Bitcoin abaixo do custo divide mineradoras em 2026

O Bitcoin segue pouco acima de US$ 60 mil, enquanto o custo total estimado para produzir uma unidade gira em torno de US$ 84,3 mil. Assim, a diferença próxima de 25% pressiona boa parte da mineração em base de custo integral, embora a rede continue operando normalmente.

Durante anos, o mercado tratou o custo de produção como um piso rígido para o preço do Bitcoin. Afinal, essa tese indicava que, se a cotação caísse muito abaixo desse nível, mineradores desligariam máquinas e o mercado se ajustaria rapidamente. Entretanto, o comportamento das últimas semanas mostra uma dinâmica menos direta.

Na prática, o custo de produção não sustenta sozinho o preço do ativo. Em vez disso, ele separa os operadores mais eficientes daqueles que perdem margem quando a receita encolhe. Dessa forma, a rede continua funcionando mesmo quando parte relevante do setor trabalha sob pressão financeira.

Dificuldade da rede ajusta margens sob pressão

Em meados de junho, a dificuldade da rede caiu 10,09%, de 138,96 trilhões para 124,93 trilhões. Segundo a Galaxy Research, esse foi o segundo maior ajuste negativo de 2026 e o décimo primeiro maior de toda a história do protocolo. Além disso, o ciclo de mineração durou 15,6 dias, acima da meta de 14 dias.

Esse alongamento ocorreu porque muitas máquinas de custo mais alto saíram da rede assim que as margens desapareceram. Como resultado, o protocolo detectou a lentidão dos blocos e reduziu a dificuldade para os participantes que permaneceram ativos. Assim, o Bitcoin voltou a mostrar sua capacidade de autorregulação.

O principal termômetro dessa dinâmica é o hashprice, que mede a receita diária por unidade de poder computacional. Ele cai quando o Bitcoin recua, quando a dificuldade sobe ou quando as taxas de transação encolhem. Em contrapartida, sobe quando o BTC avança, quando as taxas aumentam ou quando mineradores menos eficientes deixam a rede.

Para contextualizar, o hashprice alcançou cerca de US$ 63 por petahash por dia em julho de 2025. Contudo, no início de junho de 2026, o indicador havia recuado para a faixa alta de US$ 20. O Hashrate Index e grande parte do setor consideram esse nível próximo do ponto de equilíbrio bruto, antes de dívida e custos indiretos. Depois do ajuste de dificuldade em junho, o indicador voltou a superar US$ 30.

hashprice de mineradoras de Bitcoin
Gráfico mostra o hashprice do Bitcoin entre 28 de junho de 2025 e 26 de junho de 2026.

Fonte: Hashrate Index

Custo médio esconde desigualdade entre operadores

No relatório de mineração do primeiro trimestre de 2026, a CoinShares estimou em aproximadamente US$ 79.995 o custo de caixa médio ponderado para produzir um Bitcoin entre mineradoras listadas em bolsa no quarto trimestre de 2025. No mesmo período, o hashprice caiu da faixa de US$ 36 a US$ 38 para perto de US$ 29.

Segundo a gestora, entre 15% e 20% da frota global pode operar no vermelho quando o custo de energia sobe o suficiente. Ainda assim, essa média esconde uma dispersão relevante entre empresas. Uma operação com máquinas de última geração, consumo abaixo de 15 joules por terahash e energia inferior a US$ 0,05 por kWh ainda preserva margem saudável.

Por outro lado, frotas mais antigas, com energia a US$ 0,06 ou US$ 0,07 por kWh, podem perder dinheiro a cada bloco minerado. Quando o preço do Bitcoin cai, a receita por unidade de hash recua junto. Nesse cenário, operadores passam a vender BTC, desligar rigs, adiar expansão, renegociar contratos de energia ou captar capital.

Depois que hashrate suficiente deixa a rede, a dificuldade diminui. Então, quem continuou online passa a receber uma parcela maior do mesmo subsídio por bloco. Em outras palavras, o custo de produção ajuda a definir quem sobrevive, mas não determina onde a queda de preço termina.

Mineradoras buscam receita com IA e HPC

Em ciclos anteriores, uma empresa sob estresse tinha basicamente duas escolhas: seguir minerando ou desligar as operações. Agora, grandes companhias abertas passaram a explorar uma terceira via. Além disso, parte do setor vem convertendo infraestrutura para inteligência artificial e computação de alto desempenho, ou HPC.

A CoinShares afirma que já foram anunciados mais de US$ 70 bilhões em contratos acumulados de IA e HPC no segmento público. Ademais, a gestora projeta que mineradoras listadas possam obter até 70% de sua receita de IA até o fim de 2026, contra algo mais próximo de 30% atualmente.

Os acordos recentes reforçam essa mudança. A Core Scientific ampliou seu contrato com a CoreWeave para US$ 10,2 bilhões ao longo de 12 anos. Da mesma forma, a TeraWulf registrou US$ 12,8 bilhões em receita contratada de HPC. A Hut 8 assinou um contrato de locação de infraestrutura para IA de US$ 7 bilhões por 15 anos. Já a Bitfarms foi além e retirou Bitcoin do próprio nome.

Setor se divide entre híbridas e mineradoras puras

Esse movimento já divide o setor em três grupos. Em primeiro lugar, aparecem as mineradoras que assinaram contratos de IA, transferem capacidade e financiam a transição com dívida. O exemplo citado é a Cipher Mining, cujas notas seniores garantidas de US$ 1,7 bilhão elevaram a despesa trimestral com juros para US$ 33,4 milhões.

Em segundo lugar, surgem empresas com estruturas iniciais e projetos piloto ainda sem geração relevante de receita. Por fim, permanece um grupo praticamente dependente do Bitcoin e, portanto, totalmente exposto às oscilações do hashprice.

Essa divergência também já aparece na precificação de mercado. Enquanto empresas híbridas passam a ser avaliadas por entrega contratual e risco de execução, mineradoras puras seguem como uma aposta mais direta em BTC, dificuldade e política de tesouraria. Ao mesmo tempo, operadores menores com energia barata ocupam um nicho próprio.

As mineradoras públicas de Bitcoin reduziram suas reservas em mais de 15 mil BTC desde os níveis de pico. A Core Scientific vendeu cerca de 1,9 mil moedas em janeiro e planeja se desfazer da maior parte do saldo remanescente. Em seguida, a Bitdeer zerou sua posição em fevereiro. A Riot Platforms vendeu 1.818 BTC em dezembro.

Apenas no primeiro trimestre de 2026, essas empresas liquidaram mais BTC do que em todo o ano de 2025. Além disso, o ritmo superou as vendas observadas durante o colapso de Terra-Luna. Se o Bitcoin voltar para perto de US$ 100 mil, o hashprice tende a aliviar para algo em torno de US$ 37, e a pressão sobre tesourarias pode diminuir.

Por outro lado, se o ativo continuar lateralizado perto do custo de produção, o setor deve seguir pressionado. Nesse caso, mineradoras podem continuar vendendo moedas e buscando contratos de IA, enquanto a dificuldade cumpre seu papel de ajuste. Se houver nova queda, mais hashrate de alto custo deve sair da rede.

Ainda assim, os dados não indicam quebra estrutural da rede. O recuo observado em meados de junho já foi parcialmente revertido, com o tempo médio dos blocos voltando para perto de 10 minutos. Dessa maneira, parte da capacidade desligada retornou à medida que o preço se estabilizou. O quadro sugere margens comprimidas, não abandono do Bitcoin.