Solana cai apesar de ETFs; Nansen vê captura fraca

A Solana fechou maio com mais de US$ 1 bilhão em ativos sob gestão em ETFs spot. O resultado veio após entradas líquidas de US$ 115,3 milhões no mês, o melhor desempenho mensal de 2026. Ao mesmo tempo, a rede avançou em frentes relevantes. O valor de mercado dos ativos do mundo real tokenizados chegou a US$ 2,8 bilhões. Além disso, a oferta de stablecoins superou US$ 16,4 bilhões.

O volume de contratos perpétuos alcançou US$ 64,6 bilhões. A blockchain também respondeu por 97% do volume acumulado de negociação spot de ações tokenizadas on-chain. Ainda assim, a SOL seguia pressionada perto de US$ 63. Com isso, cresceu o debate sobre a desconexão entre atividade de rede e preço.

Rede cresce, mas a SOL não acompanha

Uso da blockchain beneficia outros agentes antes do token

Jake Kennis, analista sênior de pesquisa da Nansen, atribui o descompasso à captura de valor. Em outras palavras, atividade de rede não significa valorização direta do token. Taxas, fluxos de stablecoins, negociação de ações tokenizadas e entradas em ETFs podem fortalecer validadores, emissores, plataformas e formadores de mercado antes dos detentores de SOL.

No modelo atual da Solana, a ligação entre uso da rede, queima de tokens e valorização da SOL ainda parece limitada. Por isso, manchetes positivas sobre adoção institucional e expansão on-chain não se converteram imediatamente em alta de preço.

A marca de mais de US$ 1 bilhão em ETFs spot mostra acesso institucional mais consolidado. No entanto, esse avanço não garante compras contínuas de SOL no mercado à vista. Da mesma forma, as entradas líquidas de US$ 115,3 milhões em maio indicam força pontual, mas esses fluxos podem ser episódicos e sensíveis ao cenário macroeconômico.

Já os US$ 2,8 bilhões em ativos tokenizados e os US$ 16,4 bilhões em stablecoins reforçam a Solana como infraestrutura de liquidação. Contudo, parte relevante do valor econômico tende a ficar primeiro com emissores e plataformas. O mesmo raciocínio vale para os US$ 64,6 bilhões em contratos perpétuos e para os 97% de participação em ações tokenizadas.

Assim, os dados confirmam forte atividade de aplicativos e dominância em segmentos específicos. Ainda assim, a receita se concentra em protocolos, corretoras, provedores de liquidez e validadores, não necessariamente na SOL.

Taxas limitam a captura de valor pela Solana

Queima reduzida enfraquece o impacto da atividade

A arquitetura de taxas da Solana ajuda a explicar esse descompasso. As taxas básicas seguem divididas em 50% para queima e 50% para produtores de blocos. Entretanto, as taxas de prioridade, que predominam em períodos de maior processamento, passaram a ir integralmente para validadores após a SIMD-0096.

Na prática, um dia de uso intenso pode elevar a remuneração dos validadores sem ampliar a queima de SOL na mesma proporção. A proposta SIMD-0547, atualmente em discussão, argumenta que a taxa de queima da Solana gira em torno de 648 SOL por dia, mesmo com throughput sustentado em nível elevado.

Em uma rede que movimenta bilhões de dólares por dia, esse número sugere um problema estrutural. Com efeito, o valor gerado pelo uso se acumula primeiro nos operadores da rede e na camada de aplicativos. Só depois ele pode alcançar a SOL como ativo. Usuários podem liquidar mais de US$ 16 bilhões em stablecoins na Solana mantendo apenas a quantidade mínima de SOL necessária para taxas.

Além disso, a negociação de ações tokenizadas beneficia as plataformas e corretoras que intermediam essas operações. Nesse sentido, a receita dos aplicativos permanece concentrada no protocolo e no frontend, e não no token em si.

