Hyperliquid lidera lista da Grayscale para CLARITY Act

Um grupo de tokens ligado a grandes aplicativos de receita do mercado cripto pode passar por reprecificação, à medida que o Congresso dos Estados Unidos se aproxima de regras federais para ativos digitais. Entre os nomes mais bem posicionados, a Grayscale avalia que o Hyperliquid se destaca, ao lado de protocolos de negociação, empréstimo, staking e infraestrutura.

A Digital Asset Market Clarity Act, conhecida como CLARITY Act, busca delimitar responsabilidades regulatórias para ativos digitais e empresas do setor. Assim, defensores da proposta afirmam que bancos, gestoras e outras instituições financeiras tradicionais podem ganhar mais segurança para operar em blockchains públicas.

Além disso, a tese da Grayscale se apoia em um ponto central. Vários desses tokens negociam a múltiplos relativamente baixos frente à receita de protocolo dos últimos 12 meses. Em outras palavras, o mercado ainda atribui pouco valor a aplicativos que já movimentam grande volume de transações e taxas.

Projetos de criptomoedas que podem se beneficiar da CLARITY Act
Projetos de criptomoedas que podem se beneficiar da CLARITY Act. Fonte: Grayscale

O projeto avançou no Senado em maio, depois que a Câmara dos Representantes aprovou uma versão anterior em 2025. Nesse sentido, a gestora avalia que o texto pode voltar a avançar já no próximo mês, embora o calendário e os dispositivos finais ainda dependam das negociações no Congresso.

Derivativos colocam Hyperliquid na dianteira

O Hyperliquid aparece na frente por causa da escala do seu negócio em derivativos. Segundo a Grayscale, a plataforma descentralizada gerou US$ 871 milhões em receita de protocolo nos 12 meses encerrados em 24 de junho. Esse foi o maior valor entre os aplicativos analisados.

Seu token nativo, HYPE, tinha capitalização de mercado circulante de aproximadamente US$ 13,46 bilhões. Portanto, o mercado precificava o ativo em cerca de 15 vezes a receita. Embora esse múltiplo fique acima de boa parte da lista, o protocolo gerou quase o dobro da receita do concorrente mais próximo.

Regras mais claras nos Estados Unidos podem ampliar o conjunto de ativos e participantes em plataformas de negociação on-chain. Ademais, uma definição mais precisa sobre quando um ativo digital deve receber tratamento de valor mobiliário ou commodity pode facilitar a conexão entre instituições reguladas e mercados em blockchain.

Esse espaço, contudo, não se limita ao Hyperliquid. A PancakeSwap gerou US$ 322 milhões nos últimos 12 meses, enquanto o token CAKE tinha valor circulante de US$ 425 milhões. Assim, o ativo negociava perto de 1 vez a receita do protocolo, um dos menores múltiplos do ranking.

Já a Jupiter, agregadora de negociação da Solana, registrou US$ 130 milhões em receita e US$ 716 milhões em capitalização de mercado circulante, ou cerca de 6 vezes a receita. Da mesma forma, a Aerodrome gerou US$ 124 milhões e negociava a quase 4 vezes a receita. A Meteora, por sua vez, somou US$ 62 milhões em receita e tinha avaliação de apenas US$ 78 milhões.

Uniswap e Pump.fun exibem perfis distintos

A Raydium registrou US$ 46 milhões em receita, frente a US$ 158 milhões em valor de mercado circulante. Desse modo, o token da exchange da Solana operava em aproximadamente 3 vezes a receita.

Essas plataformas podem ganhar relevância caso a legislação incentive emissores a levar mais ativos regulados para blockchains. Afinal, cada novo valor mobiliário tokenizado, commodity tokenizada ou fundo tokenizado precisará de mercados para compra, venda e provisão de liquidez.

A Uniswap apresenta um perfil diferente. A exchange descentralizada gerou US$ 49 milhões em receita de protocolo, mas o token UNI tinha valor de mercado circulante de cerca de US$ 1,78 bilhão. Isso equivale a 37 vezes a receita, o maior múltiplo entre os 15 protocolos analisados.

Esse prêmio sugere que investidores já atribuem valor relevante à marca, à posição de mercado e ao potencial futuro de geração de taxas da Uniswap. Ainda assim, o token pode ter menos espaço para uma recuperação baseada apenas em reprecificação. Para isso mudar, a clareza regulatória teria de provocar forte alta da atividade ou fortalecer a relação entre taxas e detentores de UNI.

A Pump.fun, plataforma da Solana voltada ao lançamento de memecoins, ficou em segundo lugar geral. O protocolo gerou US$ 459 milhões em receita anual e tinha capitalização de mercado circulante de US$ 456 milhões. Por consequência, seu múltiplo ficou próximo de 1 vez a receita, refletindo tanto a escala da geração de taxas quanto a dúvida do mercado sobre a durabilidade dessa atividade.

Crédito tokenizado coloca Aave e Sky no radar

Os protocolos de empréstimo também podem ganhar com a próxima etapa da adoção on-chain. Nesse cenário, ativos tokenizados deixariam de servir apenas para negociação e passariam a funcionar como garantia para empréstimos.

A Aave gerou US$ 125 milhões em receita de protocolo no período analisado. Seu token AAVE tinha capitalização de mercado circulante de aproximadamente US$ 1,17 bilhão. Assim, o múltiplo ficava perto de 9 vezes.

