Exchanges miram ações tokenizadas e pressiona Wall Street
Binance, Kraken, Bybit e Gemini ampliaram a oferta de ações tokenizadas e ETFs dos Estados Unidos em seus aplicativos. Com isso, a disputa entre exchanges ganhou escala e passou a pressionar corretoras tradicionais de Wall Street. A estratégia é direta: transformar contas usadas para negociar Bitcoin e a Solana em portas de entrada para ações como Nvidia, Tesla e Apple.
A Binance passou a oferecer acesso direto a mais de 7.000 ações e ETFs dos Estados Unidos. Além disso, lançou os bStocks, produto tokenizado que promete exposição econômica 1:1 a papéis selecionados. A empresa afirma que a liquidação ocorre em stablecoins. Os ativos também podem ser retirados para carteiras de autocustódia. Já a negociação funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, no mercado à vista da plataforma.
A Kraken informou que o xStocks chegou a 100 ações e ETFs tokenizados dos Estados Unidos, todos integralmente lastreados. Ao mesmo tempo, o produto superou US$ 25 bilhões em volume de transações desde junho de 2025. A meta da companhia é ultrapassar 500 listagens até o fim de 2026.
A Bybit anunciou, em 7 de junho, acesso de varejo a IPOs tokenizados, começando pela SpaceX. A negociação à vista foi aberta em 12 de junho. A Gemini, por sua vez, entrou na disputa ao permitir que clientes de países europeus elegíveis negociem os Dinari dShares. Esses papéis são ações tokenizadas lastreadas 1:1 por ações correspondentes dos Estados Unidos, sem taxa de negociação e com disponibilidade contínua.
Exchanges ampliam a disputa pelo varejo global
Os primeiros dados da Binance sobre o acesso direto a ações indicam forte adesão em mercados emergentes. Esses usuários responderam por mais de 80% do volume negociado na primeira semana. Além disso, cerca de 39% das operações ficaram abaixo de US$ 100. Aproximadamente 25% dos usuários tinham menos de 25 anos.
Esse perfil reforça a aposta das exchanges em investidores que operam pelo celular. Também mostra a concentração da atividade financeira em aplicativos de criptomoedas. Nesse sentido, comprar ações dos Estados Unidos sem abrir conta em uma corretora convencional representa uma mudança relevante na distribuição de produtos financeiros.
Na prática, a lógica competitiva é simples. Se o usuário consegue comprar Apple, manter saldo em stablecoins e negociar Bitcoin no mesmo aplicativo, tende a permanecer nesse ecossistema. Por isso, Kraken, Bybit e Gemini tratam ações como uma extensão nativa das contas cripto. A disputa envolve profundidade de oferta, liquidez, horário estendido, taxas, saques para carteira e até acesso a IPOs.
SpaceX mostra o alcance dos produtos tokenizados
A Bybit, com o caso SpaceX, sinaliza onde essa categoria pode avançar. Em outras palavras, a tokenização pode abrir acesso a empresas pré-IPO ou recém-listadas. Historicamente, esse mercado ficou restrito a corretoras institucionais e gestores de patrimônio. A Kraken também abriu acesso tokenizado ligado à SpaceX para clientes em mais de 110 países via xStocks.
Em paralelo, a Binance Research projeta que exchanges de criptomoedas podem direcionar quase 300 milhões de novos usuários para ações globais até 2031. A estimativa também aponta aproximadamente US$ 2 trilhões em capital incremental.
Regulação e infraestrutura entram no centro da disputa
A reação da infraestrutura financeira tradicional já começou. A New York Stock Exchange (NYSE) anunciou em janeiro uma plataforma de valores mobiliários tokenizados. O desenho prevê negociação ininterrupta, ações fracionadas, liquidação imediata e financiamento com stablecoins.
Em março, a Securities and Exchange Commission (SEC) aprovou a proposta da Nasdaq para permitir a negociação tokenizada de determinadas ações do Russell 1000. A autorização também inclui ETFs de grandes índices. A liquidação ocorreria por meio da Depository Trust Company (DTC).
Dessa forma, a infraestrutura tradicional e as exchanges de criptomoedas caminham para uma lógica semelhante de produto. Ainda assim, elas competem pelo controle dos trilhos, da custódia, do arcabouço de direitos e da relação com o investidor de varejo.
