Polymarket: favoritos da Copa zeram milhões em apostas
A Polymarket levou partidas da Copa do Mundo de 2026 para um ambiente de negociação de alto risco. Em 14 de junho, o empate por 0 a 0 entre Espanha e Cabo Verde mostrou como apostas tratadas como seguras podem virar perdas milionárias em poucos minutos. Ao mesmo tempo, posições menos populares entregaram retornos extraordinários.
A Espanha teve quase 75% de posse de bola e finalizou 27 vezes. Ainda assim, o goleiro Vozinha, de 40 anos, terminou como destaque da partida. Como resultado, apostadores perderam milhões na Polymarket, enquanto uma carteira pouco conhecida registrou ganho próximo de US$ 9 milhões em apenas um dia.
Carteira nova ganha quase US$ 9 milhões
A carteira aparece associada à conta fishalive em registros que circularam no X. A conta entrou na Polymarket em junho de 2026 e tinha apenas duas previsões registradas. Os dados públicos indicam resgate de cerca de US$ 4,7 milhões em um contrato de “Espanha não vence” e outros US$ 8,5 milhões em uma posição com handicap de Cabo Verde +2,5.
Na prática, a operação foi descrita como a transformação de aproximadamente US$ 400 mil em lucro próximo de US$ 9 milhões. Ademais, a Polymarket Sports informou que uma aposta de US$ 400 mil, com probabilidade de 9%, pagou US$ 4.702.769,23. O tamanho da posição, o momento da entrada e o histórico recente da conta chamaram atenção nas redes.
Registros também indicam abertura de uma posição de US$ 4,5 milhões apenas oito minutos antes do início da partida. Assim, os números resumem a assimetria da operação. A aposta em “Espanha não vence” liquidou com sucesso após o empate. Da mesma forma, a posição em Cabo Verde +2,5 venceu com folga, já que o 0 a 0 cobriu facilmente o spread.
Favoritismo caro e retorno limitado
Do outro lado, quem apostou na vitória da Espanha assumiu risco elevado para retorno limitado. Em outras palavras, uma posição implícita no favorito indicava cerca de US$ 1 milhão arriscado para ganhar apenas US$ 85 mil. Contudo, o empate zerou esse lado da operação.
O mercado de vencedor da Copa do Mundo na Polymarket já movimentou US$ 2,46 bilhões. A França liderava as probabilidades com cerca de 17,6%, seguida pela Espanha, com aproximadamente 13,9%. Portugal e Inglaterra vinham logo atrás, com 10,8% e 10,5%, respectivamente. Além disso, o pacote mais amplo da Copa de 2026 reúne 362 mercados ativos e mais de US$ 2,5 bilhões em volume combinado.
Esse porte ajuda a explicar o fenômeno. Afinal, o jogo entre Espanha e Cabo Verde sozinho gerou aproximadamente US$ 64 milhões em negociação. Nesse sentido, partidas isoladas deixaram de funcionar apenas como eventos esportivos e passaram a operar como ativos de curto prazo para traders e baleias.
Holanda e Bélgica ampliam sequência de perdas
O padrão não ficou restrito à Espanha. Um trader identificado como betoor619 apostou na vitória espanhola com probabilidade implícita de cerca de 92%. Ele arriscou quase US$ 1 milhão para buscar ganho potencial de apenas US$ 85 mil. Entretanto, o empate eliminou integralmente a posição.
Dias antes, a Polymarket Sports destacou uma aposta de US$ 1 milhão na Espanha para vencer Cabo Verde, com pagamento potencial de US$ 1.085.943,48. Cabo Verde sustentou o resultado até os acréscimos, conquistou o primeiro ponto de sua história em Copas do Mundo e esvaziou as posições compradas no favoritismo espanhol.
Em seguida, o mesmo movimento se repetiu em menos de 24 horas. A revista Inc. informou que um trader chamado FlickRaw perdeu cerca de US$ 4,2 milhões. O valor somou uma aposta de US$ 2,7 milhões na vitória da Holanda sobre o Japão e outra de US$ 1,5 milhão na vitória da Bélgica sobre o Egito.
