ARK mira Coinbase e ações cripto antes das altcoins
Após três anos sem uma altseason ampla e consistente, parte dos investidores passou a buscar outra forma de exposição às criptomoedas. Assim, ações de empresas como Coinbase, Circle, Robinhood e Bullish ganharam espaço entre quem deseja capturar uma retomada do setor sem escolher diretamente qual token pode subir mais.
Esse movimento reflete um contexto mais fraco para os ativos digitais. Nesse cenário, o valor total do mercado de criptomoedas caiu mais de 36% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, o conjunto das altcoins segue cerca de 45% abaixo do pico de outubro de 2025. Além disso, o Bitcoin caminha para o pior início de ano em mais de uma década, enquanto parte do capital migra para ações de inteligência artificial e grandes IPOs.
Nos ciclos recentes, muitos traders de altcoins enfrentaram narrativas que perderam força rapidamente. Ademais, desbloqueios de tokens pressionaram preços, rotações em memecoins favoreceram poucos compradores iniciais e várias altas perderam tração cedo demais. Nesse sentido, a tese de investir em empresas que monetizam a atividade do setor passou a parecer mais objetiva.
Ações ligadas ao setor ganham força com tokens fracos
Em 25 de junho, os ETFs da ARK Invest compraram cerca de US$ 5,4 milhões em quatro ações ligadas ao mercado de criptomoedas. O movimento ocorreu mesmo com todos os papéis em queda no pregão. As aquisições somaram aproximadamente US$ 1,28 milhão em Coinbase, US$ 637.455 em Circle, US$ 199.895 em Bullish e US$ 3,27 milhões em Robinhood.

Fonte: dados da ARK Invest.
Na prática, Cathie Wood aproveitou a fraqueza desses ativos a fim de reforçar exposição a empresas cuja receita depende de volumes de negociação. A cesta também inclui circulação de stablecoins, custódia, derivativos e especulação de varejo. Portanto, a estratégia mira a atividade econômica do setor, e não apenas a valorização de um ativo específico.
Coinbase, Circle, Robinhood e Bullish têm perfis distintos
No caso da Coinbase, os números do primeiro trimestre mostram como essa tese funciona. A companhia reportou participação de 8,6% no volume de negociação de criptomoedas. Também registrou avanço anual de 169% no volume de derivativos nos últimos 12 meses e custódia de 12% dos ativos globais em criptomoedas. Além disso, mais de 25% do USDC em circulação está em produtos da empresa.
Esses dados reforçam o posicionamento estrutural da Coinbase para capturar uma retomada da atividade. Por outro lado, eles também destacam o risco quando o mercado perde força. A receita de transações caiu cerca de 40%, para US$ 756 milhões no período. Do mesmo modo, a receita total recuou para US$ 1,43 bilhão, ante US$ 2,03 bilhões um ano antes. A empresa ainda registrou o segundo prejuízo trimestral consecutivo.
A Circle oferece uma exposição diferente. A circulação do USDC atingiu US$ 77 bilhões no primeiro trimestre, alta de 28% em um ano. Enquanto isso, o volume de transações on-chain com a stablecoin saltou 263%, para US$ 21,5 trilhões. Além disso, a receita total e a renda de reservas somaram US$ 694 milhões, avanço de 20%. O resultado veio da maior circulação média do USDC, ainda que uma taxa de retorno menor sobre reservas tenha limitado parte do ganho. Em dados ao vivo de 25 de junho, o USDC em circulação estava em US$ 73,6 bilhões.
No modelo econômico da Circle, o desempenho depende sobretudo do tamanho da circulação, do rendimento das reservas e dos acordos de distribuição. Em outras palavras, a empresa tem menor dependência das narrativas típicas das altcoins. Cada variação de 100 pontos-base no rendimento bruto das reservas sobre US$ 77 bilhões em circulação equivale a cerca de US$ 770 milhões em base anual antes dos custos.
Coinbase pode reagir antes de uma altseason ampla
A Robinhood reportou US$ 134 milhões em receita com criptomoedas no primeiro trimestre, queda de 47% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, o volume nocional de negociação de criptomoedas no aplicativo caiu 48%. Outros US$ 42 bilhões vieram da Bitstamp, levando o total nocional a US$ 66 bilhões.
Já a Bullish reforça a vertente institucional da tese. A empresa registrou vendas de ativos digitais de US$ 51,8 bilhões no trimestre, EBITDA ajustado de US$ 35,1 milhões e participação de 14% no mercado de interesse em aberto de opções de BTC em abril.
Em uma leitura comparativa, a Coinbase depende de taxas de exchange, custódia, derivativos e da economia do USDC. Em contrapartida, a Circle está mais ligada à circulação do USDC, à renda das reservas e à infraestrutura de pagamentos. A Robinhood concentra exposição em corretagem de varejo e especulação via aplicativo. Enquanto isso, a Bullish representa a infraestrutura institucional, as vendas de ativos digitais e o mercado de opções de Bitcoin.
A lógica por trás dessa estratégia é direta. Se a especulação de varejo voltar, a atividade em derivativos se recuperar e a oferta de stablecoins continuar crescendo, exchanges e corretoras podem ser reprecificadas antes de uma rotação ampla em altcoins. Isso ocorre porque a receita de transações e as estimativas de lucro dessas empresas podem mudar mais rapidamente do que as narrativas em torno de tokens específicos.
Cenário positivo depende de volumes e stablecoins
O exemplo da Coinbase ajuda a ilustrar esse ponto. Um avanço de 10% sobre a base trimestral de US$ 756 milhões em receita de transações representaria cerca de US$ 76 milhões adicionais por trimestre. Já em um cenário de alta de 25%, esse valor chegaria a aproximadamente US$ 189 milhões. Assim, uma retomada da atividade pode alterar expectativas com velocidade relevante.
No cenário positivo, comprar ações dessas empresas significa apostar diretamente na volta da atividade do setor. O investidor, portanto, não precisa escolher entre uma rede de camada 1, uma rede de camada 2 ou um token de determinado segmento. No entanto, o cenário negativo continua claro. Se ações de inteligência artificial, IPOs e outros papéis do mercado tradicional seguirem absorvendo capital, os volumes em criptomoedas podem continuar baixos. Como resultado, a fraqueza operacional dessas companhias pode durar mais tempo.
Esse risco já aparece nos resultados recentes de Coinbase e Robinhood. A Circle continua dependente da manutenção da circulação do USDC e de rendimentos favoráveis sobre reservas. Da mesma forma, a Bullish depende da demanda institucional por negociação e derivativos, que pode encolher quando o sentimento sobre o mercado cripto piora.

A tese antiga de recuperação exigia acertar qual token atrairia o varejo primeiro. Isso incluía riscos de liquidez, cronogramas de desbloqueio e deterioração de narrativa. Agora, a versão baseada em ações troca parte desse potencial explosivo por uma aposta mais objetiva na retomada da atividade. Em 25 de junho, a ARK Invest distribuiu cerca de US$ 5,4 milhões entre Robinhood, Coinbase, Circle e Bullish. O movimento ficou alinhado aos dados recentes de volume, custódia, circulação de USDC e receita dessas empresas.