Bitcoin: ação de US$ 239,6 bi trava em Nova York

Uma ação judicial em Nova York que tenta assumir a titularidade de 39.069 carteiras de Bitcoin consideradas abandonadas enfrentou um novo entrave. Um endereço antigo ligado ao caso voltou a registrar atividade na rede. Em 5 de junho, a Suprema Corte do Condado de Nova York suspendeu temporariamente o processo até uma audiência marcada para 14 de julho. Nessa sessão, o tribunal analisará a proposta de envio de um memorial amicus curiae apresentada pelo advogado Ian R. Cohen.

A ordem pausou os pedidos ligados à ação declaratória dos autores, inclusive solicitações de apuração e eventual decisão à revelia. Além disso, a interrupção ocorreu poucos dias depois de uma movimentação na blockchain desafiar a tese central do caso.

Endereço antigo volta a mover BTC

Em 2 de junho, o endereço 1LwWtSs7tMCwcRczQd5kVMv3xpWw6w4Sxe, associado à disputa, movimentou cerca de 35,55 BTC após anos sem atividade. Ainda assim, a transação não revela quem controla o endereço. Também não explica a motivação nem confirma em qual posição ele aparece na lista de réus citada pelos autores.

Esse ponto ganhou relevância porque a ação sustenta que a longa inatividade indicaria abandono ou perda. Em outras palavras, a transação mostrou que alguém ainda tinha capacidade de assinar e mover os fundos. Assim, o dado técnico passou a pressionar a base jurídica do processo.

Noah Doe, ABC Company e XYZ Company abriram o caso contra John Does 1-39.069. Os autores pedem que a corte declare que eles são proprietários de milhares de carteiras classificadas por eles como abandonadas. A petição alterada fundamenta esse pedido no Artigo 7-B da Lei de Propriedade Pessoal de Nova York, norma voltada a bens perdidos e achados.

Segundo a tese dos autores, essas carteiras seriam propriedades abandonadas. Para fins processuais, eles atribuíram a cada uma valor inferior a US$ 10. Os autores também afirmam que notificaram os supostos titulares dos endereços pseudônimos por meio de mensagens OP_RETURN registradas na blockchain. No entanto, a lógica jurídica esbarra em uma limitação técnica decisiva. No protocolo do Bitcoin, a movimentação dos fundos depende do controle da chave privada.

Chave privada limita efeito prático

A própria petição reconhece esse limite ao afirmar que a retirada de valores de uma carteira compatível com Bitcoin só pode ocorrer com a chave privada correspondente. Sem ela, sacar a criptomoeda é impossível. Portanto, mesmo que um tribunal reconheça a titularidade jurídica de determinado ativo, isso não gera automaticamente uma assinatura válida na rede.

Com efeito, a transação registrada em 2 de junho tornou mais visível a diferença entre a descrição jurídica do caso e o funcionamento real da blockchain. A mempool.space mostra uma transação confirmada iniciada por b90755…, que gastou 35,546714 BTC do endereço 1LwWt… em 2 de junho de 2026. Embora a identidade do responsável não apareça nos autos, o dado técnico é direto: alguém controlava a chave necessária para mover as moedas.

Do ponto de vista jurídico, os autores precisam convencer o tribunal de que a inatividade prolongada constitui evidência de perda ou abandono. Em contrapartida, a blockchain apenas verifica se a transação respeita as regras da rede. Além disso, dentro da cultura do Bitcoin, anos de silêncio não são necessariamente anormais. Heranças podem manter chaves sem uso por longos períodos. Mineradores antigos também podem continuar inativos, enquanto carteiras podem ficar imóveis por razões que não indicam abandono.

Memorial contesta uso da lei de bens perdidos

No memorial proposto, Ian R. Cohen argumenta que o Artigo 7-B trata de bens tangíveis. Isto é, a norma alcançaria objetos que um localizador realmente toma sob custódia física e pode entregar à polícia. Segundo essa leitura, quem apenas examina uma blockchain pública não encontrou uma coisa no sentido previsto pela lei. Também não tomou posse das moedas nem de suas chaves.

Esse argumento não coloca o Bitcoin fora do alcance do direito. Afinal, tribunais podem decidir disputas de propriedade sobre ativos digitais, obrigar partes sob sua jurisdição e expedir ordens com efeito no sistema financeiro. Ainda assim, o ponto levantado por Cohen é mais específico. Visualizar um endereço público não equivale a assumir posse do bem. Além disso, o simples silêncio de um endereço não prova desistência do ativo.

Nova York também possui uma regra específica sobre propriedade abandonada envolvendo moeda virtual. A Seção 1319 da Abandoned Property Law trata de moeda virtual detida ou devida por entidades abrangidas. A regra determina o encaminhamento de bens qualificados como abandonados ao controlador estadual após cinco anos de inatividade. Da mesma forma, a orientação do controlador estadual detalha as obrigações de reporte e entrega nesse regime.

Isso, porém, não resolve a situação de endereços de Bitcoin em autocustódia. Os autores não pedem que um custodiante entregue uma conta. Em vez disso, pedem que o tribunal reconheça a propriedade sobre endereços cujas moedas continuam gastáveis apenas por quem controla as respectivas chaves privadas.

Infográfico comparando reivindicações de titularidade legal com controle por chave privada no processo sobre carteiras de Bitcoin em Nova York.

Infográfico compara reivindicações de titularidade legal com controle por chave privada no processo sobre carteiras de Bitcoin em Nova York.

Pedido envolve 3.799.629 BTC

A Galaxy Research estimou o alcance do pedido em BTC e calculou que o conjunto de 39.069 endereços reúne 3.799.629 BTC. Considerando o preço do Bitcoin em 8 de junho, de US$ 63.060,28, esse montante equivaleria a cerca de US$ 239,6 bilhões. Portanto, a escala do caso ajuda a explicar por que uma eventual decisão processual baseada em endereços inativos pode gerar efeitos muito além desta disputa.

Na prática, o processo agora gira em torno de uma divisão clara. Um tribunal pode reconhecer a titularidade legal de um ativo, mas não consegue fazer Bitcoins em autocustódia se moverem sem uma assinatura criptográfica válida. Por isso, o efeito de uma decisão favorável aos autores seria indireto e ocorreria fora da blockchain. Se alguém enviar essas moedas no futuro para uma exchange, custodiante ou outra instituição sujeita a ordens judiciais, quem portar uma decisão de Nova York poderá tentar apresentar uma reivindicação concorrente sobre esses fundos.

Esse é um efeito de titularidade jurídica, não de controle protocolar. Nesse sentido, a movimentação de 2 de junho ganhou importância justamente por expor essa diferença. O tribunal pode enquadrar uma carteira como abandonada dentro de um arcabouço legal. Contudo, a rede do Bitcoin continua tratando uma assinatura válida como o único evento capaz de alterar o registro.

A audiência de 14 de julho, portanto, terá peso além de uma etapa processual. A corte decidirá se o processo seguirá quase sem contestação ou se passará por um exame mais profundo de sua premissa central. Até lá, o dado mais forte do caso continua simples. Ao menos um endereço antigo movimentou fundos porque alguém tinha capacidade de assinar a transação. Enquanto isso, a ação busca a titularidade de 39.069 carteiras que, segundo a Galaxy Research, somariam 3.799.629 BTC, avaliados em cerca de US$ 239,6 bilhões com base no preço de US$ 63.060,28 em 8 de junho.