Ethereum Foundation detalha mandato após tensões internas
A presidente da Ethereum Foundation, Aya Miyaguchi, detalhou publicamente como enxerga o novo mandato da organização. Ela apresentou a mudança como um reajuste necessário após debates internos ficarem mais tensos e a entidade passar a lidar com expectativas conflitantes dentro do ecossistema.
Miyaguchi publicou as declarações no X, em resposta ao debate sobre a direção da fundação. O posicionamento veio pouco depois de Vitalik Buterin também comentar o tema. Nesse sentido, a fala ocorre em um momento delicado para a principal organização sem fins lucrativos ligada ao ecossistema Ethereum.
Ao mesmo tempo, a fundação avança para uma estrutura menor e mais focada. A comunidade, por sua vez, discute governança, prioridades técnicas e saídas de nomes relevantes. Por isso, a manifestação de Miyaguchi ganhou peso dentro e fora do mercado cripto.
Fundação busca escopo mais definido
Segundo Aya Miyaguchi, o mandato partiu do conselho, embora ela tenha apresentado a proposta no fim do ano passado. Para a executiva, o problema central não envolve uma disputa isolada, mas um desafio estrutural. A Ethereum Foundation passou a concentrar expectativas muito diferentes ao mesmo tempo.
“Primeiro, debates que deveriam ser técnicos começaram a se tornar políticos e pessoais e, em alguns momentos, passaram a ser moldados por incentivos mais silenciosos”, escreveu Miyaguchi. “Segundo, à medida que a EF cresceu, cada vez mais versões do que a EF deveria ser começaram a puxar o núcleo da organização em todas as direções ao mesmo tempo. Fiquei convencida de que tentar satisfazer todas elas nos deixaria sem realizar nada.”
Aya Miyaguchi no X.
Esse ponto resume um dilema antigo do Ethereum. Ao longo dos anos, a rede contou com a Ethereum Foundation para financiar pesquisa, coordenar iniciativas e oferecer supervisão institucional. Contudo, a cultura do projeto sempre resistiu à ideia de que uma única entidade se tornasse o centro de comando do ecossistema.
Miyaguchi reforçou essa tensão ao afirmar que a menor centralidade da fundação não representa abandono de responsabilidades. Em vez disso, na visão dela, o movimento sinaliza o amadurecimento do Ethereum para além de sua primeira grande instituição.
Ecossistema ganha mais autonomia
Em sua publicação, Miyaguchi afirmou que a Ethereum Foundation é apenas um dos muitos nós do Ethereum. Segundo ela, a entidade foi essencial nos primeiros anos, mas nunca pretendeu permanecer para sempre como peça central. Ademais, a executiva relacionou essa visão à própria trajetória no setor de criptomoedas.
Miyaguchi lembrou que atua nesse mercado desde 2012. Ela também citou sua entrada na Kraken em 2013, pouco antes do colapso da Mt. Gox. Segundo a presidente, sua participação no processo de reorganização influenciou diretamente sua percepção sobre crescimento e riscos de centralização.
Ao assumir como diretora-executiva em 2018, Miyaguchi buscou ajudar o Ethereum a crescer além da própria fundação. Dessa forma, a organização fez escolhas deliberadas para distribuir poder, em vez de reter controle.
Como exemplos, ela citou o papel da EF na incubação e posterior liberação de projetos como Uniswap e ENS. Além disso, mencionou o apoio à ETHGlobal e a hackathons. A presidente também destacou a estratégia de “financiar os financiadores”, por meio de grupos como Gitcoin e Moloch. A pergunta orientadora, segundo ela, sempre foi a mesma: como esse projeto pode se sustentar sozinho, sem depender da fundação.
Novo mandato prioriza missão e equipe enxuta
Na avaliação da presidente, essa estratégia deixou a Ethereum Foundation com menos de 0,2% de todo o ETH em circulação. Assim, a entidade passou a ter uma função deliberadamente mais estreita. O novo mandato busca preservar e acelerar as propriedades e os objetivos que tornam o Ethereum “singularmente valioso, competitivo e digno de ser construído”.
Ela afirmou que esse foco inclui o que chamou de CROPS, além da soberania inalienável do usuário e da coordenação soberana. Ao mesmo tempo, Miyaguchi destacou que a fundação não pretende executar essa missão sozinha.
“Não podemos fazer isso sozinhos, e não temos a intenção de fazer”, escreveu Miyaguchi. “Mas definir isso como a estrela-guia da missão e coordenar com aliados que compartilham esse objetivo é a responsabilidade que estamos mantendo.”
Aya Miyaguchi no X.
A executiva também rejeitou a ideia de que uma Ethereum Foundation mais enxuta indique menor preocupação com adoção. Pelo contrário, segundo ela, usuários do dia a dia e instituições dependem da proposta de valor fundamental do Ethereum. Portanto, a adoção, inclusive institucional, continua no escopo da fundação, desde que permaneça alinhada à missão principal.
Saídas de líderes ampliam escrutínio
As declarações chegam enquanto a Ethereum Foundation lida com a saída de colaboradores seniores e figuras conhecidas do ecossistema em 2026. Entre os nomes citados estão Carl Beekhuizen, Julian Ma, Barnabé Monnot, Tim Beiko, Trent Van Epps, Josh Stark e o ex-codiretor-executivo Tomasz Stanczak.
Esse movimento ampliou o escrutínio sobre a reestruturação em curso. Além disso, alimentou o debate sobre se a mudança representa descentralização saudável, tensão interna ou ambos ao mesmo tempo. Ainda assim, Miyaguchi reconheceu diretamente o impacto da nova fase sobre o quadro de pessoal.
Segundo ela, à medida que a Ethereum Foundation se torna mais focada e mais assertiva em suas posições, a equipe naturalmente fica menor e mais concentrada. Em outras palavras, essa redução faz parte da escolha estratégica. A presidente acrescentou que novas lideranças já assumem funções dentro da missão da fundação. A gestão também deve divulgar mais detalhes sobre a nova estrutura e a estratégia nas próximas semanas.
O debate ganhou força depois que Vitalik Buterin comentou o momento da fundação em uma publicação no X em 24 de maio. Na ocasião, ele disse que a Ethereum Foundation ainda está em transição. Buterin também ressaltou que não possui poder especial sobre o conselho e afirmou que outra liderança executa grande parte dessa transformação. Além disso, descreveu o futuro da entidade como mais enxuto e mais focado, com menos ênfase em ser o centro do Ethereum e maior prioridade em preservar as características de longo prazo da rede.

No momento da publicação original, o ETH era negociado a US$ 1.986. Com a nova mensagem, Aya Miyaguchi reforça que a Ethereum Foundation pretende operar com escopo mais definido, equipe menor e foco direto na preservação das propriedades centrais do Ethereum. Ainda assim, a fundação mantém a adoção dentro dessa lógica e prepara novos detalhes sobre sua estrutura nas próximas semanas.