O protocolo permite que usuários tomem e concedam empréstimos de ativos digitais por meio de mercados automatizados. Além disso, o avanço de stablecoins reguladas, fundos tokenizados e valores mobiliários em blockchain pode ampliar o conjunto de ativos aceitos como garantia. Esse movimento também pode atrair mais tomadores e credores.

A participação institucional pode ser decisiva. Bancos e gestoras que migrarem para blockchains públicas precisarão de mercados de crédito, gestão de garantias e fontes de liquidez. A Aave já opera boa parte dessa infraestrutura, embora os ganhos dependam da escolha das instituições. Elas podem usar protocolos abertos diretamente ou preferir sistemas permissionados.

A Sky, anteriormente conhecida como Maker, também pode se beneficiar da expansão do crédito tokenizado e das stablecoins. O protocolo gerou US$ 248 milhões no último ano, o quarto maior total do ranking. Seu token SKY tinha capitalização de mercado circulante de cerca de US$ 1,24 bilhão, equivalente a 5 vezes a receita.

A exposição da Sky a stablecoins e ativos do mundo real tokenizados a conecta diretamente ao tipo de atividade financeira que a Grayscale espera ver incentivada pela legislação. Por conseguinte, maior uso de produtos lastreados em Treasuries, instrumentos de crédito e tokens com perfil de caixa pode elevar a demanda por sua infraestrutura.

A World Liberty Financial, apoiada pelo presidente Donald Trump, também aparece entre os maiores geradores de receita, com US$ 105 milhões em 12 meses. Seu token WLFI era avaliado em aproximadamente US$ 1,82 bilhão, ou 17 vezes a receita. Nesse caso, o mercado parece precificar fatores além da geração atual de taxas, incluindo conexões políticas e uma estratégia de produtos ainda em evolução.

Staking e infraestrutura podem avançar indiretamente

Um aumento da atividade financeira on-chain tende a elevar a demanda por sistemas que protegem redes blockchain e permitem rendimento sobre ativos digitais. Nesse sentido, protocolos de staking também entram no radar.

A Lido Finance gerou US$ 77 milhões em receita de protocolo, enquanto seu token LDO tinha valor circulante de US$ 216 milhões. Portanto, seu múltiplo de 3 vezes a receita a coloca entre os ativos mais baratos do grupo por esse critério.

A Lido oferece serviços de staking líquido, permitindo que usuários aloquem ativos para ajudar na segurança das redes. Ao mesmo tempo, eles recebem tokens que seguem circulando em aplicações de finanças descentralizadas. A Ether.fi atua em área semelhante. O protocolo gerou US$ 56 milhões no período e tinha valor de mercado circulante de US$ 314 milhões, o que dá ao token ETHFI um múltiplo de cerca de 6.

Se a CLARITY Act estimular a migração de mais ativos e transações para redes públicas, provedores de staking podem se beneficiar de maior demanda por segurança em blockchain e por produtos geradores de rendimento. Ao mesmo tempo, o crescimento das finanças tokenizadas pode criar novos usos para tokens de staking líquido como garantia em aplicações de negociação e empréstimo.

Esse efeito, porém, tende a ser menos direto do que no caso de exchanges ou mercados de crédito. Afinal, o staking continua sujeito a questões jurídicas próprias, e a redação final da lei pode não resolver todos os pontos sobre o tratamento regulatório dos serviços e recompensas desse segmento.

Múltiplos baixos sustentam a tese da Grayscale

A principal tese de investimento apontada pela Grayscale está no quanto o mercado ainda paga pouco pela receita gerada por muitos desses aplicativos. Doze dos 15 protocolos do ranking negociavam a múltiplos de um dígito sobre a receita acumulada em 12 meses.

Pump.fun, PancakeSwap, Meteora e Collector Crypt apareciam avaliados em aproximadamente 1 vez a receita. Além disso, Lido e Raydium negociavam perto de 3 vezes, enquanto Aerodrome estava em 4 vezes. Sky, Jupiter e Ether.fi tinham múltiplos entre 5 e 6. Já a Lighter, plataforma de negociação on-chain com US$ 50 milhões em receita, operava ao redor de 8 vezes, ao passo que a Aave ficava em 9 vezes.

Segundo a Grayscale, essas avaliações parecem ainda mais baixas quando comparadas com potencial de lucro ou fluxo de caixa. Isso ocorre porque muitas aplicações em blockchain operam sem os custos elevados de pessoal, imóveis e despesas administrativas típicos de empresas tradicionais.

No entanto, a comparação tem limites. A receita do protocolo nem sempre pertence aos detentores do token da mesma forma que a receita corporativa pertence a uma empresa. As taxas podem seguir para validadores, provedores de liquidez, desenvolvedores, tesouros dos protocolos ou usuários. Além disso, alguns aplicativos distribuem tokens para atrair atividade, criando um custo econômico que pode não aparecer na receita bruta.

A própria capitalização de mercado circulante também pode subestimar a avaliação final de um projeto quando parte relevante da oferta de tokens ainda está bloqueada e programada para liberação futura. Em suma, os casos mais consistentes seriam os protocolos que conseguem combinar crescimento de receita com um mecanismo claro de transferência de valor econômico para seus tokens.

A CLARITY Act não garante alta de preços para nenhum ativo. Ainda assim, pode reduzir o desconto regulatório que limita a participação institucional e dificulta a precificação de projetos com atuação voltada aos Estados Unidos. Nesse cenário, Hyperliquid, PancakeSwap, Aave, Sky, Lido Finance e Ether.fi seguem entre os nomes monitorados pela Grayscale.