Airwallex transfere equipe da China sob pressão dos EUA

A Airwallex, empresa global de pagamentos avaliada em US$ 8 bilhões, começou a transferir funcionários para fora da China. A decisão ocorreu após acusações de que sua presença operacional no país poderia abrir uma possível porta de acesso a dados sensíveis de clientes dos Estados Unidos. Assim, o caso ganhou dimensão geopolítica ao envolver leis de inteligência da China, soberania de dados e clientes relevantes, como Coinbase e a contratada de defesa Anduril.

Acusações ampliam debate sobre dados sensíveis

As alegações vieram a público em 1 de dezembro de 2025. Na ocasião, o investidor de capital de risco Keith Rabois afirmou que a estrutura operacional da Airwallex levantava dúvidas relevantes de segurança. Segundo ele, cerca de 40% dos aproximadamente 1.700 funcionários da empresa estavam na China continental e em Hong Kong.

Nesse sentido, essa proporção seria sensível para uma companhia que processa informações ligadas a laboratórios de inteligência artificial dos Estados Unidos. Além disso, a empresa atende contratadas do setor de defesa, o que aumenta a atenção regulatória sobre governança e residência de dados.

O ponto central do questionamento envolve as leis nacionais de inteligência da China. De acordo com essa leitura, essas normas exigem que cidadãos e organizações cooperem com esforços de inteligência do Estado quando houver solicitação. Por isso, Rabois avaliou que o ambiente legal, somado à presença relevante de funcionários em território chinês, criaria ao menos um risco teórico de acesso indevido a dados americanos.

Ele também destacou a base de investidores da companhia. Tencent e HongShan, dois grandes investidores chineses, detêm juntos mais de 20% da Airwallex. Dessa forma, a composição societária, combinada ao quadro de funcionários na China, poderia estabelecer caminhos indiretos para que informações sensíveis dos Estados Unidos acabassem em mãos indevidas.

Airwallex nega acesso a sistemas de produção

O CEO Jack Zhang e os cofundadores da Airwallex rebateram as acusações de forma enfática. Segundo a empresa, todos os dados de clientes dos Estados Unidos ficam armazenados exclusivamente nos Estados Unidos ou em Singapura. Além disso, a companhia afirmou que funcionários localizados na China não têm acesso a sistemas de produção nem a informações sensíveis de clientes.

Ainda assim, a controvérsia continuou. Antes da manifestação pública de Keith Rabois, preocupações internas sobre a possibilidade de funcionários na China acessarem dados de Know Your Customer, ou KYC, já teriam surgido em 2023. Em outras palavras, o debate não começou apenas depois da exposição pública do caso.

Esses dados de KYC sustentam a verificação de identidade e o cumprimento de regras contra lavagem de dinheiro. Assim, podem incluir passaportes, endereços e registros financeiros. Como resultado, qualquer suspeita de fragilidade no controle de acesso tende a gerar reação imediata em setores regulados, inclusive entre empresas ligadas a criptomoedas.

Pressão política cresce em Washington

A pressão política aumentou em 18 de dezembro de 2025, quando o senador Tom Cotton solicitou formalmente uma investigação. O pedido mira a possibilidade de o governo chinês acessar dados americanos por meio das operações da Airwallex. Com efeito, o caso deixou de ser apenas uma disputa corporativa e regulatória e passou a envolver segurança nacional em Washington.

Mesmo sob escrutínio, a Airwallex segue ativa na China. Ademais, a empresa superou recentemente a marca de US$ 1 bilhão em receita recorrente anual. O número mostra a escala alcançada por sua operação global em meio ao avanço da polêmica.

A presença da Coinbase na lista de clientes adiciona peso ao episódio. Afinal, se uma processadora de pagamentos ligada a uma das maiores corretoras de criptomoedas dos Estados Unidos enfrenta questionamentos sobre soberania de dados, o impacto potencial ultrapassa uma única empresa.

Coinbase e Anduril elevam a sensibilidade

O vínculo com a Anduril torna o quadro ainda mais sensível. A empresa desenvolve sistemas de armas e tecnologias de vigilância para as Forças Armadas dos Estados Unidos. Portanto, o simples fato de dados de pagamentos de uma contratada de defesa passarem por uma companhia com 40% da força de trabalho baseada na China já alimenta reações políticas intensas, independentemente da arquitetura formal de armazenamento adotada pela Airwallex.

O caso mostra como localização de equipes, governança corporativa e residência de dados ganharam novo peso em setores estratégicos. Além disso, as acusações contra a Airwallex unem três elementos delicados: operações internacionais, clientes ligados a defesa e tecnologia, e a aplicação de leis chinesas de inteligência sobre pessoas e organizações localizadas no país.

No conjunto, a controvérsia mantém quatro pontos centrais. Keith Rabois alegou que cerca de 40% dos 1.700 funcionários da Airwallex estavam na China continental e em Hong Kong. Tencent e HongShan possuem participação superior a 20% na empresa. A Airwallex nega que equipes na China tenham acesso a sistemas sensíveis. Por fim, o senador Tom Cotton pediu investigação formal em dezembro de 2025, ampliando a relevância política e regulatória do caso.