Ricardo Salinas põe 70% da carteira em Bitcoin

Muito antes de conhecer o Bitcoin, Ricardo Salinas Pliego já convivia com debates sobre dinheiro forte dentro de casa. Nascido na Cidade do México em 1955, o bilionário fundou e preside o Grupo Salinas, conglomerado com atuação em telecomunicações, mídia, serviços financeiros e varejo.

Em 1987, ele assumiu o comando da operação familiar ligada ao Grupo Elektra, cuja origem remonta a 1906, por iniciativa de seu bisavô. A princípio, o negócio fabricava móveis. Depois, sob sua liderança, passou a focar eletrodomésticos, eletrônicos e crédito ao consumidor, mirando a classe média emergente do México. Hoje, o império empresarial de Salinas inclui o Banco Azteca, a TV Azteca e dezenas de outras companhias.

Antes de escalar sua trajetória corporativa, Salinas diz que formou sua visão sobre moeda fiduciária em conversas familiares. Em entrevista recente à CoinDesk, ele afirmou que esses debates giravam em torno do ouro e da desvalorização estrutural das moedas emitidas por governos. Além disso, citou o fim da conversibilidade direta do dólar em ouro, decidido por Richard Nixon, como um marco central nessa leitura. Como a família Salinas tinha envolvimento com mineração de ouro e prata, o tema fazia parte de sua realidade desde cedo.

Exposição ao BTC cresceu nos últimos anos

Essa formação ajudou a consolidar uma convicção que ele sustenta há anos. Para Ricardo Salinas Pliego, o Bitcoin é um ativo difícil de confiscar e simples de transferir globalmente. Assim, na visão do bilionário, essas características o tornam superior tanto à moeda fiduciária quanto ao padrão-ouro, que sempre ficou sujeito à intervenção estatal.

A aposta, contudo, não ocorreu de uma só vez. Em 2020, Salinas mantinha cerca de 10% de seu portfólio de investimentos exposto ao Bitcoin. Atualmente, essa participação subiu para aproximadamente 70%. Dessa forma, o movimento reflete um aumento progressivo de sua confiança no ativo ao longo dos últimos anos.

Em junho de 2021, ele anunciou publicamente que trabalhava com o Banco Azteca para transformá-lo no primeiro banco do México a aceitar Bitcoin. A iniciativa repercutiu de forma positiva entre participantes do mercado cripto. No entanto, também provocou reação rápida dos reguladores financeiros mexicanos, que emitiram alertas sobre ativos virtuais. O plano não avançou, mas isso não alterou sua convicção pessoal.

Tentativa de ampliar posição terminou em fraude

No mesmo ano, Salinas tentou ampliar ainda mais sua exposição. Ele pretendia investir US$ 400 milhões em Bitcoin, porém não tinha liquidez imediata suficiente para isso. Como alternativa, tomou empréstimo usando suas ações do Grupo Elektra como garantia. Ao todo, comprometeu US$ 416 milhões em colateral para obter um financiamento de US$ 150 milhões.

A operação, entretanto, acabou ligada a uma fraude. O credor era uma firma chamada Astor Capital Fund. Seu CEO, apresentado como Thomas Astor-Mellon, apareceu em uma chamada de vídeo em um cenário que parecia ser um iate. Depois, descobriu-se que o homem tinha condenações anteriores por falsificação de receitas médicas e roubo de joias.

Ainda assim, o episódio não abalou sua defesa do ativo. Na conferência Bitcoin 2022, Salinas discursou sobre o que chama de “fraude fiduciária”. Com essa expressão, ele critica instituições centralizadas que, em sua avaliação, prometem preservação de riqueza ao longo de gerações, mas corroem silenciosamente o poder de compra da moeda. Na ocasião, afirmou que essa convicção não era apenas teórica, e sim fruto de experiência vivida.

Bilionário diz que Bitcoin supera imóveis

Na entrevista, Salinas reforçou que cerca de 70% de sua carteira está hoje em BTC. Esse percentual fica muito acima do que a maior parte dos consultores patrimoniais costuma recomendar. Ainda assim, ele deixou claro que não pretende seguir a visão convencional do mercado.

O empresário também afirmou que convenceu sua própria esposa a hipotecar a casa que possuía para tomar um empréstimo e comprar Bitcoin. Segundo ele, investidores comuns poderiam considerar o mesmo raciocínio. Em sua avaliação, a maior reserva de valor da maioria das pessoas está concentrada no patrimônio imobiliário. Por isso, faria sentido converter parte dessa exposição em Bitcoin, em maior ou menor escala.

Comparação com Londres sustenta a tese

Para sustentar esse ponto, Salinas citou uma comparação histórica direta. Em janeiro de 2016, o Bitcoin era negociado perto de US$ 400. Enquanto isso, uma casa média na região central de Londres custava em torno de US$ 1,6 milhão, o equivalente a aproximadamente 4.000 BTC. Como os preços dos imóveis londrinos mudaram pouco ao longo da década, a mesma propriedade hoje custaria menos de 30 BTC. Para ele, esse comparativo já comprova a vantagem relativa do ativo digital.

Salinas descreveu o Bitcoin como uma aposta assimétrica voltada para a alta. Segundo ele, quanto mais pessoas entenderem o ativo, maior tende a ser sua demanda. Além disso, ao comentar projeções de nomes otimistas do mercado, como Cathie Wood e Michael Saylor, que já sugeriram que o Bitcoin pode alcançar a faixa de sete dígitos, respondeu de forma direta.

Para o empresário mexicano, o preço do BTC chegará a US$ 1 milhão, embora ele não tenha indicado quando isso acontecerá. Em resumo, Ricardo Salinas Pliego reiterou que elevou sua exposição de 10% em 2020 para 70% atualmente, relembrou a tentativa do Banco Azteca de aceitar Bitcoin, citou o episódio do empréstimo ligado ao Astor Capital Fund e voltou a defender que o ativo pode superar imóveis como reserva de valor.