Stablecoin nos EUA terá regras quase bancárias
As novas propostas regulatórias dos Estados Unidos podem transformar emissores de stablecoin em operadores com obrigações muito próximas às de bancos. Três órgãos federais apresentaram medidas que, se adotadas, exigirão programas contra lavagem de dinheiro, controles de sanções, monitoramento de transações, triagem de clientes, divulgação de reservas e envio recorrente de dados ao regulador principal.
Na prática, a discussão deixou de tratar apenas de quem pode emitir um token atrelado ao dólar. Agora, o foco recai sobre quem consegue bancar o custo operacional e regulatório de atuar sob supervisão semelhante à de uma instituição financeira. Esse debate ocorre em um mercado avaliado em cerca de US$ 320 bilhões.
Reguladores aproximam emissores de instituições financeiras
O marco federal para stablecoins de pagamento nos EUA é o GENIUS Act, sancionado em julho de 2025. A lei estabelece que uma empresa só pode emitir esses tokens como permitted payment stablecoin issuer, ou PPSI, categoria que depende de autorização regulatória dentro do regime federal.
No fim de 2025, o Departamento do Tesouro abriu o processo de regulamentação complementar para detalhar como esse sistema funcionará na prática. Em 2026, porém, começaram a surgir propostas que transformam essa autorização em um regime concreto de conformidade.
Em abril de 2026, a Financial Crimes Enforcement Network e o Office of Foreign Assets Control, ambos ligados ao Tesouro, publicaram uma proposta conjunta. O texto trataria emissores autorizados como instituições financeiras sob o Bank Secrecy Act. Além disso, a regra passaria a exigir programas eficazes de conformidade com sanções para essa categoria de entidades nos EUA.
Em seguida, em 22 de maio, a Federal Deposit Insurance Corporation apresentou uma regra paralela para os emissores sob sua supervisão. O foco recai, sobretudo, sobre estruturas como subsidiárias de bancos estaduais não filiados ao sistema federal e associações estaduais de poupança.
Custos sobem e favorecem empresas maiores
Esse conjunto de exigências altera diretamente a estrutura de custos do setor. Afinal, um emissor de stablecoin oferece um produto simples na aparência, ao prometer equivalência de um token por um dólar. Ainda assim, passa a precisar de equipes, sistemas e procedimentos para identificar clientes, analisar carteiras, verificar contrapartes em listas de sanções, detectar atividade suspeita e documentar tudo para inspeção regulatória.
Com isso, a conformidade deixa de ser uma função periférica e passa para o centro do negócio. Dessa forma, a vantagem competitiva tende a migrar para empresas capazes de pagar advogados, fornecedores de monitoramento transacional e sistemas de reporte. Além disso, essas companhias precisam manter relações bancárias robustas.
Grande parte dessas exigências formaliza práticas já adotadas por emissores de maior porte. Ainda assim, para empresas menores, o peso regulatório tende a virar a principal barreira de entrada. Em outras palavras, a clareza jurídica buscada pelo setor durante anos veio acompanhada de um custo operacional que pode definir quem terá condições reais de competir.
OCC propõe relatórios semanais e auditorias anuais
O Office of the Comptroller of the Currency aprofundou esse movimento em junho de 2026, ao publicar minutas de formulários de reporte para emissores sob sua jurisdição. Pela proposta, cada empresa deverá apresentar um relatório confidencial semanal sobre cada stablecoin emitida. O documento incluiria dados de emissão, resgates, volume de negociação e ativos de reserva. Também haveria um relatório financeiro trimestral semelhante aos call reports enviados por bancos nacionais.
Os emissores com mais de US$ 50 bilhões em circulação também teriam de produzir relatórios financeiros anuais auditados. Além disso, o OCC examinaria cada emissor ao menos uma vez a cada 12 meses. Como resultado, esse fluxo semanal de informações daria ao regulador visibilidade antecipada sobre eventuais problemas nas reservas ou pressões de resgate. Na prática, projetos de tokens se tornariam companhias financeiras monitoradas continuamente.
As regras também limitam a forma como os emissores regulados podem disputar usuários. O GENIUS Act proíbe emissores autorizados de pagar juros ou rendimento diretamente aos detentores do token. Além disso, a proposta do OCC incorpora essa vedação e prevê escrutínio adicional sobre arranjos com afiliadas que tentem contornar a restrição.
Como o rendimento foi um dos instrumentos mais fortes do mercado cripto para atrair usuários, a competição tende a migrar para liquidez, integrações, utilidade em pagamentos e acesso institucional. Portanto, esse desenho favorece companhias já adaptadas à lógica regulatória tradicional.
Mercado pode ficar mais concentrado e institucional
O resultado mais provável, pela dinâmica descrita nas propostas, é um mercado menor e mais institucionalizado. Emissores grandes conseguem absorver custos de conformidade, montar estruturas de reporte, contratar ex-reguladores e preservar seus parceiros bancários. Por outro lado, os menores podem ter dificuldade para justificar o investimento, a menos que atuem em nichos específicos ou se apoiem em plataformas reguladas de maior porte.
Há ainda um fator adicional de concentração. Um emissor não bancário licenciado em nível estadual que ultrapasse US$ 10 bilhões em circulação geralmente terá de migrar para uma licença federal. Desse modo, o crescimento passa a ocorrer dentro da supervisão federal. Ademais, a Federal Deposit Insurance Corporation estima que entre cinco e 30 instituições sob sua supervisão possam obter aprovação para emitir stablecoins por meio de subsidiárias nos primeiros anos do modelo.
Esse cenário cria uma troca clara entre credibilidade e flexibilidade. Uma stablecoin regulada tende a ser mais atraente para bancos, corretoras, empresas de pagamentos e tesourarias corporativas, justamente por operar sob regras definidas e supervisão conhecida. Ao mesmo tempo, essa estrutura aproxima o token de uma camada tokenizada do sistema bancário tradicional, em vez da infraestrutura financeira aberta defendida por parte dos primeiros apoiadores do setor.
Entre as empresas mais bem posicionadas estão aquelas que já entendem o funcionamento de instituições supervisionadas. Nesse contexto, isso ajuda a explicar por que a Tether avançou em direção a um produto compatível nos EUA chamado USAT. A Circle, por sua vez, reforçou ainda mais sua postura regulada.
As regras do GENIUS Act foram tratadas como um marco para o setor de stablecoin, e continuam sendo. No entanto, sua implementação mostra que a clareza legal vem acompanhada de um regime intenso de supervisão. Pelas propostas do Tesouro, do OCC e da Federal Deposit Insurance Corporation, os emissores terão de cumprir controles de sanções, obrigações do Bank Secrecy Act, relatórios semanais e trimestrais, auditorias anuais para operações acima de US$ 50 bilhões e, em alguns casos, migração para licença federal ao superar US$ 10 bilhões em circulação.