Botanix fecha camada 2 e expõe demanda fraca por Bitcoin

A experiência da Botanix Labs indica que detentores de Bitcoin ainda não sustentam, na escala necessária, um ecossistema de DeFi nativo da rede. Por isso, a empresa decidiu encerrar a Botanix, uma camada 2 criada para levar aplicações compatíveis com EVM, empréstimos, crédito e geração de rendimento para usuários de BTC.

O fechamento chama atenção porque, a princípio, não seguiu o roteiro clássico de um colapso especulativo. Segundo a empresa, o projeto evitou lançar token, distribuir airdrops, criar programas de pontos ou usar incentivos típicos para inflar a atividade inicial. Ainda assim, a demanda ficou abaixo do necessário.

A Botanix informou que a primeira data-alvo para o desligamento é 1º de julho. Em seguida, haverá um período de carência de duas semanas, até 15 de julho. Se necessário, a empresa poderá estender o prazo até 1º de agosto, antes de varrer o Bitcoin remanescente e iniciar a dissolução do projeto. A companhia orientou os usuários a retirar os ativos antes de 1º de julho.

Infraestrutura funcionou, mas o mercado não avançou

O encerramento ocorre em um momento delicado para o chamado BTCFi. Afinal, produtos ligados a rendimento com Bitcoin, colateral, crédito estruturado e tesouraria ganham espaço nas finanças tradicionais. Ainda assim, uma das tentativas mais consistentes de construir trilhos nativos de DeFi sobre Bitcoin sai do mercado após concluir que a demanda orgânica era fraca demais.

A Botanix não deixa apenas uma testnet ou um white paper. A equipe afirma que a Spiderchain entrou em operação e permaneceu ativa por mais de um ano, com 100% de uptime e sem incidentes de segurança. Além disso, a rede processou 25 milhões de transações, alcançou cerca de 200 mil carteiras, movimentou dezenas de milhões de dólares em ativos e integrou nomes como Chainlink, Morpho, GMX, Dolomite, Fireblocks, Alchemy, Galaxy e OKX Wallet.

A página principal do projeto mostrava números semelhantes, com mais de 26,1 milhões de transações totais, 176.056 endereços únicos e 8.387 contratos. Dessa forma, fica mais difícil tratar o fracasso comercial como algo trivial. A Botanix operava uma infraestrutura lançada, com uso real e parceiros reconhecidos.

O obstáculo central foi o comportamento do usuário

Na visão da empresa, o principal entrave não era técnico. Em outras palavras, o desafio estava em convencer usuários de que a combinação entre segurança, fluxo de carteiras e aplicações justificava uma mudança de hábitos. A equipe resumiu sua autocrítica ao dizer que errou o timing do centro de gravidade da comunidade Bitcoin.

Para a Botanix, muitos detentores de BTC ainda priorizam o Bitcoin como ativo de reserva, seu papel monetário e político e a cultura conservadora da camada base. Assim, a utilidade programável viria depois. Portanto, mesmo quando parte dos usuários busca rendimento, alavancagem ou acesso a colateral, uma camada 2 dedicada ao Bitcoin precisa superar mais do que riscos técnicos para alcançar adoção.

Usuários preferem caminhos mais simples para usar BTC

Uma das observações mais diretas da equipe envolve o WBTC. Para empréstimos, rendimento básico e exposição alavancada, a Botanix avaliou que o WBTC em uma camada 2 madura, como a Arbitrum, já atende a maioria dos usuários que deseja DeFi denominado em Bitcoin. Com isso, a conclusão atinge parte relevante da tese de marketing do BTCFi.

O teste prático é simples: saber se os usuários realmente se importam com trilhos nativos de Bitcoin quando já conseguem tomar e conceder empréstimos ou negociar BTC embrulhado em plataformas com liquidez mais profunda, interfaces conhecidas e aplicações mais maduras. Nesse sentido, o lançamento do cirBTC na Ethereum pela Circle mostra que a disputa em torno do Bitcoin embrulhado migra para custódia, visibilidade de reservas, controles de resgate e confiança institucional.

