Stablecoins puxam gasto externo de brasileiro a US$ 2,7 bi
Dados do Banco Central mostram que o gasto de brasileiros com criptomoedas no exterior somou US$ 2,709 bilhões em abril. O valor ficou quase três vezes acima dos US$ 920 milhões registrados no mesmo mês de 2025. Assim, o avanço reforça a demanda local por ativos digitais, sobretudo por stablecoins pareadas ao dólar.
Os dados saíram na terça-feira, 26. Em entrevista, Fernando Rocha, chefe do departamento de estatísticas do Banco Central, afirmou que os números mostram crescimento consistente nas aquisições de criptoativos por brasileiros. Segundo ele, parte relevante desse movimento envolve prestadoras de serviços de ativos virtuais. Essas empresas compram stablecoins no exterior com o propósito de atender clientes no mercado local.
Banco Central vê alta nas compras de criptoativos
"A gente incorpora essas aquisições (…) é um acréscimo importante ao balanço de pagamentos do Brasil. Tem muitos poucos países fazendo isso ao redor do mundo", afirmou Rocha.
Na avaliação do Banco Central, o uso das stablecoins no Brasil mudou de perfil. Antes de tudo, esses ativos funcionavam como proteção cambial ou alternativa de exposição ao mercado de criptomoedas. Agora, porém, também ganham espaço em pagamentos, remessas internacionais e circulação digital de valor.
Além disso, os números da Receita Federal apontam a mesma direção. Um levantamento publicado anteriormente mostrou que o volume de stablecoins no Brasil cresceu 480 vezes em seis anos. Em 2025, esse mercado alcançou R$ 361,6 bilhões. Dessa forma, o segmento já movimenta valores muito superiores aos do Bitcoin no país.
Apenas em dezembro de 2025, as stablecoins registraram R$ 29,4 bilhões em volume, enquanto o Bitcoin somou R$ 2,6 bilhões, segundo dados da Receita. Ademais, o USDT, stablecoin emitida pela Tether, respondeu por cerca de 90% do volume negociado entre stablecoins no Brasil em 2025.
Uso transacional ganha força no mercado brasileiro
Fernando Rocha disse que o Banco Central ainda não consegue medir com precisão o estoque total mantido em stablecoins. No entanto, os fluxos já evidenciam a expansão da procura por esses ativos. Para ele, há sinais de que uma parcela significativa das compras tem finalidade transacional.
"Essas stablecoins (…) vão ser gastas em algum momento", disse Rocha.
Assim, a avaliação reforça a ideia de que essas moedas digitais se tornaram mais funcionais no Brasil. Na prática, elas vêm sendo usadas como trilho para transferir valor com menor atrito. Esse uso cresce sobretudo quando alternativas tradicionais se mostram mais lentas, caras ou burocráticas.
Fabricio Tota, diretor de Novos Negócios do MB | Mercado Bitcoin, também defendeu essa leitura. Segundo ele, as stablecoins ganharam espaço porque oferecem um meio mais eficiente para a circulação de valor em operações digitais e internacionais.
Volumes superam os do Bitcoin no Brasil
Os dados recentes também reforçam uma tendência estrutural no país. A Receita Federal mostra que o número de brasileiros que declaram operações com criptomoedas vem subindo com força nos últimos anos. Em outras palavras, a base de usuários segue em franca expansão.
Em 2021, a Receita informou que o total de declarantes saltou de 94 mil para 617 mil pessoas físicas em pouco mais de um ano. Já em 2025, o número de CPFs superou 6 milhões em um único mês. Portanto, o mercado brasileiro ampliou de forma relevante sua base de investidores e usuários.
Ao mesmo tempo, os volumes negociados bateram recordes. O pico histórico de uso de stablecoins ocorreu em novembro de 2025, quando o volume mensal atingiu R$ 37,6 bilhões. Por consequência, o valor ficou 4,5 vezes acima do melhor mês da história do Bitcoin no Brasil.
Para especialistas do setor, a combinação entre dolarização informal, facilidade de uso, integração com o Pix e aumento da demanda por pagamentos internacionais ajudou a transformar o Brasil em um dos maiores mercados globais para stablecoins. Ainda assim, esse avanço acelerado elevou a atenção regulatória sobre o setor.
Regulação entra no radar com expansão do setor
O Banco Central publicou recentemente regras voltadas às prestadoras de serviços de ativos virtuais. Além disso, acompanha o avanço das stablecoins nas discussões sobre fluxo cambial, sistema financeiro e Drex. Nesse sentido, a autoridade monetária observa não apenas o crescimento dos volumes, mas também a função prática que esses ativos passaram a exercer.
Como resultado, os dados de abril consolidam esse cenário. O salto para US$ 2,709 bilhões em gastos de brasileiros com criptomoedas no exterior, frente aos US$ 920 milhões de abril de 2025, ocorreu em um ambiente no qual o USDT domina as negociações de stablecoins. Além disso, os volumes já superam com folga os do Bitcoin em diversos meses, enquanto o Banco Central enxerga nessas compras um componente cada vez mais ligado a pagamentos e uso prático.