BlackRock e Goldman disputam ETF de renda em Bitcoin
A BlackRock atualizou seu registro regulatório para um novo ETF de renda com exposição ao Bitcoin. Com isso, a maior gestora de ativos do mundo ampliou a disputa com o Goldman Sachs Group por investidores que buscam fluxo de caixa no mercado de criptomoedas.
O movimento sugere que o lançamento do iShares Bitcoin Premium Income ETF, sob o ticker BITA, está próximo. Em 10 de junho, a gestora enviou à Securities and Exchange Commission dos EUA (SEC) um prospecto revisado com parâmetros operacionais e de precificação.
O documento informa que o fundo terá taxa anualizada de 0,65% e fará pagamentos ao menos trimestrais. Esse custo fica acima de ETFs spot tradicionais de Bitcoin, como o iShares Bitcoin Trust (IBIT). Ainda assim, a despesa permanece abaixo de muitas estruturas de ETFs de ações com estratégia covered call nos mercados financeiros tradicionais.

Fonte: Eric Balchunas
Segundo Eric Balchunas, analista de ETFs da Bloomberg Intelligence, o novo envio provavelmente representa o ajuste estrutural final antes do aval regulatório. Depois disso, o produto poderá começar a ser negociado publicamente.
BITA combina Bitcoin spot, IBIT e opções
O novo registro também detalha a base financeira inicial do fundo. Em janeiro, a documentação original ainda não trazia essas informações.
Agora, a BlackRock informou que um investidor semente adquiriu 198 mil cotas a US$ 50 cada em 1º de junho. Dessa forma, o aporte levantou US$ 9,9 milhões para constituir o trust.
Em seguida, a gestora usou esse capital em 9 de junho para montar a carteira inicial. O trust comprou exatamente 109,9630217 Bitcoin e 90.901 cotas do IBIT. Ao mesmo tempo, os gestores lançaram 856 contratos de opções para ativar a parte da estratégia voltada à geração de renda.
Depois dessas operações, o trust reportou valor patrimonial líquido de cerca de US$ 9,99 milhões. Isso equivale a um valor patrimonial inicial por cota de US$ 49,97.
Além disso, o prospecto afirma que a taxa de 0,65% será paga por meio de liquidações periódicas de parte das posições em IBIT.
Na prática, o desenho do fundo mistura Bitcoin à vista, cotas de ETF spot com alta liquidez e instrumentos em caixa. Ao mesmo tempo, as opções são vendidas principalmente contra a alocação em cotas do IBIT.
Como a BlackRock pretende gerar renda
O mandato de investimento define o BITA como um ETF de Bitcoin com estratégia covered call. Em outras palavras, o fundo busca acompanhar a performance básica do ativo e gerar distribuições com os prêmios das opções.
Para isso, a equipe pretende vender opções de compra sobre cotas do IBIT. Em alguns casos, também poderá vender opções sobre índices especializados ligados a produtos negociados em bolsa com exposição spot ao Bitcoin.
Ao vender essas opções, o fundo recebe prêmios antecipadamente de contrapartes que buscam exposição alavancada a eventuais altas do IBIT. Em contrapartida, o veículo limita parte do ganho acima de um preço de exercício previamente definido.
A estratégia da BlackRock prevê nível de overwrite entre 25% e 35% do valor patrimonial líquido total do trust. Dessa forma, a maior parte da carteira permanece sem hedge. Assim, os cotistas ainda capturam parte relevante das altas do Bitcoin, enquanto uma fração menor da base de ativos sustenta o rendimento distribuído.
Esse formato lembra veículos de renda ligados a ações, sobretudo em períodos de mercado lateralizado ou de alta moderada. No caso do Bitcoin, porém, existe uma diferença importante. A volatilidade implícita do ativo costuma ser estruturalmente mais elevada do que a de classes tradicionais, como ações ou títulos soberanos.
