Hayes vê Bitcoin a US$ 1 milhão após resgate da IA

Arthur Hayes voltou a defender uma projeção agressiva para o Bitcoin. Segundo o ex-CEO da BitMEX, a criptomoeda poderia atingir US$ 1 milhão se uma bolha de investimentos em inteligência artificial provocar uma crise de crédito. Por consequência, autoridades monetárias teriam de liberar liquidez em larga escala.

Hayes apresentou a tese no programa Bankless. Além disso, detalhou seus argumentos no ensaio Reality Test. Na visão dele, a inteligência artificial absorveu grande parte do capital global desde novembro de 2022. Esse fluxo, portanto, teria limitado a entrada de dinheiro novo no mercado de criptomoedas.

De acordo com Hayes, cerca de US$ 1,5 trilhão em dívida ligada à IA foi emitido entre novembro de 2022 e meados de 2026. Ao mesmo tempo, a oferta monetária M2 dos Estados Unidos cresceu praticamente o mesmo valor. Assim, ele conclui que os novos dólares financiaram data centers e clusters de GPUs, em vez de impulsionar o Bitcoin.

Argumento de liquidez de Hayes: a IA absorveu os novos dólares
A dívida ligada à IA emitida entre novembro de 2022 e meados de 2026 acompanhou a alta de US$ 1,5 trilhão na oferta monetária M2 dos EUA no mesmo intervalo.

Fonte: análise citada por Arthur Hayes em Reality Test.

Liquidez da IA pressiona o Bitcoin no curto prazo

Uma leitura semelhante apareceu nas falas de Luke Gromen, fundador da Forest for the Trees. Em junho, durante participação no podcast Coin Stories, ele afirmou que os recordes recentes dos índices de ações escondem uma estrutura frágil. Afinal, os ganhos estariam muito concentrados em empresas expostas à inteligência artificial.

Gromen disse que a IA está sugando todo o oxigênio da sala. Nesse sentido, também estaria drenando liquidez do Bitcoin. Segundo ele, a amplitude do mercado se deteriora, embora os índices ainda sustentem máximas históricas.

“A IA está sugando todo o oxigênio da sala, toda a liquidez da sala, e acho que isso também está acontecendo com o Bitcoin.”

Além disso, Gromen descreveu o Bitcoin como um dos últimos alarmes de fumaça funcionais da liquidez. Em outras palavras, ele vê o ativo como um sinal antecipado de deterioração monetária. O próprio gestor disse que vendeu a maior parte de sua posição perto do topo. Depois, voltou ao mercado apenas de forma limitada, o que reforça uma postura mais cautelosa no curto prazo.

Hayes estende esse argumento ao ciclo de infraestrutura de IA. Segundo essa leitura, algumas empresas reconhecem receitas antes do tempo. Enquanto isso, diluem por vários anos os custos de construção de data centers e outras estruturas. Dessa forma, os lucros reportados podem parecer maiores agora, embora o fluxo de caixa real sofra quando os investimentos desacelerarem.

Instituições macro veem riscos na bolha de IA

O debate, contudo, não ficou restrito ao mercado cripto. Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, escreveu que as 10 maiores empresas do S&P 500 estão hoje mais sobrevalorizadas do que as 10 maiores companhias durante a bolha de tecnologia dos anos 1990. A análise foi publicada pela Apollo Academy.

Atualmente, essas 10 empresas representam cerca de 40% do índice. Portanto, cada US$ 100 aplicados no S&P 500 dependem fortemente da continuidade da narrativa da IA. Se esse grupo sofrer uma correção mais ampla, o impacto pode atingir carteiras passivas em várias regiões do mundo.

Ao mesmo tempo, o Bank for International Settlements apontou que o financiamento da infraestrutura de IA está migrando do caixa das empresas para dívida externa. Segundo o boletim de 2026, a escala dos investimentos já supera a capacidade de geração de caixa livre das hyperscalers.

