. Suas reservas estratégicas de petróleo podem sustentar aproximadamente 120 dias de importações líquidas. Ademais, o armazenamento flutuante de petróleo bruto de origem iraniana também pode complementar a oferta em caráter emergencial. Ainda assim, esse colchão apenas compra tempo e não elimina o desequilíbrio estrutural de abastecimento.
Nesse contexto, o mercado acompanha a reação das autoridades chinesas e o comportamento das refinarias privadas. Afinal, se a interrupção persistir, o uso mais agressivo das reservas pode sinalizar que Pequim vê uma crise mais duradoura na principal rota energética da região.
Brent acima de US$ 120 amplia prêmio de risco
Ormuz eleva tensão no mercado global
A restrição em Ormuz também elevou a pressão sobre os preços internacionais. O barril do Brent chegou a superar brevemente US$ 120, em meio ao aumento do prêmio de risco geopolítico. Nesse sentido, a alta não reflete apenas a perda física de oferta. Ela também incorpora a incerteza sobre a duração do conflito e a segurança do transporte marítimo.
Do lado iraniano, a situação também se deteriora. A China absorvia de 80% a 90% das exportações totais de petróleo do Irã, o que mostra o grau de dependência mútua entre os dois países nesse fluxo energético. Assim, a interrupção desse canal afeta tanto os compradores chineses quanto a capacidade de escoamento iraniana.
Por outro lado, a reorganização da cadeia de suprimento adiciona novos riscos. A substituição parcial por energia russa ajuda no curto prazo, mas segue cercada por sanções ocidentais e por incertezas logísticas. Portanto, a pressão não desaparece. Ela apenas muda de origem e continua relevante para refinadores, tradings e investidores.
Irã, Bitcoin e energia entram no radar
Hashrate pode sentir novas interrupções energéticas
O caso também recoloca o Irã no centro da discussão sobre energia e ativos digitais. O país recorreu historicamente à mineração de Bitcoin como alternativa para contornar o isolamento do sistema bancário tradicional. Estimativas anteriores indicavam que o Irã já respondeu por cerca de 4% a 4,5% da mineração global de Bitcoin. Dessa forma, o país transformava eletricidade subsidiada em uma fonte de receita mais resistente a sanções.
Embora essa participação não seja dominante, ela continua significativa. Assim, novas interrupções na infraestrutura energética iraniana podem reduzir a capacidade local de mineração e provocar um ajuste marginal na distribuição global do hashrate. Além disso, esse efeito reforça a conexão entre geopolítica, energia e o ecossistema de ativos digitais.
Para investidores, o quadro combina compressão de margens, encarecimento do petróleo e aumento do prêmio de risco geopolítico. Empresas que processam ou comercializam petróleo iraniano, especialmente as ligadas à rede de refinarias independentes da China, tendem a enfrentar deterioração operacional caso a restrição de oferta persista. Do mesmo modo, operadores atentos à relação entre energia e Bitcoin monitoram qualquer sinal de uso mais intenso das reservas estratégicas chinesas.
No balanço do episódio, os números mostram deterioração simultânea na oferta e no comércio. As importações chinesas de petróleo caíram para 38,5 milhões de toneladas métricas em abril. Além disso, o fluxo iraniano de 1,0 milhão a 1,4 milhão de barris por dia ficou comprometido, o Brent superou US$ 120 e o Irã segue ligado a uma fatia estimada de 4% a 4,5% da mineração global de Bitcoin.