Third Point perde US$ 60 mi na FTX e lucra com Musk

Dan Loeb, bilionário e fundador do hedge fund Third Point, comparou duas apostas muito diferentes em sua carteira. De um lado, a gestora aplicou cerca de US$ 60 milhões na FTX e perdeu todo o valor. De outro, posições em dívida ligadas a Elon Musk, em X e xAI, viraram fontes relevantes de lucro.

Na carta da Third Point aos investidores do quarto trimestre de 2025, a gestora afirmou que os investimentos em dívida associados ao empresário contribuíram de forma importante para o desempenho do fundo. Além disso, parte desse avanço ganhou força após o anúncio de fusão entre xAI e SpaceX, citado pela própria gestora na comunicação aos cotistas.

Em contraste, o caso FTX segue como um alerta duro para investidores institucionais. Mesmo gestores experientes podem errar de forma grave ao avaliar riscos. Ainda assim, o episódio também mostra como a estrutura de uma exposição financeira pode mudar o desfecho de uma tese.

A perda da Third Point com a FTX

A Third Point participou das rodadas de financiamento da FTX em 2021. Naquele momento, a corretora de criptomoedas aparecia como uma das empresas mais promissoras do setor. Além disso, o fundo dividiu espaço com nomes de peso, como Sequoia Capital e Paradigm.

Esse contexto reforçou a leitura de que a operação de Sam Bankman-Fried ocupava posição central no futuro dos ativos digitais. No entanto, o cenário mudou de forma abrupta em novembro de 2022. Uma crise de liquidez desmontou a estrutura da FTX em poucos dias e levou a empresa à recuperação judicial.

Em seguida, Sam Bankman-Fried acabou condenado por fraude e conspiração. Com isso, a participação acionária da Third Point, estimada em aproximadamente US$ 60 milhões, passou a valer zero.

Dan Loeb reconheceu publicamente que Sam Bankman-Fried o enganou. A admissão chamou atenção porque partiu de um gestor com décadas de reputação em análise rigorosa e disciplina de alocação. Nesse sentido, o colapso da FTX não atingiu apenas investidores de varejo. Ele também alcançou fundos tradicionais de Wall Street e do capital de risco.

Estrutura da aposta ampliou o risco

O ponto central está no tipo de exposição. A Third Point comprou participação acionária da FTX, e não dívida. Assim, o fundo ficou diretamente exposto ao valor residual do negócio.

Quando a corretora entrou em colapso, a tese perdeu sustentação rapidamente. Como resultado, o capital praticamente desapareceu. Além disso, o episódio ajuda a explicar por que o mercado de criptomoedas passou a exigir critérios mais duros de diligência e governança após 2022.

Em outras palavras, a combinação de crescimento acelerado, narrativa forte e validação coletiva entre investidores renomados reduziu a percepção de risco em torno da FTX. A quebra mostrou, contudo, que reputação e popularidade não substituem controles internos, transparência e análise independente.

Dívida de X e xAI seguiu caminho oposto

Se a FTX virou o principal erro da tese, os ativos ligados a Elon Musk seguiram direção inversa. Na carta do quarto trimestre de 2025, a Third Point apontou grandes investimentos em dívida de X, plataforma anteriormente conhecida como Twitter, e de xAI como motores relevantes de performance.

Esse detalhe é decisivo para entender o contraste. A gestora não comprou participação acionária nessas empresas. Em vez disso, comprou dívida. Dessa forma, assumiu uma posição diferente dentro da estrutura de capital.

Em geral, credores recebem antes dos acionistas. Por isso, a dívida oferece uma camada adicional de proteção caso o desempenho operacional fique abaixo do esperado. Assim, o sucesso da tese não dependia de transformar X ou xAI em negócios trilionários em prazo curto.

Bastava, sobretudo, que as empresas preservassem solvência e capacidade de honrar obrigações financeiras. Portanto, a escolha do instrumento teve peso central no resultado obtido pela Third Point.

Fusão entre xAI e SpaceX reforçou a tese

Ademais, o anúncio de fusão entre xAI e SpaceX adicionou um novo vetor favorável à posição da Third Point. A carta aos investidores citou explicitamente esse desenvolvimento como um fator positivo para o portfólio.

Ainda que o mercado siga debatendo as implicações estratégicas do movimento, a referência mostra que a gestora enxergou melhora na qualidade da tese ligada a Elon Musk. Ao mesmo tempo, o episódio evidencia uma distinção importante entre apostar no crescimento de uma empresa e investir em sua dívida.

Enquanto o acionista depende mais diretamente da expansão de valor, o credor tende a se beneficiar desde que a companhia mantenha sua capacidade de pagamento. Em contrapartida, uma posição acionária pode perder todo o valor quando a empresa quebra ou perde viabilidade econômica.

Comparação mostra erro de avaliação e acerto de estrutura

A comparação feita por Dan Loeb resume dois lados da alocação de capital em ativos de maior risco. De um lado, houve exposição acionária à FTX em 2021, em meio ao entusiasmo com o setor. De outro, houve compra de dívida de empresas ligadas a Elon Musk, com proteção maior na hierarquia de pagamentos corporativos.

Logo, a diferença entre os resultados não se explica apenas pelos nomes envolvidos. Em grande medida, ela reflete a forma como a Third Point escolheu acessar cada tese. Na FTX, o fundo apostou no valor da companhia. Já em X e xAI, apostou na capacidade financeira das empresas.

Em suma, a Third Point encerrou o ciclo com perda total de cerca de US$ 60 milhões na FTX, após a quebra da corretora em novembro de 2022 e a condenação de Sam Bankman-Fried por fraude e conspiração. Ao mesmo tempo, os investimentos em dívida de X e xAI ganharam relevância na performance do fundo no fim de 2025, com suporte adicional do anúncio de fusão entre xAI e SpaceX.