Esse é justamente o modelo das finanças com Bitcoin embrulhado. Ou seja, ele transforma a exposição ao BTC em um formato que mesas de risco, formadores de mercado, plataformas de crédito e sistemas de liquidação conseguem integrar aos fluxos já existentes. A mesma tendência aparece fora do DeFi. O iShares Bitcoin Premium Income ETF da BlackRock busca entregar desempenho ligado ao Bitcoin enquanto gera renda com uma estratégia baseada em opções.

Também nessa linha, a aquisição da Siiibo pela Metaplanet adiciona outra versão da mesma tese. A empresa japonesa de tesouraria em Bitcoin tenta transformar um balanço carregado de BTC em um canal regulado para títulos, fundos e produtos de renda. Contudo, os termos, aprovações, regras de colateral e proteções aos investidores ainda não foram divulgados. Assim, o perfil de risco segue em aberto.

Distribuição pesa mais do que pureza técnica

A Botanix destacou ainda um segundo fator decisivo: distribuição. Segundo a empresa, Hyperliquid, Robinhood, grandes corretoras centralizadas e participantes emergentes das finanças tradicionais absorvem mais atenção, fluxo e receita porque controlam a relação com o usuário final. Esse diagnóstico conversa, além disso, com o movimento mais amplo das finanças baseadas em Bitcoin.

Em vez de depender de uma nova rede para atrair público do zero, muitos desses canais oferecem contas, interfaces, suporte, relatórios fiscais e estruturas de risco já familiares. Para o usuário, esses caminhos podem ser menos alinhados com a pureza ideológica do Bitcoin. Ainda assim, eles são mais legíveis. Uma conta de corretora, um ETF, uma mesa de crédito ou um ativo embrulhado exige menos esforço comportamental do que novas carteiras, pontes e aplicativos adicionais.

Esse contraste ajuda a explicar por que a Botanix pôde ser tecnicamente sólida e, ao mesmo tempo, comercialmente vulnerável. Na prática, o avanço das finanças com Bitcoin se divide em dois trilhos. De um lado, o BTC produtivo via wrappers, ETFs, produtos de tesouraria e aplicações controladas por intermediários. De outro, o BTCFi nativo, que ainda luta para conquistar usuários recorrentes.

Infográfico comparando o trilho nativo de BTCFi da Botanix com caminhos de finanças baseadas em Bitcoin por wrappers
Comparação entre o trilho nativo de BTCFi da Botanix e alternativas baseadas em wrappers e intermediários.

O que o caso Botanix revela para o BTCFi

O encerramento da Botanix sugere que credibilidade técnica e métricas orgânicas não bastam quando o produto não se alinha ao risco que os usuários aceitam assumir. O mercado de DeFi em Bitcoin segue preso entre dois perfis de demanda. Um quer manter o Bitcoin simples, como ativo de reserva, colateral, posição de tesouraria e reserva de valor de longo prazo. O outro quer tornar o Bitcoin produtivo, com empréstimos, wrappers, produtos de renda e integração a sistemas de negociação.

A Botanix tentou conectar esses dois mundos por meio de infraestrutura nativa de Bitcoin. No entanto, o crescimento observado em outros segmentos indica que muitos usuários e instituições escolheram o segundo caminho por meio de wrappers e intermediários regulados, que escondem a complexidade operacional. Portanto, o próximo teste do BTCFi ficou mais objetivo: saber se uma rede nativa de Bitcoin conseguirá gerar usuários recorrentes, liquidez duradoura e receita suficiente sem depender de campanhas com tokens.

Nos dados apresentados pela própria Botanix, a Spiderchain ficou mais de um ano ativa com 100% de uptime, sem incidentes de segurança, cerca de 25 milhões de transações processadas, perto de 200 mil carteiras, dezenas de milhões de dólares movimentados e integrações com empresas como Chainlink, Morpho, Fireblocks, Galaxy e OKX Wallet. Mesmo assim, a companhia concluiu que a demanda orgânica foi insuficiente para manter o projeto em operação.