EUA miram força-tarefa contra roubo de criptomoedas

O Congresso dos Estados Unidos discute uma resposta federal mais coordenada para roubos de criptomoedas, mais de um ano após o Departamento de Justiça dos EUA encerrar sua equipe especializada no tema. A proposta partiu dos deputados Lance Gooden e Josh Gottheimer. Além disso, o texto prevê uma força-tarefa federal para prevenir, investigar e processar furtos de ativos digitais dentro do próprio Departamento de Justiça dos EUA.

Segundo o projeto e o anúncio divulgado em 11 de junho pelo gabinete de Gooden, a nova estrutura ficaria subordinada à procuradora-geral dos EUA ou a um representante designado. Assim, a iniciativa surge enquanto Washington tenta levar o mercado de ativos digitais para um ambiente de regras mais claras, sem deixar de responder a hacks, golpes, coerção e furtos contra usuários.

Esse movimento se conecta ao memorando de abril de 2025 do Departamento de Justiça dos EUA. Na ocasião, o vice-procurador-geral Todd Blanche afirmou que o governo encerraria o que chamou de “regulação por acusação penal”. Em seguida, o documento desfez a National Cryptocurrency Enforcement Team. Também redirecionou uma unidade do Departamento de Justiça dos EUA para longe da fiscalização específica do setor e orientou promotores a focarem no uso criminoso individual dos ativos digitais, em vez de tratar toda a indústria como alvo.

Proposta mira coordenação federal contra furtos digitais

O texto, chamado Federal Cryptocurrency Theft Enforcement and Coordination Act, criaria uma força-tarefa com a função de atuar como principal órgão federal de coordenação. O foco seria prevenir, investigar e processar crimes ligados ao roubo de criptomoedas e atividades correlatas.

De acordo com a proposta, a estrutura reuniria representantes seniores do Departamento de Justiça dos EUA, do Federal Bureau of Investigation, do Departamento de Segurança Interna, incluindo o Homeland Security Investigations, e do Departamento do Tesouro, incluindo a Financial Crimes Enforcement Network. Além disso, a procuradora-geral poderia incluir outras agências federais de aplicação da lei quando julgasse adequado.

A proposta não amplia a regulação do mercado de ativos digitais. Pelo contrário, seu foco é operacional. Entre as atribuições previstas estão o desenvolvimento de melhores práticas para coleta de provas, análise de evidências digitais apreendidas, técnicas investigativas, rastreamento de ativos e atendimento às vítimas.

Ao mesmo tempo, o projeto prevê assistência técnica, treinamento e orientação para forças policiais e promotores estaduais e locais. Também autoriza o compartilhamento de informações com órgãos federais, estaduais, locais, tribais e territoriais. Em casos transnacionais, a força-tarefa ainda poderia coordenar ações com parceiros internacionais.

Um ponto politicamente sensível aparece na delimitação expressa de escopo. Em outras palavras, a proposta deixa fora do alcance regulatório da força-tarefa as criptomoedas, os mercados de ativos digitais, as instituições financeiras e os produtos financeiros. Da mesma forma, o texto não altera a autoridade regulatória federal já existente, o código penal nem direitos privados de ação judicial.

O que o projeto fazO que fica fora do escopo
Cria uma força-tarefa no Departamento de Justiça dos EUA para coordenar casos de roubo de criptomoedasNão altera a regulação do mercado de criptomoedas
Padroniza práticas de provas, rastreamento e contato com vítimasNão modifica os tipos penais existentes
Exige relatórios anuais sobre atividades, tendências e coordenaçãoNão define financiamento, quadro de pessoal nem portal de atendimento às vítimas
Infográfico sobre a proposta de força-tarefa do Departamento de Justiça dos EUA para roubo de criptomoedas
Infográfico sobre a proposta de força-tarefa do Departamento de Justiça dos EUA para roubo de criptomoedas.

