Maelstrom apoia Bitcoin Core, Payjoin e Silent Payments

A Maelstrom, family office do cofundador da BitMEX, Arthur Hayes, publicou seu primeiro relatório anual do Programa de Bolsas para Bitcoin. O documento informa que, em 20 meses de iniciativa, lançada em outubro de 2024, cinco desenvolvedores receberam apoio no total. Quatro ainda seguem ativos. Segundo a Maelstrom, esse grupo fortalece privacidade, segurança e resiliência da base de código do Bitcoin.

O relatório, assinado pelo administrador do programa, Jonathan Bier, lista Rkrux, Stratospher, Benalleng e Macgyver como beneficiários atuais. Dois trabalham diretamente no Bitcoin Core. Os outros dois atuam em tempo integral na infraestrutura de privacidade da rede. Além disso, as bolsas seguem contratos de 12 meses, com pagamentos mensais em Bitcoin. Cada desenvolvedor pode receber até US$ 400 mil por ano, e a Maelstrom financia integralmente o programa.

Bolsistas atuam em consenso, MuSig2 e P2P

Entre os bolsistas focados no Bitcoin Core, Rkrux recebe apoio desde outubro de 2024. Segundo o documento, ele se tornou um dos revisores mais ativos do projeto. Apenas em 2025, fez 1.155 comentários de revisão em mais de 200 pull requests. Com isso, ocupou a 11ª posição entre os comentaristas mais ativos de toda a base de código. O dado vem de um painel criado pelo desenvolvedor Niklas Gögge e citado no relatório. Já nos cinco primeiros meses de 2026, Rkrux adicionou mais de 400 comentários em PRs.

Além disso, Rkrux trabalhou em MuSig2, protocolo que faz transações multisig parecerem transações de assinatura única na blockchain. Dessa forma, a tecnologia melhora a privacidade e reduz taxas ao mesmo tempo. Ele também ajudou a descontinuar carteiras legadas em favor de carteiras modernas baseadas em descriptors. A medida busca ampliar a interoperabilidade no ecossistema.

Stratospher, que recebe bolsa desde novembro de 2025, concentrou esforços em áreas nas quais falhas podem gerar efeitos mais graves. Entre elas estão o código de validação crítico para consenso e a rede ponto a ponto. Segundo o relatório, ela identificou e corrigiu um bug de comportamento indefinido na função FindMostWorkChain do Bitcoin Core. Ademais, contribuiu para a remoção da flag BLOCK_FAILED_CHILD e trabalhou em provas DLEQ dentro da libsecp256k1, em conexão com Silent Payments.

Eventos reforçam debate sobre privacidade

Além do trabalho técnico, Stratospher participou da Africa Bitcoin Conference em dois painéis sobre desenvolvimento de código aberto e privacidade. O relatório destaca que erros no código de consenso podem fazer nós divergirem sobre o estado da rede. Nesse sentido, esse tipo de falha não tem caminho simples de recuperação. Por isso, a Maelstrom trata essa frente como prioridade.

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Preço do BTC em tendência de baixa no gráfico diário. Fonte: TradingView

Privacidade ganha espaço com Payjoin e Silent Payments

Os outros dois bolsistas atuam exclusivamente em tecnologias de privacidade para Bitcoin. Segundo o relatório, essa área ocupa posição central na filosofia da Maelstrom.

Benalleng, financiado desde junho de 2025, trabalha em tempo integral no Payjoin. Esse protocolo permite que remetente e destinatário contribuam com entradas na mesma operação em Bitcoin. Na prática, a ferramenta enfraquece a heurística de vigilância segundo a qual todas as entradas de uma transação pertencem à mesma pessoa. A API do Payjoin já foi integrada ao Bull Bitcoin e à Cake Wallet. Além disso, cinco ou mais integrações adicionais com carteiras seguem em andamento.

Igualmente, o projeto lançou bibliotecas para Python, Javascript, Dart e CSharp. Assim, aumentou a acessibilidade para desenvolvedores. O relatório argumenta que até uma adoção minoritária do Payjoin já reduz a capacidade de vigilância on-chain para toda a rede, inclusive para usuários que nunca utilizam o recurso. Em outras palavras, a Maelstrom vê essa assimetria de teoria dos jogos como uma das alavancas de privacidade mais subestimadas do Bitcoin.

Macgyver, também financiado desde junho de 2025, concentra o trabalho em Silent Payments, protocolo proposto por Ruben Somsen em 2022. A solução permite múltiplos pagamentos a um destinatário com um único endereço estático, sem reutilização desse endereço na blockchain. Nos últimos 12 meses, a adoção por carteiras avançou. Blindbit-Desktop, Cake Wallet e Dana Wallet agora oferecem suporte para envio e recebimento. Enquanto isso, Sparrow Wallet e Nunchuk adicionaram suporte para envio.

Financiamento segue modelo restrito

O relatório informa que o Bitcoin Core possui implementações preliminares para as duas fases de Silent Payments. No entanto, elas seguem em espera por causa da dependência do módulo de Silent Payments na libsecp256k1. Macgyver formalizou o roadmap do Silent Payments, produziu vetores de teste do BIP-375, propôs a primeira implementação funcional de assinador de hardware BIP-375 para a Coldcard e organizou encontros mensais do grupo de trabalho sobre Silent Payments.

O modelo de bolsas da Maelstrom é deliberadamente restrito. O programa financia somente trabalho de código aberto ligado ao protocolo Bitcoin, sem exigências comerciais e sem incentivos com tokens. Além disso, o comitê de revisão tem apenas duas pessoas, Arthur Hayes e Jonathan Bier, enquanto o capital vem de uma única fonte.

Na prática, o foco recai sobre atividades que raramente ganham amplo destaque. Entre elas estão revisão de código de consenso, fortalecimento da privacidade na camada P2P e construção de ferramentas para ofuscação de transações. Ainda assim, essas frentes sustentam a segurança e a privacidade de uma rede que hoje concentra centenas de bilhões de dólares em valor.

Como resultado, o relatório apresenta um modelo pouco comum no setor. Uma family office beneficiada pela valorização do Bitcoin direciona capital diretamente ao desenvolvimento de código aberto do próprio protocolo. Os pagamentos ocorrem em Bitcoin, com revisão entre pares e divulgação transparente dos resultados. Ao longo dos 20 meses do programa, a Maelstrom documentou avanços em Bitcoin Core, MuSig2, Payjoin e Silent Payments.