Bitdeer minera 921 BTC, mas reserva de Bitcoin cai

A Bitdeer publicou sua atualização operacional de maio de 2026 com um contraste relevante para investidores de Bitcoin e infraestrutura de inteligência artificial. A empresa minerou 921 BTC no mês, alta de 370% na comparação anual. Ainda assim, encerrou maio com apenas 171 BTC em caixa. Em maio de 2025, por outro lado, a companhia havia minerado 196 BTC e mantinha 1.351 BTC no balanço.

Esse descompasso reforça uma dúvida central sobre a transição da companhia para IA. A Bitdeer tenta sustentar a tese de um negócio integrado, com frota de mineração, ASICs proprietários, sites de energia, AI Cloud e futura receita de colocation. No entanto, o saldo de Bitcoin indica que a estratégia ainda depende da conversão das moedas mineradas em liquidez operacional.

Produção avança, mas retenção de BTC encolhe

A comparação entre maio de 2025 e maio de 2026 chama atenção porque os principais indicadores seguiram direções opostas. A produção avançou de 196 BTC para 921 BTC. Em contrapartida, o total de BTC mantido caiu de 1.351 para 171.

Há, porém, uma ressalva relevante. O número de maio de 2026 inclui BTC de self-mining e co-mining. Já o dado de maio de 2025 foi apresentado apenas como self-mining. Ainda assim, a diferença no volume retido segue expressiva.

No mesmo intervalo, o hashrate de self-mining subiu de 13,6 EH/s para 70,2 EH/s. Além disso, a AI Cloud passou a ocupar posição central nos indicadores da companhia, com ARR próximo de US$ 69 milhões em maio de 2026. Ao mesmo tempo, o projeto de Tydal, na Noruega, avançou de obras de infraestrutura para negociações avançadas de colocation.

Infográfico compara a produção de BTC, saldo de BTC, hashrate, ARR de AI Cloud e risco de infraestrutura de IA da Bitdeer entre maio de 2025 e maio de 2026
Infográfico compara produção de BTC, saldo de BTC, hashrate, ARR de AI Cloud e risco de infraestrutura de IA da Bitdeer.

Usando a faixa de preço do Bitcoin observada em 19 de junho, entre cerca de US$ 62.700 e US$ 62.900, a produção de maio da Bitdeer teria valor aproximado de US$ 57,9 milhões. Já o saldo final de 171 BTC equivaleria a cerca de US$ 10,7 milhões. Essas estimativas refletem preços à vista, não valores em dólar reportados pela empresa. Mesmo assim, ajudam a dimensionar a operação diante do estoque efetivamente retido.

Esse saldo mensal, contudo, mostra apenas uma fotografia de fim de período. Ele não detalha quanto da produção de maio foi vendido, mantido, dado em garantia ou destinado a outras finalidades. Ainda assim, indica que a maior produção ainda não se converteu em uma tesouraria maior em Bitcoin.

Primeiro trimestre reforça pressão sobre o caixa

Os números do primeiro trimestre de 2026 reforçam essa leitura. A Bitdeer informou ter minerado 2.033 BTC, acima dos 350 BTC registrados no mesmo período de 2025. Em contrapartida, o saldo de BTC ao fim do trimestre foi de apenas 31 unidades, contra 1.156 um ano antes. A companhia também revelou US$ 206,8 milhões em recursos provenientes da alienação de ativos digitais.

A dinâmica operacional mostra uma empresa que expandiu fortemente sua mineração e, ao mesmo tempo, converteu ativos minerados em capital para financiar operações e crescimento. No trimestre, a Bitdeer registrou US$ 346,9 milhões de caixa líquido consumido em atividades operacionais. Além disso, somou US$ 93,7 milhões em despesas de capital para infraestrutura de data center, compra de GPUs, tarifas e equipamentos de mineração entregues a data centers. O balanço ainda mostrava US$ 1,9 bilhão em endividamento.

