Stablecoin em libra terá teto de US$ 53 bi no Reino Unido

O Banco da Inglaterra reformulou sua proposta para regular stablecoins sistêmicas denominadas em libra esterlina. Com isso, a autoridade retirou uma das principais barreiras previstas no modelo anterior. Em vez de limitar saldos de pessoas físicas e empresas, o banco central agora propõe um teto temporário de emissão de 40 bilhões de libras por produto sistêmico, cerca de US$ 53 bilhões.

A mudança apareceu em um comunicado de política e em uma minuta de Código de Prática publicados em 22 de junho. Ao mesmo tempo, o plano ampliou a parcela das reservas que poderá ficar aplicada em títulos públicos britânicos de curto prazo com rendimento. Essa alteração melhora a estrutura econômica dos emissores.

Assim, o debate regulatório britânico avançou de uma discussão conceitual para um desenho mais operacional. O mercado passou a avaliar não apenas a viabilidade da stablecoin em libra, mas também seu espaço de crescimento diante das líderes em dólar.

Uso em pagamentos ganha espaço

Pelo desenho anterior, apresentado em novembro de 2025, o Banco da Inglaterra avaliava impor limites temporários de 20 mil libras por pessoa e de 10 milhões de libras por empresa em cada token. Além disso, a proposta previa que até 60% das reservas ficariam em dívida pública britânica de curto prazo. Pelo menos 40% permaneceriam em depósitos não remunerados no banco central.

Agora, o Banco da Inglaterra confirmou que esses limites por usuário não serão implementados. Em vez disso, cada stablecoin sistêmica em libra começará sujeita a um limite máximo de emissão de 40 bilhões de libras. Além disso, até 70% dos ativos de lastro poderão ficar em títulos públicos britânicos elegíveis e com rendimento. Os 30% restantes deverão permanecer depositados no banco central.

Na prática, a decisão reduz a complexidade operacional para carteiras, comerciantes e empresas que pretendam usar esses tokens em pagamentos diários. Dessa forma, a restrição deixa o nível do usuário e passa ao nível do produto. Assim, a stablecoin em libra se torna mais viável como infraestrutura de pagamentos, embora ainda enfrente um limite relevante de escala.

Infográfico compara as mudanças nas regras de stablecoins do Banco da Inglaterra, a composição das reservas, o teto de 40 bilhões de libras por emissor, o cronograma para 2027 e a escala de USDT e USDC.

 

O cronograma também ficou mais claro. A consulta pública sobre as regras segue até 22 de setembro de 2026. Em seguida, o Código de Prática deve chegar à versão final até o fim do ano. A expectativa é que stablecoins reguladas comecem a operar no Reino Unido a partir de 2027.

Escala ainda limita avanço regulatório

Essa definição muda o foco da discussão. Antes, o principal problema envolvia a fiscalização de saldos individuais. Agora, a questão central passou a ser a escala do emissor. Ainda assim, o novo modelo facilita o uso real em pagamentos, porque elimina controles mais invasivos em carteiras, empresas, contratos inteligentes e intermediários.

O texto também mostra que os testes já avançaram. O grupo de testes de stablecoins da Financial Conduct Authority inclui Monee, ReStabilise, Revolut e VVTX. Essas empresas já experimentam serviços ligados a esses ativos no Reino Unido. Nesse sentido, a clareza regulatória importa porque define até onde um token poderá crescer se conquistar adoção relevante.

Banco da Inglaterra busca proteger depósitos

O Banco da Inglaterra justifica o teto de emissão pelo risco de migração rápida de dinheiro dos depósitos bancários tradicionais para stablecoins. Segundo a autoridade, uma adoção sem freios poderia enfraquecer a capacidade do sistema bancário de sustentar a oferta de crédito. Por isso, o limite aparece como uma medida transitória de estabilidade financeira.

Além disso, o banco central afirmou que pretende revisar, flexibilizar e, no futuro, remover esse teto, desde que considere os riscos resolvidos. Em outras palavras, o limite de 40 bilhões de libras não representa uma barreira permanente, mas um mecanismo temporário de contenção.

De fato, a instituição avalia que o modelo atual oferece proteção semelhante à buscada com os antigos limites por usuário. No entanto, essa abordagem evita dificuldades técnicas e questões de privacidade associadas ao monitoramento de saldos individuais.

A pressão política por ajustes já havia crescido antes desse anúncio. Em relatório de 3 de junho, o Comitê de Regulação de Serviços Financeiros da Câmara dos Lordes alertou que o Reino Unido corria o risco de ficar atrás dos Estados Unidos e da União Europeia. O documento pediu a reconsideração dos limites de posse, das exigências de reservas não remuneradas e das restrições à emissão de stablecoins por bancos comerciais.

Ainda assim, nem todas as críticas foram resolvidas. O Banco da Inglaterra retirou os limites por usuário e elevou a fatia das reservas com rendimento. Porém, manteve a exigência de que 30% do lastro fique em depósitos não remunerados no banco central. Além disso, a nova declaração não esclareceu de forma ampla a questão da emissão por bancos comerciais.

Escassez pode afetar paridade

Outro ponto relevante surgiu com o próprio teto de emissão. Segundo o Banco da Inglaterra, se a demanda por uma stablecoin sistêmica superar a oferta permitida, o token poderá ser negociado acima da paridade no mercado secundário. Assim, em vez do problema mais conhecido, que é a perda de lastro, pode surgir um cenário de escassez.

De acordo com a autoridade monetária, esse risco seria administrável e dependeria de um fluxo grande e sustentado de entrada para uma stablecoin sistêmica. Ainda assim, a admissão expõe o custo da escolha regulatória. Por um lado, limites por usuário prejudicariam a adoção diretamente. Por outro, limites por emissor protegem melhor o sistema bancário, mas podem transformar o sucesso do produto em um gargalo de oferta.

Stablecoin em libra larga atrás de USDT e USDC

O teste de escala mais evidente aparece na comparação com as maiores stablecoins em dólar. Os dados informados indicam que o USDT tem valor de mercado próximo de US$ 186 bilhões, enquanto o USDC gira em torno de US$ 74 bilhões. Portanto, o teto de 40 bilhões de libras, equivalente a aproximadamente US$ 53 bilhões, fica abaixo de ambos.

Isso significa que uma única stablecoin sistêmica em libra pode ser útil para pagamentos no Reino Unido. Contudo, ela ainda operará com limite inferior ao das líderes em dólar. Para o mercado de criptomoedas, essa diferença importa porque integrações com corretoras, saldos operacionais de empresas e efeitos de rede tendem a favorecer ativos com maior profundidade e liquidez.

O cenário desenhado para 2027 tem dois lados. De um lado, o Reino Unido tornou a stablecoin em libra mais prática e mais defensável como trilho regulado de pagamentos. De outro, manteve controles suficientes para impedir que qualquer token em libra concorra imediatamente em tamanho com os maiores produtos denominados em dólar.

Por ora, a consulta pública segue aberta até 22 de setembro de 2026. Depois disso, o mercado observará se o teto de 40 bilhões de libras ficará muito acima da adoção inicial ou se virará o primeiro grande obstáculo para um emissor que consiga ganhar escala.