Stablecoins superam Bitcoin no uso ilícito, diz River

A leitura de que o Bitcoin concentra o uso criminoso no mercado de criptomoedas perdeu força. A River, empresa de serviços financeiros focada em Bitcoin, afirma que agentes ligados a atividades ilícitas passaram a preferir stablecoins. O motivo central envolve a estabilidade de preço. Além disso, análises on-chain apontam uma mudança expressiva no perfil dessas transações.

Números da Chainalysis, citados pela River em 31 de maio, indicam uma guinada relevante. A participação do Bitcoin no volume de transações ilícitas caiu de cerca de 70% em 2020 para aproximadamente 7% em 2025. Ao mesmo tempo, as stablecoins avançaram até perto de 84% desse volume no mesmo período.

Por que criminosos migraram para ativos estáveis

A principal razão dessa mudança está na previsibilidade de valor. Stablecoins como o USDT acompanham o dólar americano e, dessa forma, reduzem drasticamente a volatilidade. Na prática, US$ 1 milhão em USDT hoje tende a permanecer próximo de US$ 1 milhão no dia seguinte. Por isso, esse tipo de ativo atende operações que exigem referência estável de preço.

Esse perfil favorece especialmente golpes e fraudes. Afinal, esquemas desse tipo dependem de uma unidade de conta mais previsível. Além disso, entidades sancionadas também teriam migrado para stablecoins pelo mesmo motivo. O Bitcoin, no entanto, ainda mantém relevância em pagamentos de ransomware e em transações ligadas a marketplaces da darknet.

Isso ocorre porque operadores desses nichos ainda usam a infraestrutura em torno do Bitcoin. Ainda assim, a tendência geral aponta para perda de participação relativa do ativo no volume ilícito total. Em outras palavras, o problema não desapareceu, mas mudou de instrumento predominante.

Fraudes e entidades sancionadas puxam a virada

Os números mais recentes reforçam essa transformação. Em 2024, as stablecoins responderam por 63% de todas as transações ilícitas on-chain. Em seguida, em 2025, esse percentual subiu para 84%, segundo análises da Chainalysis e da TRM Labs. Os levantamentos citados pela River atribuem esse avanço a golpes e operações associadas a entidades em listas de bloqueio.

Ao mesmo tempo, o volume total de atividades ilícitas com criptomoedas teria alcançado novas máximas históricas. Dessa maneira, o mercado registrou não apenas uma troca de protagonismo entre ativos. Também houve concentração crescente em instrumentos menos voláteis. Esse ponto importa porque ativos estáveis simplificam a preservação de valor ao longo da operação.

Regulação deve mirar emissores de stablecoins

Esse novo cenário enfraquece uma crítica recorrente contra o Bitcoin. Se a maior parte do volume ilícito agora passa por stablecoins, o foco regulatório tende a se deslocar. Nesse caso, emissores desses ativos, mecanismos de conformidade e respostas a ordens de bloqueio ganham mais peso.

Na avaliação destacada pela River, a fatia de 84% do volume ilícito em criptomoedas deve ampliar o escrutínio sobre estruturas de compliance. Além disso, mecanismos de congelamento de carteiras e responsabilidades legais das emissoras entram no centro da discussão. Portanto, o debate regulatório pode se tornar mais preciso e mais concentrado nesse segmento.

A Tether, emissora do USDT, já coopera com autoridades para congelar carteiras associadas a atividades ilícitas. Ademais, tanto a Chainalysis quanto a TRM Labs desenvolveram infraestrutura robusta de monitoramento para fluxos que envolvem stablecoins. Esse esforço, por sua vez, amplia a capacidade de rastreamento e resposta do setor.

Compliance pode influenciar disputa entre emissoras

O ambiente competitivo entre emissoras também pode mudar. Empresas capazes de demonstrar padrões mais sólidos de conformidade regulatória e maior cooperação com forças de segurança podem ganhar participação de mercado. Por outro lado, plataformas vistas como mais permissivas tendem a enfrentar mais pressão. Esse movimento ganha relevância enquanto os Estados Unidos avançam para uma legislação formal sobre stablecoins.

Como resultado, o recorte apresentado pela River com base em dados da Chainalysis e da TRM Labs mostra uma transformação relevante entre 2020 e 2025. O Bitcoin caiu de cerca de 70% para 7% do volume ilícito. Já as stablecoins passaram a concentrar 84% dessas transações, após responderem por 63% do total em 2024. Assim, golpes, entidades sancionadas, congelamento de carteiras e monitoramento on-chain passaram ao centro do debate regulatório sobre o mercado cripto.