Repressão criminal fica separada do debate regulatório

Na prática, o projeto separa duas discussões que hoje caminham juntas em Washington. De um lado, está o debate sobre estrutura de mercado, exchanges, mixers, carteiras e emissão de tokens. De outro, cresce a avaliação de que vítimas de roubo em criptomoedas precisam de um centro federal permanente de coordenação, sobretudo depois do fim da equipe especializada que antes tratava esse tipo de crime com mais foco.

Assim, os deputados tentam dissociar o combate ao roubo do debate regulatório mais amplo. Esse desenho pode facilitar apoio político, já que evita reacender a disputa sobre até onde deve ir a supervisão federal sobre o mercado cripto.

Perdas bilionárias aumentam pressão sobre o Congresso

O principal argumento a favor do projeto está no volume de casos e na dificuldade de resposta integrada. O Federal Bureau of Investigation informou, em seu relatório de crimes na internet de 2025, que registrou 181.565 queixas envolvendo criptomoedas e mais de US$ 11 bilhões em perdas reportadas. Além disso, as perdas totais ligadas a crimes cibernéticos se aproximaram de US$ 21 bilhões.

Esses números, por si só, não provam que uma nova força-tarefa recuperará mais recursos. Ainda assim, ajudam a explicar por que o Congresso tenta tratar os roubos como um problema específico de coordenação federal. Afinal, para a vítima de esvaziamento de carteira, golpe de phishing, invasão de exchange ou ataque com coerção física, o sistema raramente opera como uma trilha federal clara.

Polícias locais podem não ter experiência em rastreamento on-chain. Além disso, promotores podem precisar de apoio técnico para preservar evidências digitais. Agências federais, por sua vez, podem divergir sobre a competência do caso. Em muitos episódios, empresas privadas acabam sendo as únicas capazes de congelar, sinalizar ou rastrear fundos com rapidez suficiente. Quando há fronteiras internacionais envolvidas, o tempo de resposta costuma ser ainda mais curto.

Coordenação não garante capacidade operacional

É justamente essa fragmentação que a proposta tenta enfrentar. O texto parte da premissa de que um boletim inicial pode começar com um agente local, virar um caso de rastreamento em blockchain e, posteriormente, exigir respostas ligadas a sanções, segurança cibernética ou cooperação internacional.

Apesar do apoio político que a ideia pode reunir, o projeto deixa uma questão central em aberto. Coordenação não significa, automaticamente, capacidade operacional. O texto determina a entrega de relatórios anuais ao Congresso com informações sobre atividades da força-tarefa, ameaças emergentes, articulação com autoridades estaduais e locais e possíveis recomendações legislativas ou administrativas.

Também prevê ações de aproximação com autoridades subnacionais, embora a adesão de governos estaduais, locais, tribais e territoriais seja voluntária. Se funcionar, isso pode criar procedimentos mais claros, pontos de contato mais confiáveis e escalonamento mais rápido para vítimas. No entanto, os próprios relatórios podem revelar lacunas que o Congresso ainda não decidiu financiar. Entre elas estão número de agentes, analistas, promotores, especialistas forenses e equipes de apoio às vítimas.

O projeto não especifica dotações orçamentárias. Também não detalha como ocorreria a entrada formal de denúncias, quais prazos de resposta seriam aplicados nem como se daria a divisão efetiva de trabalho entre os órgãos. Portanto, a proposta desenha um modelo de força-tarefa, mas não reconstrói automaticamente a antiga capacidade especializada que a National Cryptocurrency Enforcement Team representava antes da mudança de abril de 2025.

Como resultado, o texto apresentado por Lance Gooden e Josh Gottheimer reflete a pressão por uma resposta federal mais estruturada para os roubos de criptomoedas. Ao mesmo tempo, o memorando de abril de 2025 do Departamento de Justiça dos EUA, assinado por Todd Blanche, marcou o encerramento da National Cryptocurrency Enforcement Team. Nesse cenário, as 181.565 queixas e os mais de US$ 11 bilhões em perdas reportados pelo Federal Bureau of Investigation em 2025 reforçam o argumento político por uma coordenação federal mais permanente.