MSTR sobe com plano da Strategy para vender Bitcoin
As ações da Strategy, antiga MicroStrategy, avançaram nesta segunda-feira após a empresa ampliar sua flexibilidade financeira. A companhia autorizou recompras de até US$ 2 bilhões. Além disso, formalizou a possibilidade de vender parte de suas reservas de Bitcoin para pagar dividendos, juros e programas de recompra.
Após o anúncio, o papel MSTR subia 3,9% nas negociações iniciais, a US$ 85,52. Ao mesmo tempo, o STRC, um dos preferenciais da companhia, avançava para cerca de US$ 81. O movimento ocorreu depois de uma semana de forte correção, porque investidores passaram a questionar se a Strategy conseguiria financiar sua estratégia de acúmulo de Bitcoin apenas com emissão de ações e títulos preferenciais.
Strategy reforça estrutura de capital com BTC
A empresa comandada por Michael Saylor, presidente executivo do conselho, anunciou um novo Digital Credit Capital Framework. Dessa forma, ampliou o conjunto de instrumentos disponíveis para sustentar sua estrutura de capital. A Strategy reafirmou que o Bitcoin segue como principal ativo de reserva de tesouraria. Ainda assim, agora a empresa formalizou a autoridade para usar parte dessa posição como fonte de liquidez, caso a administração considere mais vantajoso vender BTC do que emitir ações ordinárias ou outros valores mobiliários.
Em 28 de junho, a Strategy detinha 847.363 Bitcoins, avaliados em cerca de US$ 50,7 bilhões. Trata-se da maior posição corporativa em Bitcoin entre empresas listadas em bolsa. No entanto, essa reserva ainda carregava perda não realizada superior a US$ 13 bilhões frente ao custo de aquisição divulgado pela companhia.
A mudança reflete um ajuste relevante na estratégia financeira. Afinal, o prêmio que sustentava o modelo de captação diminuiu de forma importante. Com isso, novas emissões perderam atratividade, sobretudo porque o MSTR negocia próximo de 1x mNAV por ação, métrica ligada ao valor das reservas em BTC.
Reserva em dólar cobre 17,4 meses de obrigações
A companhia informou que sua reserva em dólar somava aproximadamente US$ 2,55 bilhões em 28 de junho. Esse valor inclui recursos esperados de vendas de ações por meio do programa at-the-market ainda não liquidadas. Segundo a empresa, esse caixa só poderá pagar dividendos das ações preferenciais e juros da dívida em aberto, salvo nova autorização do conselho.
Com base nas despesas anuais atuais de cerca de US$ 1,76 bilhão com dividendos preferenciais e juros, essa reserva cobre aproximadamente 17,4 meses dessas obrigações. Além disso, o conselho aprovou uma política que exige reserva mínima equivalente a pelo menos 12 meses dessas despesas esperadas. Qualquer uso abaixo desse patamar dependerá de aprovação do conselho.
Esse colchão de liquidez busca responder a uma das principais preocupações do mercado. Isso porque as reservas de Bitcoin não geram renda recorrente. Ao mesmo tempo, os papéis preferenciais emitidos para financiar compras de BTC carregam compromissos contínuos de dividendos.
Ademais, a empresa afirmou que possui US$ 1,25 bilhão de capacidade autorizada para monetização de Bitcoin. Esse valor pode formar ou recompor a reserva em dólar. Somado ao caixa atual, o grupo estima cerca de US$ 3,8 bilhões em cobertura de liquidez para dividendos preferenciais e juros. Em outras palavras, isso equivale a 25,9 meses de cobertura, antes de recompras, tributos, custos de transação, condições de mercado ou mudanças nas taxas de dividendos.

STRC tem dividendo maior e recompras liberadas
A Strategy também elevou a taxa anual de dividendo de sua Variable Rate Series A Perpetual Stretch Preferred Stock, conhecida como STRC, para 12%, acima dos 11,5% anteriores. A elevação vale para períodos semimensais com datas de registro a partir de 1º de julho.
A empresa estruturou o STRC para negociar perto de seu valor declarado de US$ 100. Contudo, o papel passou a ser negociado com desconto acentuado em meio ao estresse recente de mercado. No momento da publicação original, o ativo girava em torno de US$ 81, bem abaixo do valor de referência, apesar da meta declarada pela empresa de levá-lo gradualmente de volta à faixa entre US$ 99 e US$ 100.