Kennis também observou que a queda da faixa entre US$ 76 e US$ 98 para a região de US$ 60 reflete um movimento macro de aversão ao risco. Portanto, dinâmica de oferta, distribuição entre detentores e liquidez global pesam sobre o preço da SOL, mesmo quando os fundamentos operacionais avançam.

Macro e inflação reforçam a pressão sobre a SOL

Mercado reprecifica ativos de beta elevado

Ryan Day, diretor de marketing da Solstice, afirmou que o IPO da SpaceX está sendo precificado nesta semana com valuation próximo de US$ 1,75 trilhão e captação de ao menos US$ 75 bilhões. A Reuters informou que investidores de varejo receberam alocação de até 30% das ações.

Segundo Day, OpenAI e Anthropic aparecem logo atrás na fila. Assim, quando volumes dessa magnitude migram para o mercado, ativos de risco em ações, crédito e mercado de criptomoedas tendem a ser reprecificados para liberar caixa. Nesse cenário, a Solana sofreria a mesma pressão de outros ativos de beta elevado. O movimento também atingiria o Bitcoin, que vinha sendo negociado perto de US$ 61.500.

Outro ponto citado é a regra de entrada acelerada da Nasdaq. Ela pode permitir que megacaps recém-listadas elegíveis entrem no Nasdaq-100 em até 15 pregões após a estreia. Como resultado, fundos passivos podem direcionar demanda para a SpaceX logo no início das negociações. Isso prolongaria o período de menor apetite por risco no mercado cripto.

Inflação do token segue no centro do debate

Para Ryan Day, a crítica estrutural mais consistente à tokenomics da Solana está na inflação. O modelo parte de uma taxa inicial de 8%, com desinflação anual de 15% e piso de longo prazo em 1,5%. No ritmo atual, o caminho até a inflação terminal levaria cerca de 5,7 anos.

Durante esse período, a oferta de SOL continua crescendo. Sem queima suficiente e sem demanda robusta por staking ou outros mecanismos capazes de absorver a emissão em escala, a diluição tende a permanecer como força dominante da tokenomics. Isso ocorre independentemente do crescimento do ecossistema.

Day também comentou a reputação da Solana ligada às memecoins por causa da Pump.fun. Contudo, ele afirmou que grandes blockchains passaram por ciclos semelhantes. Para o executivo, a crítica sobre inflação se sustenta em métricas objetivas, enquanto a crítica sobre memecoins tem caráter mais reputacional.

Propostas tentam mudar a dinâmica da SOL

SIMD-0550 e SIMD-0547 estão no radar do mercado

As reformas debatidas na comunidade tentam responder à lacuna de captura de valor percebida pelo mercado. A SIMD-0550 propõe dobrar a taxa anual de desinflação da Solana de 15% para 30%. Se implementada, a trajetória até a inflação terminal de 1,5% cairia de aproximadamente 5,7 anos para 2,8 anos.

Os defensores da proposta estimam que, aos preços atuais, a mudança reduziria futuras emissões de SOL em cerca de US$ 1,5 bilhão. Além disso, Anatoly Yakovenko já manifestou apoio público à direção da proposta, o que amplia a relevância do debate.

Já a SIMD-0547 busca reforçar a queima de taxas ao introduzir uma taxa básica baseada em recursos da rede e totalmente queimada. A ideia é fazer a queima acompanhar diretamente o consumo real de recursos, mesmo quando as taxas de prioridade continuarem indo para validadores.

Se adotada, a proposta poderia elevar a queima para dezenas de milhares de SOL em dias de estresse genuíno na rede. Dessa forma, a distância entre atividade econômica e captura direta de valor pelo token poderia diminuir. Ainda assim, persistem incertezas sobre apoio dos validadores, coordenação da comunidade e cronograma de ativação.

Por enquanto, o mercado acompanha esses pontos de perto. Afinal, a Solana precisa provar que o crescimento da infraestrutura, o avanço dos ETFs, a liquidação institucional e a liderança em ações tokenizadas podem se refletir, de fato, no valor da SOL.