Ethereum Foundation corta 20% da equipe com uso recorde
A Ethereum Foundation demitiu cerca de 20% da equipe e reduziu o orçamento em aproximadamente 40% em 2026. Ainda assim, a rede opera em máximas históricas de uso e amplia sua presença entre grandes instituições financeiras, sem converter esse avanço em valorização do Ethereum.
Em 23 de junho, a organização sem fins lucrativos confirmou a demissão de 54 funcionários. A decisão veio após uma revisão de meses sobre estrutura, gastos e responsabilidades de longo prazo. Segundo Vitalik Buterin, o processo trouxe perdas relevantes para o ecossistema.
“Respeito demais meus colegas da EF para fingir que não houve muita perda. São pessoas brilhantes. São engenheiros dedicados, alguns dos quais trabalham no protocolo Ethereum há quase uma década. Eles trouxeram uma luz intensa ao ecossistema Ethereum com seu código, suas palavras, seu calor humano e suas ações.”
Vitalik Buterin no X
Uso da rede cresce, mas ETH segue pressionado
Segundo a Token Terminal, o tráfego e a capacidade de processamento da rede atingiram recordes no primeiro trimestre de 2026. Ao mesmo tempo, os ativos tokenizados seguiram em expansão no blockchain, o que reforça a utilidade da infraestrutura.

Apesar disso, a receita com taxas da rede, o valor total bloqueado e a atividade de negociação perderam força. No mercado, o ETH acumulava queda superior a 44% no ano e era negociado perto de US$ 1.670.
Os usuários ativos mensais chegaram a 13,2 milhões no primeiro trimestre. O número representa alta de 53,5% sobre os três meses anteriores e avanço de 85,9% na comparação anual. Além disso, o total de transações subiu 38% no trimestre, para 200,4 milhões. O throughput, por sua vez, alcançou o recorde de 25,78 transações por segundo.

Em contrapartida, a camada 1 do Ethereum gerou menos receita. As taxas de transação caíram quase 48% frente ao trimestre anterior, para US$ 39,9 milhões. Na comparação com o mesmo período de 2025, a queda chegou a 81,9%.
Além disso, o valor total bloqueado recuou 11%, para US$ 316,2 bilhões. Já o valor de mercado totalmente diluído encolheu 30,3%, para US$ 290 bilhões ao fim do trimestre.
Tokenização cresce com apoio institucional
Ao mesmo tempo, a aproximação com as finanças tradicionais seguiu forte. O valor total de ativos tokenizados na rede atingiu US$ 203,4 bilhões no primeiro trimestre, incluindo US$ 178,9 bilhões em stablecoins. Ademais, os fundos tokenizados cresceram 4,9% no trimestre e 73,1% em 12 meses, para US$ 19,4 bilhões.
As commodities tokenizadas avançaram 60%, para US$ 4,7 bilhões. Já as ações tokenizadas cresceram 16,5%, para US$ 365,1 milhões. Essa expansão vem sendo sustentada por BlackRock, JPMorgan, Franklin Templeton e Fidelity, que desenvolveram fundos tokenizados ou ampliaram ofertas baseadas em blockchain usando o Ethereum.
“Ethereum se tornou o sistema operacional padrão para finanças programáveis e formação de capital nativa da internet.”
Joseph Chalom, diretor executivo da empresa de tesouraria de Ethereum SharpLink, fez a avaliação.
Ainda assim, o apetite institucional pelo ativo não acompanhou o uso da rede. Os ETFs spot de Ether listados nos Estados Unidos registraram sete semanas consecutivas de saídas. Os resgates somaram quase US$ 1 bilhão, segundo a SoSoValue.

