Bitcoin perde suporte de ETFs e tesourarias corporativas
Os maiores compradores de Bitcoin reduziram o apoio ao preço do ativo. ETFs spot nos Estados Unidos, empresas listadas com tesouraria em Bitcoin e ações ligadas ao BTC mostram perda de força. Nesse cenário, a maior criptomoeda do mercado tenta se sustentar acima de US$ 60.000.
A correção prolongada reacendeu o debate sobre o papel do Bitcoin nas carteiras institucionais. Assim, o mercado trabalha com duas hipóteses centrais. A primeira envolve uma realização temporária de lucros. A segunda, mais dura, aponta para uma redução estrutural da exposição a ativos digitais.
ETFs spot viram fonte de pressão
A reversão mais visível veio dos ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos. Esses fundos abriram 2026 como uma das principais fontes de demanda pelo ativo. Desde janeiro de 2024, eles vinham funcionando como porta de entrada do capital tradicional. No entanto, essa narrativa perdeu força nas últimas semanas.
Dados da SoSoValue indicam que os ETFs spot de Bitcoin nos EUA acumularam cinco semanas consecutivas de saídas líquidas. No período, os resgates somaram mais de US$ 5 bilhões.

Fonte: SoSoValue
Além disso, dados da Glassnode publicados no X por CryptoVizArt mostram uma deterioração dos fluxos. A média móvel de 30 dias dos fluxos líquidos caiu para menos 2.450 BTC por dia. Segundo o levantamento, esse é o ritmo mais forte e contínuo de saídas desde o lançamento dos produtos.
Com efeito, esse número supera com folga a nova oferta da rede. Após o halving de 2024, os mineradores passaram a produzir cerca de 450 BTC por dia. Dessa forma, uma saída diária de 2.450 BTC equivale a mais de cinco vezes a emissão diária. Assim, os ETFs deixaram de atuar apenas como mecanismo de absorção e passaram a ampliar a pressão vendedora.
A Glassnode também apontou queda relevante no volume negociado. A média móvel de 30 dias do volume diário dos ETFs spot de Bitcoin nos EUA recuou para cerca de US$ 960 milhões. Em outubro, esse volume era de US$ 4,4 bilhões. A retração, portanto, chegou a 78%.

Fonte: Glassnode, via CryptoVizArt no X
Demanda institucional perde intensidade
Essa combinação vai além de uma simples realização de lucros. Em outras palavras, a demanda especulativa dos investidores tradicionais enfraqueceu ao mesmo tempo em que os resgates aceleraram. Com menos volume, o mercado absorve pior os movimentos de venda.
Ao mesmo tempo, empresas com tesouraria em Bitcoin também desaceleraram. Analistas da Glassnode afirmaram, em relatório, que essas companhias seguem compradoras líquidas no agregado. Ainda assim, o ritmo de acumulação diária caiu para uma fração do observado no início do trimestre.
“A acumulação de tesourarias corporativas desacelerou fortemente, com entradas líquidas caindo de picos acima de US$ 500 milhões por dia para níveis próximos de zero desde junho.”
Fonte: Glassnode
Parte do foco recaiu sobre a Strategy, maior empresa de capital aberto com Bitcoin em caixa. A companhia informou que vendeu 32 BTC na última semana de maio. Embora o volume tenha sido pequeno diante das reservas totais, o gesto teve peso simbólico.
Posteriormente, a Strategy voltou às compras durante a queda e adquiriu cerca de US$ 100 milhões em Bitcoin. Ainda assim, a operação não impediu que o preço rompesse momentaneamente abaixo de US$ 60.000.
Outras empresas expostas ao BTC também chamaram atenção. Fold e Nakamoto venderam parte de suas posições. Nesse sentido, a estratégia de tesouraria em Bitcoin deixou de parecer totalmente unidirecional. Agora, ela reflete maior seletividade diante da liquidez mais fraca.
Os dados da Glassnode mostram ainda enfraquecimento nas ações dessas companhias. A média móvel simples de 30 dias do volume diário total das principais empresas listadas com reservas em Bitcoin caiu 49% em cerca de seis meses. O indicador saiu de US$ 34,2 bilhões em dezembro para US$ 17,4 bilhões no momento da publicação.

Fonte: Glassnode
Depósitos em corretoras elevam cautela
Em paralelo, sinais mais amplos de ansiedade cresceram no mercado. Dados da CryptoQuant indicam alta relevante nos depósitos de Bitcoin em corretoras. O movimento envolve baleias e também investidores de varejo. Em geral, esse comportamento sugere intenção de venda.

Fonte: CryptoQuant
Nos últimos três meses, os fluxos de baleias para a Binance ficaram em média em 5.280 BTC por dia. O número supera os 1.900 BTC diários registrados em março. Ao mesmo tempo, o varejo acompanhou o movimento. A média diária de entradas em corretoras subiu para 410 BTC.
Esse padrão já havia surgido no início de fevereiro, quando o Bitcoin testou a faixa de US$ 60.000. Naquele momento, as entradas de baleias chegaram a 6.200 BTC. Enquanto isso, o varejo alcançou 570 BTC. Historicamente, esse tipo de evento facilita a migração de moedas de especuladores de curto prazo para detentores de longo prazo. Porém, o efeito imediato costuma pressionar o preço.
Liquidez menor amplia a sensibilidade do BTC
A atividade geral no mercado de criptomoedas também esfriou. Dados da Santiment mostram que o volume negociado entre os maiores ativos, excluindo stablecoins, caiu para níveis vistos pela última vez em meados de 2024.

Fonte: Santiment
Esse cenário cria uma estrutura mais delicada para o Bitcoin. De um lado, o volume mais baixo deixa o mercado mais vulnerável. Por outro, períodos de baixa atividade também podem sinalizar exaustão vendedora. Ainda assim, no curto prazo, a leitura dominante permanece cautelosa.
Em suma, o Bitcoin não precisa ser abandonado pelas instituições para seguir sob pressão. Basta que os maiores compradores reduzam o ritmo, façam vendas pontuais ou deixem de absorver a oferta como antes. Neste momento, os dados apontam nessa direção. Os ETFs spot registram saídas de mais de US$ 5 bilhões, com fluxo líquido negativo de 2.450 BTC por dia. Além disso, a acumulação corporativa desacelerou desde junho, enquanto o volume das ações de empresas com reservas em Bitcoin caiu de US$ 34,2 bilhões para US$ 17,4 bilhões.