Por outro lado, a empresa reportou receita trimestral de US$ 188,9 milhões, EBITDA ajustado positivo de US$ 14,4 milhões e US$ 297,7 milhões em caixa, equivalentes de caixa e caixa restrito. Em outras palavras, a Bitdeer opera um programa de capital de grande escala. Nesse modelo, Bitcoin, dívida e investimento em infraestrutura funcionam de forma interligada.

AI Cloud ganha peso na tese de crescimento

O principal argumento a favor da tese otimista está na AI Cloud. Em maio, a Bitdeer informou ARR próximo de US$ 69 milhões, com utilização de GPUs em 90%, 4.248 GPUs implantadas e 3.305 GPUs sob assinatura externa. Além disso, a empresa lançou dois clusters NVIDIA GB300 NVL72 e adicionou suporte ao NVIDIA Nemotron 3 em seu model studio.

Esse indicador já vinha avançando. Em março de 2026, a empresa havia apontado ARR de AI Cloud perto de US$ 43 milhões. Em abril, esse valor subiu para cerca de US$ 69 milhões. Em maio, contudo, o nível foi mantido. Assim, o dado sugere menos uma nova aceleração e mais um teste de sustentação da demanda.

Vale lembrar que ARR é uma métrica de receita anual recorrente em base de execução, não de receita já reconhecida. No primeiro trimestre, a Bitdeer reconheceu apenas US$ 3,7 milhões em receita de AI Cloud. Dessa forma, a diferença entre os dois números importa. O ARR aponta visibilidade potencial de faturamento futuro, enquanto a receita reconhecida já passou pela demonstração de resultados.

Embora os US$ 69 milhões anualizados reforcem a tese de um negócio menos dependente da venda de BTC, o benefício em caixa ainda precisa aparecer com mais clareza. A empresa segue exposta a contas de energia, juros, capex e volatilidade da mineração. Afinal, a transição para IA pode reduzir a dependência do hashprice, mas exige capital, clientes, execução e tempo.

Tydal concentra o risco de execução

O caso mais evidente dessa mudança de perfil está em Tydal, na Noruega. Em março, a Bitdeer informou que sua subsidiária Tydal Data Center contratou a Data Center Installations AS para desenvolver e converter a instalação em um data center de IA de 180 MW. O projeto tem foco principalmente em colocation da tecnologia NVIDIA Vera Rubin. A conclusão era esperada para dezembro de 2026.

Na atualização de maio, a empresa disse que Tydal estava em negociações avançadas com um potencial inquilino de colocation. Segundo a companhia, o local representa uma prova concreta de que energia própria pode ser transformada em receita contratada de longa duração.

Essa é a promessa central da virada para IA. Locais antes usados para mineração podem se tornar infraestrutura para clientes. Com isso, a receita passaria a ficar mais ligada a contratos de computação do que à produção de Bitcoin precificada pelo mercado.

Em contrapartida, o perfil de risco também muda. A mineração de Bitcoin expõe a Bitdeer a hashprice, dificuldade, taxas de rede, custos de energia, eficiência das máquinas e cotação do BTC. Já a colocation de IA adiciona dependência de qualidade do inquilino, cumprimento de cronograma, oferta de GPUs, timing de construção, alocação de energia, termos contratuais e custo de capital.

A atualização de maio, portanto, parece menos uma celebração e mais um teste operacional em andamento. A empresa ampliou fortemente sua produção, recompôs parte das reservas desde a mínima de março, manteve o ARR de IA perto de US$ 69 milhões e avançou no projeto de 180 MW em Tydal. No entanto, o elo entre esse ritmo anualizado da IA e um fluxo de caixa realmente durável segue em aberto. O mesmo vale para a passagem de BTC minerado para BTC retido.

Por enquanto, os números deixam uma mensagem objetiva. Em maio de 2026, a Bitdeer minerou 921 BTC, encerrou o mês com 171 BTC em caixa, registrou ARR de AI Cloud perto de US$ 69 milhões, alcançou hashrate de self-mining de 70,2 EH/s e manteve em curso seu data center de 180 MW em Tydal, na Noruega.