O relatório mostrou ainda que o crédito privado em aberto para companhias ligadas à IA saiu de quase zero para mais de US$ 200 bilhões. Além disso, a fatia desse segmento no total do crédito privado avançou de menos de 1% para quase 8%. O BIS alertou para riscos nos padrões de crédito e para possíveis efeitos sobre a estabilidade financeira.

Cenários para o Bitcoin dividem analistas macro

Apesar da tese de Hayes, nem todos esperam uma resposta monetária tão intensa. Lyn Alden afirmou, em newsletters de fevereiro e março de 2026, que o Federal Reserve opera em um regime de impressão gradual. Segundo ela, a expansão de balanço neste ano deve ficar entre US$ 220 bilhões e US$ 375 bilhões, em linha com o crescimento nominal do PIB.

Para Alden, uma impressão realmente grande só começaria acima de US$ 2 trilhões. Assim, a divergência central fica clara. Hayes trabalha com um cenário de crise que exigiria resposta muito superior a esse patamar. Alden, em contrapartida, descreve um cenário-base bem mais moderado, próximo de US$ 300 bilhões.

Nesse meio tempo, uma pesquisa de 2026 da Bitwise com 299 assessores financeiros mostrou que 32% deles alocaram criptomoedas em contas de clientes em 2025. Esse foi o maior nível da série de oito anos. O levantamento foi divulgado pela Bitwise.

Entre os profissionais que acompanham o setor, a tese de ouro digital e desvalorização fiduciária apareceu com 22%. Ficou atrás apenas de stablecoins e tokenização, com 30%. Desse modo, a narrativa favorável ao Bitcoin já ganhou espaço em portfólios profissionais e também em ETFs.

Queda antes da alta segue no radar

Hayes reconheceu no Bankless que, em eventos amplos de aversão a risco, as correlações tendem a convergir para um. Ou seja, investidores vendem quase tudo ao mesmo tempo. O próprio Bitcoin caiu cerca de 50% desde o pico de outubro de 2025, em US$ 126.000, mesmo com expansão da oferta monetária.

Se houver um choque de crédito ligado à IA, a primeira reação pode seguir essa mesma lógica. Nesse caso, haveria venda generalizada de ativos de risco, retração do crédito bancário e aperto de liquidez antes de qualquer resposta dos formuladores de política monetária. A aposta de Hayes, portanto, não está no primeiro movimento, mas no rali posterior.

Para o Bitcoin chegar a US$ 1 milhão por unidade, sua capitalização totalmente diluída precisaria se aproximar de US$ 21 trilhões. Ainda assim, esse cenário exigiria não apenas capital nativo do mercado cripto, mas também uma realocação relevante de grandes carteiras macro globais.

A questão em aberto para o Bitcoin: para onde vai a liquidez de resgate?
Após um evento de crédito em IA e uma injeção de liquidez, o cenário de alta direciona capital ao Bitcoin, enquanto o de baixa mantém os recursos em Treasuries, ouro e vencedoras remanescentes da IA.

Por outro lado, o cenário negativo prevê que a liquidez emergencial procure primeiro Treasuries, caixa, reservas bancárias e ouro. Também existe a possibilidade de o capital permanecer no setor de tecnologia. Nesse caso, ele migraria apenas para empresas de IA consideradas mais resilientes. Nesse ambiente, o dinheiro demoraria meses para chegar ao mercado de criptomoedas.

Em suma, a tese de Arthur Hayes gira em torno de três pilares: a absorção de liquidez pela inteligência artificial, o aumento do endividamento do setor e a possibilidade de uma reação monetária agressiva após uma ruptura. Os números citados por ele, como US$ 1,5 trilhão em dívida ligada à IA desde 2022, mais de US$ 200 bilhões em crédito privado e a concentração de cerca de 40% do S&P 500 nas 10 maiores empresas, ajudam a explicar por que o destino final dessa liquidez continua sendo a principal incógnita para o Bitcoin.