Bitcoin enfrenta IPOs de IA por capital em Wall Street
O Bitcoin deve enfrentar em 2026 um novo teste de liquidez em Wall Street. A fila de megas IPOs ligados à inteligência artificial passou a disputar o mesmo capital institucional que impulsionou os ETFs à vista e levou o BTC a US$ 126.000.
A OpenAI apresentou de forma confidencial um formulário S-1 à Securities and Exchange Commission, com estreia em bolsa projetada para setembro. O valuation estimado fica entre US$ 852 bilhões e US$ 1 trilhão. Além disso, o Goldman Sachs estima que a onda de ofertas públicas iniciais pode gerar um recorde de US$ 160 bilhões em captações nos Estados Unidos em 2026.
Na mesma esteira, a SpaceX mira levantar US$ 75 bilhões, com valuation de US$ 1,75 trilhão. Ao mesmo tempo, a Anthropic também protocolou seu processo de forma confidencial após uma rodada de financiamento no fim de maio, que a avaliou em US$ 965 bilhões. Somadas, SpaceX, OpenAI e Anthropic já representam uma demanda potencial de capital que supera em até quatro vezes todo o mercado de IPOs dos Estados Unidos em 2025.
IPOs de IA disputam liquidez institucional
ETFs e ações já mostram mudança de preferência
Os sinais dessa migração de capital já aparecem nos dados. Ações de inteligência artificial e semicondutores avançaram cerca de 170% nos últimos 12 meses. Em contrapartida, o Bitcoin recuou aproximadamente 40% no mesmo intervalo.
Em 3 de junho, o Philadelphia Semiconductor Index subiu cerca de 5,9%. No mesmo dia, o Bitcoin caiu perto de 4%. Dessa forma, a divergência intradiária reforçou a leitura de rotação institucional para ações de IA e chips.
Além disso, os ETFs à vista de Bitcoin negociados nos Estados Unidos perderam mais de US$ 1,7 bilhão na primeira semana de junho. Esse movimento se somou a uma saída anterior de US$ 4,4 bilhões em uma sequência de 13 sessões consecutivas. O caso mais emblemático ocorreu em 28 de maio, quando o IBIT, da BlackRock, registrou retirada de aproximadamente US$ 528 milhões. Foi a segunda maior saída diária da história do fundo.
Uma análise de fluxos indicou um rebalanceamento institucional concentrado. Nesse sentido, alocadores deslocaram recursos para ações de IA e semicondutores que renovavam máximas no mesmo período.
Esse ponto ganha força porque, até agora, parte relevante da exposição institucional ao tema IA era obtida de forma indireta. Isso ocorria por meio de empresas como Nvidia, Microsoft e Alphabet. Agora, com laboratórios de IA de capital fechado se tornando ativos públicos, essa demanda passa a ter uma via mais direta.
Na prática, o Bitcoin conquistou espaço institucional por reunir liquidez elevada e alta sensibilidade ao apetite por risco. Contudo, listagens de IA com valuation na casa do trilhão de dólares podem oferecer perfil semelhante em contas tradicionais de corretagem. Além disso, essas empresas apresentam resultados trimestrais e uma narrativa de crescimento empresarial.
Janela de risco também pode favorecer o BTC
Mercado forte pode sustentar ações e criptomoedas
Embora a competição por capital seja evidente, o cenário não é necessariamente negativo em todas as hipóteses. Afinal, o próprio Goldman Sachs condiciona sua projeção de US$ 160 bilhões em IPOs a um mercado acionário receptivo, forte apetite do varejo e demanda institucional por crescimento.
Assim, um ambiente capaz de absorver US$ 75 bilhões para a SpaceX e sustentar valuation de até US$ 1 trilhão para a OpenAI é, por definição, um mercado com elevada tolerância ao risco. Nesse contexto, o Bitcoin também pode voltar a se beneficiar, caso essa janela reforce o sentimento positivo em ativos de risco.
A correlação do BTC com o Nasdaq 100 e o S&P 500 se intensificou após marcos institucionais, como os ETFs à vista e a entrada da Strategy no índice Nasdaq 100. Essa correlação atingiu pico de 0,87 em 2024. Portanto, se a temporada de IPOs avançar sem sobressaltos, o pano de fundo pode recolocar os fluxos dos ETFs de Bitcoin no campo positivo. Para isso, a SpaceX precisaria precificar bem, a OpenAI teria de confirmar demanda em seu roadshow e a Anthropic deveria manter o cronograma previsto para outubro.
Segundo a Glassnode, a média móvel de 14 dias dos fluxos desses ETFs já atingiu fundo perto de mínimas locais do Bitcoin em episódios anteriores. Além disso, períodos de venda persistente frequentemente coincidiram com pontos de inflexão.
Há ainda outro fator importante. Estima-se que existam cerca de US$ 8 trilhões estacionados em fundos de mercado monetário nos Estados Unidos. Desse total, uma captação de US$ 75 bilhões pela SpaceX representaria algo próximo de 1%. Em tese, essa reserva de liquidez seria ampla o bastante para financiar simultaneamente ações de IA e exposição ao Bitcoin.
Wall Street observa perda do papel de alto beta
Médias técnicas e juros entram no radar
Se os alocadores institucionais entenderem a saída do Bitcoin como uma mudança estrutural de portfólio, o impacto pode se aprofundar mesmo sem novo colapso de preços. Isso ocorre porque as megacaps de IA entregaram resultados recordes nos últimos trimestres. Assim, a tese de inteligência artificial virou uma história mais tangível de fluxo de caixa.
Já os ciclos de alta do Bitcoin dependem mais de liquidez, narrativa e demanda estrutural puxada por ETFs. A OpenAI, por exemplo, ainda queima US$ 1,22 para cada US$ 1 de receita e, ainda assim, busca valuation de até US$ 1 trilhão. Mesmo nesse quadro, o mercado enxerga produto, cerca de 50 milhões de assinantes consumidores e uma receita anualizada corporativa de US$ 25 bilhões.
Para parte dos investidores, essa aposta pode parecer mais concreta do que a tese de escassez do Bitcoin. Isso ganha peso quando o momentum de empresas ligadas à IA avança 170% em um ano dentro da mesma faixa de risco. Além disso, durante o período de saídas dos ETFs de Bitcoin, a Nvidia subiu 6% e ações de semicondutores renovaram máximas. O movimento sugere que a pressão vendedora sobre o BTC combinou fatores específicos do mercado cripto com a rotação para IA.
Esse quadro pode piorar se houver choque de juros. Nesse caso, uma reprecificação nas ofertas de IA tenderia a atingir também o Bitcoin. Afinal, os ativos mantêm correlação recente em ambientes de maior ou menor apetite por risco.
Entre os indicadores mais observados, o mercado deve acompanhar quatro pontos. O primeiro é se os ETFs de Bitcoin voltam a registrar entradas líquidas mesmo com a demanda por IPOs. O segundo é se a força do Nasdaq se espalha além das líderes de IA. O terceiro é se o BTC recupera a média móvel de 30 dias perto de US$ 75.685 e a média de 200 dias próxima de US$ 78.840. Por fim, investidores monitoram se a postura do Federal Reserve estabiliza os rendimentos sem provocar uma rodada mais ampla de desalavancagem.
Como resultado, a disputa por capital entre Bitcoin e inteligência artificial deve ser medida por sinais concretos. Entre eles estão entradas ou saídas nos ETFs, força mais ampla do Nasdaq, recuperação das médias técnicas em US$ 75.685 e US$ 78.840 e uma política de juros que não desorganize simultaneamente ações de crescimento e o mercado de criptomoedas.