Ucrânia vota ratificação de empréstimo de 90 bi de euros
A Verkhovna Rada, parlamento da Ucrânia, deve votar em 28 de maio a ratificação de um empréstimo de 90 bilhões de euros da União Europeia. O valor equivale a cerca de US$ 104 bilhões. Se aprovado, o pacote poderá consolidar um dos maiores compromissos financeiros individuais do bloco com um país que não integra a UE.
O presidente Volodymyr Zelenskyy enviou ao Legislativo o projeto de lei número 0376 para formalizar a ratificação. Pelos termos apresentados pelas instituições europeias, a primeira parcela poderá começar a chegar em meados de junho de 2026. Assim, o calendário político desta semana ganhou relevância para Kiev, empresas e investidores que acompanham os efeitos econômicos da guerra.
Além disso, o acordo chega em um momento no qual a Ucrânia precisa sustentar despesas militares elevadas. Ao mesmo tempo, o país tenta preservar o funcionamento do orçamento público. Nesse sentido, o pacote europeu busca atender as duas frentes com uma estrutura financeira separada, mas complementar.
Uso dos recursos e exigências de Bruxelas
O acordo divide os recursos em duas partes principais. Em primeiro lugar, destina 60 bilhões de euros à defesa e à ampliação da capacidade industrial ucraniana. Em segundo lugar, reserva 30 bilhões de euros para assistência macrofinanceira, com o propósito de manter o orçamento operacional em 2026 e 2027.
Esse formato indica uma tentativa de equilibrar necessidades imediatas e estabilidade fiscal. Por um lado, Kiev precisa reforçar sua capacidade militar e produtiva. Por outro, deve evitar desorganização nas contas públicas durante um período prolongado de guerra. Afinal, sem suporte orçamentário, a pressão sobre salários, serviços públicos e compromissos financeiros do Estado tende a crescer.
Contudo, Kiev não terá acesso automático ao dinheiro. A Ucrânia precisará demonstrar avanços em reformas democráticas, fortalecimento do Estado de direito e medidas anticorrupção para receber os desembolsos previstos. Dessa maneira, Bruxelas atrela o financiamento a metas institucionais consideradas estratégicas para a relação de longo prazo com o país.
Reembolso e tramitação na União Europeia
Outro ponto central envolve a engenharia financeira adotada pela União Europeia. Nos termos do acordo, o bloco vinculou o reembolso do empréstimo a futuras reparações de guerra por parte da Rússia. Embora esse mecanismo ainda dependa de desdobramentos geopolíticos amplos, ele ajuda a explicar a estrutura de uma operação incomum para um país fora da UE.
A tramitação passou por várias etapas institucionais. O processo começou em dezembro de 2025, quando o Conselho Europeu deu sinal verde inicial à proposta. Em seguida, o Parlamento Europeu aprovou formalmente a medida em 11 de fevereiro de 2026. Depois, o Conselho da União Europeia concluiu a etapa final em 23 de abril de 2026.
Vetos superados antes da votação em Kiev
Durante a negociação, Hungria e Eslováquia atrasaram o avanço do acordo com vetos ligados ao transporte de petróleo pelo oleoduto Druzhba. Ainda assim, novas rodadas de diálogo político resolveram essas objeções. Como resultado, o pacote avançou sem ruptura formal entre os membros do bloco.
Hungria, Eslováquia e também a Tchéquia decidiram ficar fora do mecanismo de cooperação reforçada que sustenta a operação. Na prática, esses países não participarão da concessão do empréstimo. No entanto, também não impedirão sua execução. Esse arranjo destravou a operação e preservou o apoio da maioria dos integrantes da União Europeia.
Assim sendo, a votação de 28 de maio na Verkhovna Rada tende a funcionar como a última etapa doméstica relevante antes do início dos desembolsos. Caso o projeto de lei número 0376 avance sem mudanças materiais, Kiev poderá receber a primeira parcela em meados de junho de 2026. Por conseguinte, a implementação dependerá do cumprimento das condicionalidades e da coordenação entre autoridades ucranianas e europeias.
Impacto para empresas e investidores
Para os mercados, a parcela de 60 bilhões de euros voltada à defesa tende a beneficiar empresas europeias dos setores militar e industrial. Como os desembolsos podem começar em meados de junho, pedidos de compras e encomendas ligados ao pacote podem entrar nos balanços das companhias até o fim do verão no hemisfério norte.
Já os 30 bilhões de euros reservados ao suporte orçamentário buscam evitar uma crise fiscal na Ucrânia nos próximos dois anos. Um eventual calote soberano ucraniano teria potencial para piorar o sentimento em mercados emergentes. Além disso, poderia estimular uma redução de risco em diferentes classes de ativos, incluindo o mercado de criptomoedas.
Investidores também devem observar possíveis emendas durante a ratificação, já que ajustes de última hora podem alterar o ritmo e a estrutura de liberação dos recursos. Do mesmo modo, o cumprimento das metas ligadas a reformas, Estado de direito e combate à corrupção poderá indicar maior ou menor atrito entre Kiev e Bruxelas ao longo da implementação.
Ao fim do processo, a votação marcada para 28 de maio pode abrir caminho para a primeira parcela em meados de junho de 2026. O pacote prevê 60 bilhões de euros para defesa e capacidade industrial, além de 30 bilhões de euros para sustentar o orçamento ucraniano em 2026 e 2027. Ainda assim, Kiev só terá acesso integral aos recursos se avançar em reformas democráticas, fortalecimento institucional e medidas anticorrupção.