Bitcoin cai a US$ 63 mil e disputa liquidez com IA

O Bitcoin deixou de acompanhar o S&P 500 de forma linear em um ponto decisivo para o mercado. Enquanto o índice acionário fechou na máxima histórica de 7.609 pontos em 2 de junho, o mercado negociava a principal criptomoeda perto de US$ 63.508 em 4 de junho. Assim, o ativo acumulava queda de 13% em sete dias, recuo de 21% em 30 dias e desvalorização de 49% ante o topo histórico de 6 de outubro de 2025.

Além disso, o contraste ganhou força porque as ações dos Estados Unidos seguiram firmes. Ao mesmo tempo, o Bitcoin entrou em uma correção relevante. Dessa forma, investidores passaram a questionar se a demanda criada pelos ETFs à vista ainda funciona como comprador marginal capaz de sustentar o preço.

S&P 500 sobe enquanto cripto corrige

Durante boa parte de 2026, a correlação entre Bitcoin e ações fazia sentido. O choque geopolítico envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz elevou temores inflacionários por meio do petróleo. A Energy Information Administration dos Estados Unidos indicou que o fluxo total de petróleo pelo Estreito de Ormuz caiu de 20,7 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para 14,6 milhões no primeiro trimestre de 2026.

Ao mesmo tempo, o Banco Mundial classificou a disrupção como o maior choque da história do mercado de petróleo. Além disso, a instituição projetou cenários para o Brent entre US$ 95 e US$ 115 por barril em 2026, conforme a evolução da crise.

Como resultado, os juros reagiram rapidamente. A Axios relatou que o rendimento do Treasury de 10 anos subiu para cerca de 4,45%, ante 3,96% antes dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Nesse ambiente, petróleo mais caro elevava a inflação esperada, mantinha os juros altos e reduzia o apetite por risco.

Antes, esse mecanismo pressionava ações e Bitcoin ao mesmo tempo. No entanto, o padrão mudou nos últimos pregões. Em vez de uma reação temporária de fim de semana, o mercado passou a mostrar bolsa em alta e venda persistente no setor cripto.

Liquidações ampliam pressão sobre suportes

Com a queda recente, os níveis críticos passaram a ficar abaixo do preço atual. O flash crash abaixo de US$ 68.000 gerou cerca de US$ 400 milhões em liquidações em menos de uma hora. Além disso, o movimento levou o Bitcoin para baixo de métricas on-chain acompanhadas de perto, como o preço médio de compra dos detentores de curto prazo, perto de US$ 76.900, e a média real de mercado, ao redor de US$ 78.000.

Assim, o humor do mercado mudou. O que parecia uma correção comum passou a exigir proteção mais clara. O mercado de opções mostra traders pagando hedge para uma queda em direção a US$ 50.000 após a perda da região de US$ 70.000. Portanto, as faixas de US$ 60.000 e US$ 50.000 deixaram de parecer distantes.

A zona mais importante no curto prazo está entre US$ 66.900 e US$ 68.000. Essa região conteve o ciclo de 2021, participou da ruptura de 2024 e agora testa a força da alta construída na era dos ETFs. Se houver recuperação rápida, a leitura de evento de liquidação ganha força. Contudo, se o preço falhar nessa retomada, os vendedores mantêm o controle.

ETFs à vista e ações de IA disputam liquidez

O papel dos ETFs à vista continua central. A Securities and Exchange Commission (SEC) aprovou esses produtos em 10 de janeiro de 2024. Desde então, o Bitcoin passou a integrar portfólios institucionais por meio de contas tradicionais de corretagem.

Por outro lado, esse canal também tornou os fluxos mais visíveis. Se os ETFs à vista registram saídas enquanto ações ligadas à inteligência artificial avançam, o comprador marginal pode estar alocando capital em outro setor. Essa dinâmica aparece diariamente em tabelas de fluxos de ETFs.

Nesse sentido, grandes ofertas públicas voltaram ao centro do debate. A SpaceX protocolou um formulário S-1 na SEC. Ademais, a S&P Dow Jones Indices abriu consulta sobre mudanças na elegibilidade de empresas MegaCap, incluindo a redução do prazo de IPO de 12 para 6 meses e exceções para companhias muito grandes. A Nasdaq também publicou uma consulta de 2026 do Nasdaq-100 voltada a novas listagens de grande porte.

Mesmo que a entrada da SpaceX em índices ainda dependa de metodologia e calendário, os documentos mostram pressão crescente para acomodar gigantes de tecnologia, espaço e inteligência artificial. Assim, o Bitcoin disputa atenção, liquidez e orçamento de risco em um cenário no qual o entusiasmo se concentra em outro segmento.

Setor cripto oferece apoio limitado

O restante do mercado cripto ajuda pouco. A adoção institucional de blockchain segue avançando, mas por trilhos permissionados e ativos tokenizados. Ainda assim, esse movimento não reproduz o mesmo efeito observado no auge do DeFi especulativo, quando a liquidez de varejo se espalhava por todo o mercado de criptomoedas.

Dados da DeFiLlama mostram o valor total bloqueado agregado do DeFi perto de US$ 73 bilhões. Esse número fica abaixo dos US$ 80 bilhões do fim de maio e distante do pico histórico de US$ 173 bilhões de outubro de 2025. Em outras palavras, o setor ainda não oferece um sinal amplo de apetite por risco.

Além disso, a pressão de segurança também pesa. A CertiK alertou que a inteligência artificial ampliou a superfície de ataque dos ativos digitais. Da mesma forma, a Chainalysis aponta aumento da pressão ligada a crimes com criptomoedas em toda a indústria.

Por isso, o Bitcoin depende ainda mais do fluxo regulado dos ETFs em um momento sem um segundo motor especulativo claro. Em ciclos anteriores, a fraqueza no BTC podia coexistir com alavancagem de varejo e alta generalizada de altcoins. Agora, esse apoio parece mais estreito.

Dois cenários para o preço do Bitcoin

O mercado observa dois caminhos principais. O primeiro, e mais provável no momento, envolve um reset de liquidez com formação de base. Nesse cenário, o Bitcoin não recupera a faixa entre US$ 66.900 e US$ 70.000, as saídas dos ETFs continuam e a busca por proteção em opções ao redor de US$ 60.000 e US$ 50.000 aumenta.

O segundo caminho envolve recuperação rápida e recorrelação com as ações. Para isso, o ativo precisaria voltar para a região de US$ 68.000 a US$ 70.000. Além disso, petróleo e juros precisariam esfriar. Os fluxos dos ETFs também teriam de se estabilizar, enquanto o retorno acima do custo médio dos detentores de curto prazo transformaria a queda recente em um reset de liquidações.

Por enquanto, a primeira rota parece mais alinhada aos dados. O Bitcoin perdeu níveis técnicos relevantes, a demanda dos ETFs enfrenta pressão e as ações sobem por motivos específicos ligados a lucros de empresas de inteligência artificial e fluxos de índice. Ainda assim, a segunda hipótese segue aberta, já que uma reversão rápida dos fluxos pode mudar o sentimento com velocidade.

Nesse meio tempo, o mercado monitora os fluxos dos ETFs, a estrutura de opções e a faixa entre US$ 66.900 e US$ 70.000. Também permanece no radar a zona entre US$ 54.000 e US$ 58.000, além da cotação perto de US$ 63.508 e do recorde de 7.609 pontos do S&P 500 em 2 de junho.