O Japão buscou o empate duas vezes, incluindo um gol aos 88 minutos para fechar o jogo em 2 a 2. Já a Bélgica saiu atrás aos 19 minutos contra o Egito e ficou no 1 a 1, mesmo após empatar aos 66 minutos. Assim, os resultados voltaram a punir posições montadas exclusivamente para vitória do favorito.
Maior aposta do torneio também falhou
Outro caso relevante foi o de leeeroyjenkins, responsável pela maior aposta individual do torneio até agora. O trader aplicou US$ 8,6 milhões na vitória da Bélgica. A posição pagaria aproximadamente US$ 13,1 milhões se o time vencesse. No entanto, como o jogo terminou empatado, a operação perdeu valor.
A Polymarket Sports acompanhou a partida em tempo real, registrando a vantagem parcial do Egito e depois confirmando o empate final. Por conseguinte, a sequência reforçou um padrão importante nos mercados de previsões esportivos: favorito forte não elimina o risco de empate.
Por que o empate destrói contratos de vitória simples
Espanha, Holanda e Bélgica eram superiores no papel, e os mercados refletiam essa leitura. Ainda assim, contratos de vitória simples pagam apenas um desfecho específico. Como o futebol tem taxa relevante de empates, uma atuação dominante pode se transformar em um bilhete sem valor no apito final.
Quando uma ação do tipo “sim” negocia a 92 centavos, o mercado praticamente precifica certeza. Porém, se o time não marca um gol a mais que o adversário, esse preço cai a zero. As duas posições de fishalive funcionaram justamente porque capturavam o risco de empate. Tanto o contrato de “Espanha não vence” quanto o spread de Cabo Verde pagavam no cenário que destruiu as apostas nos favoritos.
Na Polymarket, o quadro de vencedor do torneio funciona como termômetro de sentimento. Ao mesmo tempo, os contratos de partidas individuais viralizam com mais facilidade, porque se resolvem em cerca de 90 minutos e exibem ganhos e perdas de forma pública. Além disso, punem rapidamente posições mal dimensionadas.
Também ficou clara a divisão entre estratégias. Baleias concentraram as maiores apostas na vitória direta dos favoritos. Em contrapartida, os maiores retornos assimétricos surgiram em spreads e em contratos de “não vencer”, que incorporam explicitamente o risco de empate. Esse comportamento ajuda a explicar, nos mercados de previsões, por que odds baixas podem esconder risco desproporcional.
Antes do torneio, um modelo do Goldman Sachs atribuía à Espanha 26% de chance de ser campeã, à frente da França, com 19%. Depois do empate com Cabo Verde, a multidão da Polymarket passou a precificar a França acima da Espanha. Dessa forma, o ajuste refletiu diretamente o impacto de uma única partida sobre o sentimento do mercado.
Volume bilionário e pressão regulatória
A Copa do Mundo reúne audiência global, calendário comprimido na fase de grupos e forte carga emocional ligada às seleções nacionais. Por isso, os mercados de previsões extrapolam o público tradicional do mercado cripto e ganham espaço no noticiário esportivo.
À medida que o mata-mata se aproxima, o volume tende a crescer. Ademais, a combinação entre carteiras públicas, reprecificação em tempo real e resultados com grande apelo emocional consolida a Polymarket como elemento recorrente da cobertura esportiva. Ao mesmo tempo, perdas de alto valor podem levar parte das baleias a reduzir apostas desproporcionais em favoritos e migrar para spreads, proteções e contratos que considerem o risco de empate.
Há também o componente regulatório. O atrito com reguladores pode influenciar esse movimento, já que regras preliminares propostas pela Commodity Futures Trading Commission em 10 de junho buscam formalizar a supervisão federal sobre mercados de previsões. Ainda assim, estados, tribos e interesses do setor de jogos seguem contestando esse avanço, enquanto a American Gaming Association cita pesquisas segundo as quais 85% dos americanos veem esses contratos como apostas.
A própria Espanha bloqueou temporariamente Polymarket e Kalshi no fim de maio por questões de licenciamento. Por fim, o livro-razão público da plataforma mostra o efeito direto desses jogos: no empate entre Espanha e Cabo Verde, a conta fishalive converteu cerca de US$ 400 mil em quase US$ 9 milhões, enquanto apostas milionárias em Espanha, Holanda e Bélgica foram zeradas.