Por isso, o BITA pode capturar prêmios maiores do que fundos equivalentes ligados a índices acionários. No entanto, o modelo envolve compensações claras. Em uma forte corrida de alta no mercado de criptomoedas, as opções vendidas limitam o retorno total do fundo. Por outro lado, em cenários laterais ou de queda moderada, os prêmios recebidos ajudam a compensar parte das perdas de capital.
Goldman Sachs prepara produto rival
O avanço da BlackRock também aumenta a competição com o Goldman Sachs, que progrediu em sua própria estrutura regulatória para um produto concorrente. O Goldman Sachs Bitcoin Premium Income ETF deve concluir sua análise regulatória e entrar em vigor perto do início de julho.
Embora os dois gigantes de Wall Street busquem o mesmo perfil de cliente, as estruturas operacionais diferem bastante. O produto do Goldman Sachs não terá posse direta de criptomoeda.
Em vez disso, sua estratégia determina que pelo menos 80% dos ativos líquidos fiquem alocados em veículos com exposição ao Bitcoin. A lista inclui ETPs spot externos, contratos de opções negociados em bolsa e uma subsidiária integral sediada nas Ilhas Cayman.
Além disso, o Goldman Sachs pretende adotar um overwrite mais agressivo. Seus documentos regulatórios indicam faixa esperada entre 40% e 100% da exposição total ao Bitcoin em condições normais de mercado.
Já a faixa de 25% a 35% da BlackRock preserva mais potencial de valorização. Ainda assim, ela pode oferecer uma base de distribuição menor.
Duas teses para perfis diferentes
Essa diferença pode se tornar decisiva quando os dois fundos entrarem em atividade. A estrutura mais ampla do Goldman Sachs permite rendimentos teóricos mais altos em mercados estagnados. Contudo, ela também aumenta o teto imposto aos ganhos em momentos de disparada do Bitcoin.
Já o desenho mais conservador da BlackRock tende a equilibrar melhor participação em altas e geração de prêmio. Nesse sentido, os dois produtos miram investidores semelhantes, mas entregam exposições distintas ao risco.
Esse avanço marca uma segunda etapa no ecossistema de ETFs de ativos digitais. A primeira fase foi dominada pela construção da infraestrutura de exposição direta, com destaque para o IBIT da BlackRock. O fundo acumulou US$ 62 bilhões em entradas líquidas totais desde seu lançamento em 2024, segundo dados da SoSoValue.

Fonte: SoSoValue
A chegada do BITA e do fundo concorrente do Goldman Sachs indica que a renda com ETF de Bitcoin está se consolidando como uma categoria própria. Assim, o segmento vai além da exposição spot simples.
Ademais, gestoras de Wall Street buscam diferenciação para atrair portfólios institucionais mais avessos a risco. As empresas também miram redes de assessoria patrimonial focadas em fluxo de caixa recorrente.
Esse segmento, porém, já enfrenta concorrência. O NEOS Bitcoin High Income ETF (BTCI), por exemplo, já superou US$ 1 bilhão em ativos sob gestão com uma estrutura semelhante baseada em opções.
A viabilidade de longo prazo desses veículos depende da compreensão clara do investidor sobre a diferença entre rendimento estrutural e renda fixa tradicional. Os pagamentos distribuídos por BITA e produtos similares não vêm de juros nem de fluxo de caixa corporativo subjacente.
Em vez disso, eles dependem integralmente da dinâmica de precificação das opções e da volatilidade de mercado. Por conseguinte, as taxas de distribuição tendem a oscilar com mudanças macroeconômicas, volume de negociação e variações nos índices de volatilidade das opções.
No caso da BlackRock, os dados já divulgados incluem taxa anualizada de 0,65%, aporte semente de US$ 9,9 milhões, compra de 109,9630217 Bitcoin, aquisição de 90.901 cotas do IBIT e lançamento de 856 contratos de opções como base da estratégia inicial do BITA.