A companhia informou que revisará mensalmente a taxa de dividendo do STRC. Para isso, levará em conta preço de negociação do ativo, rendimentos de mercado, spreads de crédito, preço e volatilidade do Bitcoin, cobertura de reservas e condições mais amplas do mercado de capitais. Ainda assim, alertou que não elevará automaticamente o dividendo apenas porque o título estiver abaixo do valor declarado. Os dividendos seguem sujeitos à aprovação do conselho e não são garantidos.
Quinn Thompson, diretor de investimentos da Lekker Capital, avaliou a decisão como resposta necessária ao estresse recente do mercado, em comentário publicado no X.
“A queda de quase 30% das ações ordinárias da Strategy na semana anterior refletia forte pressão vendedora, e a decisão de direcionar recursos recentes de oferta de ações para uma reserva de caixa defensiva representa um avanço importante para a confiança institucional.”
Segundo ele, o ajuste de 0,5 ponto percentual, sozinho, talvez não seja suficiente para levar o STRC de volta ao valor de US$ 100.
Buybacks somam até US$ 2 bilhões
A Strategy autorizou até US$ 1 bilhão em recompras de seus Digital Credit Securities, incluindo STRC, STRF, STRD e STRK. Segundo a companhia, o STRC deve ser o foco inicial do programa, caso a administração entenda que as recompras geram ganho econômico e fortalecem a estrutura de capital.
As recompras poderão ocorrer em mercado aberto, block trades, ofertas públicas, ofertas de troca ou transações privadas negociadas diretamente. A autorização não obriga a empresa a recomprar um volume específico e não possui data fixa para expiração.
Além disso, a companhia aprovou um programa separado de US$ 1 bilhão para recomprar ações ordinárias Classe A. Segundo a empresa, a administração pode usar essas recompras quando considerar que o MSTR negocia abaixo de seu valor intrínseco.
A Strategy ressaltou que nem as recompras de ações preferenciais nem as de ações ordinárias usarão a reserva em dólar. Se optar por vendas de Bitcoin para financiar essas operações, a companhia enquadrará essas transações no programa de monetização de BTC.
“Pretendemos alternar entre emitir valores mobiliários quando o capital for atrativo e recomprar valores mobiliários quando nossos instrumentos forem negociados em níveis que tornem as recompras geradoras de valor.”
Phong Le, diretor executivo da Strategy, fez a declaração. Assim, a empresa sinalizou uma migração de um modelo centrado em emissões para outro que também usa recompras como ferramenta ativa de gestão.
Venda de Bitcoin ganha papel formal no plano
O programa de monetização de Bitcoin representa a peça central da nova estrutura para investidores de longo prazo. Pelo modelo anunciado, a companhia poderá vender BTC para três finalidades: gerar até US$ 1,25 bilhão para a reserva em dólar, financiar ou recompor caixa usado em dividendos preferenciais e despesas com juros, e bancar recompras de Digital Credit Securities ou de ações MSTR.
O programa não tem prazo de validade definido e não obriga a Strategy a vender Bitcoin. Entretanto, qualquer alienação dependerá de condições de mercado, necessidade de liquidez, aspectos tributários, questões contábeis, exigências legais e avaliação da administração sobre geração de valor aos acionistas.
Na prática, porém, a autorização formaliza uma mudança que já havia começado. Entre 26 e 31 de maio, a Strategy vendeu 32 Bitcoins por cerca de US$ 2,5 milhões, apenas a segunda venda conhecida de BTC em sua história. Embora o montante tenha sido pequeno diante da posição total da empresa, o episódio mostrou disposição para usar o Bitcoin como ferramenta de balanço quando a gestão entende que isso melhora sua posição financeira.
Mesmo com a abertura para novas vendas, Michael Saylor reforçou o compromisso estratégico da companhia com o ativo. Em declaração divulgada pela empresa, ele afirmou:
“A Strategy continua comprometida com o Bitcoin como seu principal ativo de reserva de tesouraria. Ao mesmo tempo, o Digital Credit exige liquidez, disciplina e gestão ativa de capital.”
Com 847.363 Bitcoins em caixa, reserva em dólar de cerca de US$ 2,55 bilhões, capacidade adicional de monetização de US$ 1,25 bilhão e autorização de recompras de até US$ 2 bilhões, a Strategy tenta responder à pressão recente sobre MSTR e STRC sem abandonar o papel central do Bitcoin em sua estrutura financeira.