Bitcoin: BlackRock e Metaplanet criam renda com BTC

O Bitcoin não oferece fluxo nativo de caixa aos investidores passivos. Ainda assim, instituições financeiras aceleram produtos que prometem gerar renda a partir do ativo. Em junho, dois movimentos reforçaram essa tendência. A BlackRock preparou um ETF com foco em rendimento, enquanto a Metaplanet avançou na compra de uma corretora japonesa para estruturar títulos vinculados ao BTC.

Eric Balchunas, analista de ETFs da Bloomberg, afirmou no X que o iShares Bitcoin Premium Income ETF, com ticker BITA, deve começar a negociar na Nasdaq em 16 de junho.

Ao mesmo tempo, a Metaplanet assinou em 12 de junho um acordo de transferência de ações para adquirir todas as ações em circulação da Siiibo Securities. Dylan LeClair indicou no X que a operação deve ser concluída em 13 de julho.

Em ambos os casos, a lógica é semelhante. O rendimento não nasce do protocolo do Bitcoin. Em vez disso, ele surge de estruturas financeiras que transformam volatilidade, garantias e crédito em produtos de renda.

ETF e corretora ampliam o uso financeiro do Bitcoin

A Metaplanet informou que detinha 40.177 BTC em 15 de junho. Além disso, a empresa reportou valor patrimonial líquido de 457,6 bilhões de ienes. Com isso, ocupa a posição de terceira maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo e a primeira do Japão.

A aquisição da Siiibo custará 2,1 bilhões de ienes. A companhia pretende financiar a operação principalmente com caixa e empréstimos. Ademais, afirmou que poderá recorrer a linhas de crédito com garantia em Bitcoin, com capacidade de até US$ 500 milhões.

Após o fechamento e a conversão integral em subsidiária, prevista para o fim de agosto, a Siiibo passará a se chamar Metaplanet Securities. A corretora possui licença registrada como Type I Financial Instruments Business Operator. Além disso, opera uma plataforma privada de colocação de títulos corporativos que já apoiou mais de 100 emissões para mais de 40 empresas.

Nos materiais suplementares, a Metaplanet diz que poderá oferecer produtos voltados à renda, incluindo títulos vinculados ao BTC. Ainda assim, a companhia ressalta que esses instrumentos continuam em fase de planejamento.

Como o BITA busca rendimento com opções

Nos Estados Unidos, o BITA representa a versão mais direta dessa tendência. Documentos enviados à Securities and Exchange Commission mostram que a BlackRock estruturou o ETF como trust estatutário de Delaware. Seus ativos incluem Bitcoin, cotas do iShares Bitcoin Trust ETF, o IBIT, caixa e prêmios recebidos com opções vendidas.

A estratégia consiste, principalmente, na venda de opções de compra sobre ações do IBIT. Conforme os documentos, a BlackRock pretende manter a exposição nocional entre 25% e 35% do valor patrimonial líquido do trust. Dessa forma, entre 65% e 75% da carteira seguirá mais diretamente o preço do Bitcoin.

A Securities and Exchange Commission aprovou a listagem do produto na Nasdaq em 29 de maio. Em seguida, a BlackRock registrou as ações do BITA em formulário 8-A em 11 de junho. Segundo Balchunas, o fundo busca rendimento anual entre 15% e 25% e tenta capturar ao menos 70% da alta do Bitcoin. No entanto, essas metas são indicativas e não representam compromisso contratual.

O suporte operacional do BITA também chama atenção. Em 12 de junho, o IBIT somava US$ 48,64 bilhões em ativos líquidos e cerca de 36,5 milhões de ações negociadas por dia. Assim, o novo produto chega ao mercado apoiado na maior base de liquidez entre os ETFs spot de Bitcoin.

Renda com Bitcoin aumenta risco e limita ganhos

A principal diferença desses produtos está na origem do rendimento. O Bitcoin, por si só, não paga juros, dividendos nem recompensas de staking. Portanto, qualquer renda associada ao ativo depende de engenharia financeira.

