Bitcoin a US$ 60 mil depende do dólar, diz Glassnode
O Bitcoin voltou a testar a região de US$ 60 mil. Ainda assim, a permanência nesse nível depende mais do cenário macroeconômico do que apenas dos fundamentos on-chain. A Glassnode afirmou, em relatório semanal, que o ativo entrou em uma zona de forte desconto. Ao mesmo tempo, mais de 95% dos detentores de curto prazo operavam no prejuízo.
A empresa também destacou que as perdas realizadas se aproximaram de níveis historicamente associados a capitulações severas. Embora o mercado tenha eliminado parte relevante da alavancagem recente, o suporte em US$ 60 mil segue vulnerável à força do dólar e aos juros elevados nos Estados Unidos.
Segundo a análise, uma recuperação mais consistente exigiria um dólar mais fraco, com o índice DXY abaixo de 99. Outra condição seria a compressão do rendimento dos Treasuries de 10 anos para perto de 4,2%. No recorte citado no estudo, o DXY marcava 100,01, com alta de 2,1% em 30 dias. Já o yield de 10 anos estava em 4,53%.
Indicadores on-chain mostram estresse extremo
Desconto cíclico e prejuízo entre compradores recentes
Entre os principais sinais on-chain, a Glassnode apontou o AVIV z-score em -1,09, antes da estabilização em -1,06. Em outras palavras, o Bitcoin entrou em uma faixa de desconto extremo frente à sua média cíclica. Além disso, a razão AVIV ficou em 0,80. O indicador compara a cotação à vista com o custo médio de aquisição dos investidores ativos, excluindo mineradores.
O estresse entre investidores de curto prazo também aumentou. Conforme o relatório, o Short-term holder MVRV caiu para 0,81 e depois voltou a 0,83. Isso indica que compradores recentes acumulavam, em média, perdas entre 17% e 19%. Além disso, apenas 3,3% desses participantes estavam no lucro, muito abaixo da média de 55% observada nos últimos quatro anos.
Outro dado relevante veio do STH-SOPR z-score, que alcançou -1,86. Esse patamar está apenas 0,14 desvio padrão acima de -2, faixa associada pela Glassnode a eventos de capitulação severa. Enquanto isso, o Bitcoin absorveu queda semanal de 7,5% e recuou para US$ 61,7 mil. No mesmo período, posições compradas alavancadas entre US$ 64 mil e US$ 70 mil sofreram liquidações agressivas.
Assim, o perfil de liquidações ficou mais limpo do que há uma semana. Ainda assim, essa melhora técnica não garante recuperação imediata. O mercado precisa atrair demanda suficiente para absorver a oferta despejada durante a correção.
Demanda à vista enfraquece e proteção na baixa avança
Coinbase Premium, tesourarias corporativas e opções no radar
Do lado da demanda, o Coinbase Premium permaneceu em território de desconto durante a aproximação do Bitcoin de US$ 60 mil. Esse movimento sugere enfraquecimento da demanda à vista nos Estados Unidos justamente quando o preço perdia força. Em correções anteriores, investidores ligados à Coinbase reagiram com compras mais agressivas. Agora, porém, essa resposta não apareceu com a mesma intensidade.
Ademais, a Glassnode registrou desaceleração relevante na acumulação por tesourarias corporativas. Entre abril e maio, esse fluxo chegou a superar US$ 500 milhões por dia e ajudou a sustentar o ativo. Desde o início de junho, contudo, as compras diárias passaram a representar apenas uma fração daquele ritmo.
No mercado de opções, a volatilidade implícita de uma semana no ponto de equilíbrio superou brevemente 60%. Depois, recuou para perto de 50%. Em seguida, a volatilidade implícita de um mês subiu de cerca de 34% para 45%. Já a de seis meses avançou de aproximadamente 40% para 44%. Dessa maneira, os operadores passaram a precificar mais turbulência nos próximos períodos.
Além disso, a proteção contra queda ficou mais cara. O skew de 25 delta para um mês saltou de cerca de 11% para 24%. Enquanto isso, os vencimentos de três e seis meses subiram para perto de 18% e 14%, respectivamente. Ao mesmo tempo, a compra de puts respondeu por 32,4% do prêmio em sete dias e por 35,9% no período de 24 horas monitorado pela Glassnode.
Em resumo, o posicionamento defensivo domina o mercado. Com demanda à vista enfraquecida, menor ritmo de compras corporativas e opções inclinadas para a baixa, o desconto atual pode persistir por mais tempo.
Macro define o destino do suporte em US$ 60 mil
DXY, Treasuries e próximos gatilhos do mercado
A Glassnode afirmou que a relação inversa entre dólar e criptomoedas, muito visível em 2022 e 2023, voltou a ganhar força. De acordo com o relatório, DXY acima de 100 e rendimento de 10 anos acima de 4,5% tendem a comprimir os prêmios de risco dos ativos especulativos.
Na fotografia mais recente do estudo, o Treasury de 2 anos rendia 4,14%, enquanto o de 10 anos estava em 4,53%. O spread entre 10 e 2 anos marcava +0,39%. Segundo a análise, essa configuração costuma aparecer em estágio avançado de ciclo. Além disso, com o DXY acumulando alta de 0,8% na semana e 2,1% em 30 dias, o aperto de liquidez aumenta o custo de oportunidade de manter exposição ao Bitcoin.
Por isso, o ponto de virada citado pela Glassnode é claro. O cenário ficaria mais favorável se o DXY caísse abaixo de 99. Também melhoraria se o rendimento do Treasury de 10 anos se aproximasse de 4,2%. Essa mudança poderia surgir após um dado de inflação ao consumidor mais fraco em 10 de junho, projeções mais brandas do Federal Reserve na reunião do Federal Open Market Committee, marcada para 16 e 17 de junho, ou uma rotação mais ampla para ativos de risco.
No cenário otimista, a demanda à vista voltaria, o Coinbase Premium melhoraria e o skew das opções tenderia à normalização. No cenário base, contudo, com DXY perto de 100 e Treasury de 10 anos ao redor de 4,5%, o Bitcoin seguiria oscilando em torno de US$ 60 mil sem confirmação de recuperação. Já no cenário negativo, com dólar acima de 100 e yields sustentados acima de 4,5%, mais compradores recentes poderiam capitular.
O quadro final mostra um Bitcoin negociado com forte desconto, detentores de curto prazo em estresse extremo e STH-SOPR z-score em -1,86. Também aponta demanda à vista enfraquecida e desaceleração nas compras de tesourarias corporativas. Enquanto o DXY permanecer em 100,01 e o Treasury de 10 anos em 4,53%, o suporte em US$ 60 mil seguirá altamente dependente do ambiente macroeconômico.