A World Federation of Exchanges (WFE) alertou reguladores sobre ações tokenizadas emitidas por terceiros. Para a entidade, esses produtos podem fragmentar a liquidez e enfraquecer a formação de preços. Além disso, podem expor investidores a riscos de custódia e exigibilidade jurídica ausentes na posse convencional de ações.
O que o investidor realmente compra
Em janeiro de 2026, a equipe da SEC distinguiu valores mobiliários tokenizados patrocinados pelo emissor e produtos de terceiros. Segundo a análise, a segunda categoria pode representar direitos custodiados ou instrumentos sintéticos. Assim, esses produtos oferecem exposição sem conceder participação societária, voto, acesso à informação ou outros direitos do emissor de referência.
A Binance afirma que os bStocks não são ações nem cotas. Também diz que o titular não possui diretamente as ações subjacentes da empresa listada. A Kraken, por sua vez, afirma que o xStocks não confere propriedade, embora o saldo em conta possa ser ajustado para refletir dividendos. Já a página europeia da Robinhood descreve seus tokens de ações como contratos derivativos. Esses contratos são precificados com base no ativo subjacente e não concedem direitos sobre o valor mobiliário original.
Os produtos disponíveis hoje variam bastante em estrutura. Em uma ponta, o acesso direto a ações oferecido pela Binance envia ordens para uma corretora e uma parceira de compensação externas. Esse modelo aproxima a experiência do formato tradicional. Em outra ponta, instrumentos sintéticos ou derivativos oferecem apenas exposição ao preço por meio de uma relação contratual com o emissor, um veículo estruturado ou uma contraparte.
A maior parte das ofertas atuais fica entre esses dois extremos. Nelas, direitos custodiados costumam ser lastreados 1:1 por ações reais mantidas por um veículo de propósito específico ou por custodiante terceirizado. Portanto, quem compra Nvidia em uma exchange de criptomoedas não necessariamente adquire a mesma posição jurídica de quem compra a ação por uma corretora registrada.
Mercado trilionário atrai Binance, Kraken, Bybit e Gemini
A projeção de tokenização do Citi, publicada em junho de 2026, dimensiona essa disputa. No cenário base, os ativos tokenizados alcançariam US$ 5,5 trilhões até 2030. O avanço seria liderado por valores mobiliários de mercados públicos, incluindo cerca de US$ 2,6 trilhões em ações dos Estados Unidos. No cenário otimista, o total chegaria a US$ 8,2 trilhões, com ações americanas perto de US$ 3,9 trilhões.
Segundo esse desenho, exchanges de criptomoedas podem se consolidar como plataformas dominantes de corretagem de varejo fora dos Estados Unidos. Além disso, stablecoins substituiriam gradualmente contas em dinheiro como camada de financiamento para ações, ETFs e ativos de mercado privado. Nesse ambiente, IPOs passariam a funcionar como mais um produto de distribuição global dentro de aplicativos já usados por milhões de usuários.
Cenário regulatório pode definir vencedores
No cenário pessimista, reguladores enquadrariam produtos tokenizados de terceiros em estruturas de corretoras, derivativos ou registros de bolsa. Como consequência, exigências de divulgação de direitos e padrões de custódia retardariam a expansão por jurisdição. Nessa hipótese, os ativos tokenizados ficariam próximos do piso de US$ 2,7 trilhões projetado pelo Citi. Ao mesmo tempo, NYSE, Nasdaq, DTC e corretoras reguladas concentrariam a maior parte do fluxo.
A dimensão da oportunidade ajuda a explicar a ofensiva. O valor de mercado global das ações chegou a US$ 126,7 trilhões em 2024, com os Estados Unidos respondendo por quase metade. O dado consta no fact book de 2025 da Securities Industry and Financial Markets Association (SIFMA). A Goldman Sachs também projeta que a captação em IPOs nos Estados Unidos pode atingir recorde de US$ 160 bilhões em 2026. SpaceX, OpenAI e Anthropic aparecem entre os nomes que impulsionam esse ciclo.
Além disso, o setor de tecnologia do S&P 500 representava mais de 39% da capitalização do índice no início de junho, o maior nível já registrado. É justamente esse tipo de ativo que investidores globais de varejo buscam. Com acesso móvel, financiamento em stablecoins e negociação quase contínua, Binance, Kraken, Bybit e Gemini tentam capturar essa demanda antes que Wall Street a recoloque dentro de sua própria infraestrutura tokenizada.