No caso do BITA, o investidor recebe prêmios ao abrir mão de parte da valorização potencial. Em outras palavras, o fundo vende opções de compra e embolsa valores pagos por participantes que apostam em ganhos acima de determinado preço de exercício.

Esse modelo tende a funcionar melhor quando o Bitcoin anda de lado ou sobe de forma moderada. Nesses cenários, os prêmios podem sustentar distribuições sem perda relevante de desempenho relativo. Por outro lado, em uma forte disparada do BTC, o fundo tende a ficar para trás acima do strike. Em quedas acentuadas, o BITA ainda acompanha a desvalorização, embora os prêmios recebidos possam amortecer parte das perdas.

Além disso, a volatilidade exerce papel central. Se ela cair, os preços das opções tendem a recuar, o que reduz o potencial de renda futura. Se subir, os prêmios podem crescer, mas o risco embutido na estratégia também aumenta.

Concorrentes e avanço do BTCFi

Outros produtos nos Estados Unidos seguem linha parecida. O YBTC, da Roundhill, busca renda semanal com estratégia sintética de covered call sobre ETPs de Bitcoin. O fundo também alerta que as distribuições podem incluir retorno de capital e talvez não sejam sustentáveis. Da mesma forma, BTCC, da Grayscale, e BCCC, da Global X, usam prêmios de opções e repasses periódicos.

Fora dos ETFs, o segmento de BTCFi também avança. A Babylon permite que usuários travem BTC nativo para ajudar na validação de outras redes blockchain sem wrapping ou bridging. Atualmente, a plataforma reúne cerca de US$ 5,64 bilhões em BTC em staking. Kraken e BitGo oferecem acesso institucional com custódia em cold storage. No caso da Kraken, porém, as recompensas são pagas em token BABY, cujo preço oscila de forma independente do Bitcoin.

A Binance Research estimou, em março de 2025, que apenas cerca de 0,79% da oferta de Bitcoin estava alocada em DeFi naquele momento. Ainda assim, o estudo argumenta que poucos pontos percentuais adicionais já poderiam atrair bilhões em entradas.

Japão pode testar títulos atrelados ao BTC

No Japão, a tese da Metaplanet encontra respaldo em um contexto específico. Dados do Bank of Japan mostram que os ativos financeiros das famílias japonesas somavam 2.351 trilhões de ienes no fim de 2025. Desse total, 1.140 trilhões de ienes, ou 48,5%, estavam em dinheiro e depósitos bancários com retorno próximo de zero.

Ao mesmo tempo, poupadores japoneses vêm deslocando parte do capital para o mercado. Segundo a Reuters, as contas NISA mais que dobraram em dois anos e atingiram 71 trilhões de ienes no fim de 2025.

Esse ambiente favorece a criação de uma plataforma regulada para distribuir instrumentos ligados ao BTC. Assim, a Metaplanet ganha um canal formal para produtos de crédito vinculados ao Bitcoin. A BlackRock, por sua vez, oferece um veículo listado na Nasdaq e acessível por contas de corretora tradicionais nos Estados Unidos.

O cenário positivo depende da entrada constante de investidores que não comprariam Bitcoin à vista por conta própria. Se o BITA registrar fluxos estáveis e entregar rendimento dentro da faixa projetada, consultores financeiros poderão usar o produto para clientes que desejam exposição ao BTC com geração de renda.

Por outro lado, o cenário negativo também é claro. Em ambientes de baixa volatilidade, os prêmios podem encolher. Em ralis fortes, o desempenho pode ficar abaixo do mercado à vista. No caso da Babylon, as recompensas em BABY podem decepcionar se o token perder valor frente ao BTC em staking. Já na Metaplanet, os títulos vinculados ao Bitcoin podem acabar precificados apenas como crédito corporativo comum.

Na prática, o mercado começa a transformar a volatilidade do Bitcoin em renda distribuível. O avanço do BITA e da Metaplanet marca uma nova etapa da financeirização do BTC. Contudo, também amplia a complexidade e os riscos para o investidor.