Na prática, instituições podem emitir fundos tokenizados, movimentar stablecoins e usar a rede para liquidação sem comprar ETH na mesma proporção. Dessa forma, a adoção institucional da infraestrutura e o desempenho de mercado do token seguem em trilhas separadas.
Fundação muda prioridades e aperta gastos
Para responder a esse cenário, a Ethereum Foundation concluiu uma reorganização interna e trocou a promoção ampla do ecossistema por um modelo mais especializado. Assim, a equipe remanescente foi dividida em cinco áreas funcionais: protocolo, acesso, usuário, comunidade e camada institucional.
O núcleo de protocolo deve focar escalabilidade, experiência do usuário e reforço das garantias criptográficas da camada 1. Além disso, a fundação pretende transferir sua remuneração interna e seus acordos financeiros diretamente para ETH e stablecoins nativas.
“Se o trabalho da EF é tornar o Ethereum utilizável como infraestrutura para soberania individual, todos na EF viverão cada vez mais dentro das limitações práticas e técnicas do sistema que a própria EF existe para melhorar: experiência de uso de carteiras, volatilidade, contabilidade, lacunas de privacidade, fricção em pagamentos, pressupostos de confiança em stablecoins, recuperação, risco de dependência e outros pontos. Se não conseguimos usar essas ferramentas nós mesmos, é irrealista esperar que os demais consigam.”
Bastian Aue, codiretor executivo interino da Ethereum Foundation, afirmou que a fundação também rejeitará pressões para ajustar parâmetros do protocolo a interesses especulativos de curto prazo. Em vez disso, a prioridade será uma engenharia de software defensiva, voltada a proteger o livro-razão contra captura institucional ou centralização.
“Estamos aqui para fortalecer defensivamente áreas em que o Ethereum é, ou ainda pode se tornar, extrativo, totalizante ou vulnerável à captura por cartéis ou pelo Estado, ou a ferramentas autoritárias de vigilância ou coerção.”
MEV, privacidade e Strawmap entram no centro
Entre as prioridades técnicas, a fundação colocou a redução dos riscos ligados ao valor máximo extraível, conhecido como MEV. Em outras palavras, o foco está nos lucros que validadores, construtores de blocos e outros participantes extraem ao controlar a ordem, inclusão ou exclusão de transações.
As respostas propostas incluem garantias mais fortes de inclusão de transações, redução de barreiras para construção de blocos e validação, bem como maior transparência sobre as premissas assumidas pelos usuários. As Forward Inclusion Lists, conhecidas como FOCIL, buscam dificultar a censura de construtores de blocos. Já o proposer-builder separation incorporado ao protocolo, ou ePBS, tenta reduzir a dependência de relays externos.
Pesquisadores também estudam mempools criptografados. Esses mecanismos podem ocultar detalhes de transações pendentes antes da execução e dificultar práticas como front-running. Ao mesmo tempo, essas soluções podem criar novos riscos técnicos. Por isso, a fundação precisa equilibrar privacidade, justiça de mercado e complexidade adicional.
Por fim, Vitalik Buterin afirmou que a fundação iniciou uma transição plurianual para um modelo menor, semelhante ao de uma instituição administrada por fundo patrimonial. O plano busca reduzir a taxa média de gastos anuais de cerca de 15% dos ativos remanescentes, patamar visto antes de 2026, para algo próximo de 5% ao ano após 2030.
Buterin acrescentou que esse ajuste ocorre enquanto a rede persegue sua terceira grande iteração, chamada Ethereum Strawmap. A proposta pretende remodelar partes relevantes do blockchain, incluindo consenso, provas de transação, privacidade, contas de usuários e a forma como o estado da rede é administrado.
Como resultado, a reorganização da Ethereum Foundation ocorre em um momento incomum. A entidade corta 54 cargos e reduz 40% do orçamento enquanto o ETH cai mais de 44% no ano. Além disso, os ETFs spot de Ether nos Estados Unidos acumulam sete semanas de saídas. Ainda assim, a rede registra 13,2 milhões de usuários ativos mensais, 200,4 milhões de transações no trimestre e US$ 203,4 bilhões em ativos tokenizados.