Bitcoin perde os US$ 60 mil apesar de reforço da Strategy
O Bitcoin voltou a ficar sob pressão após perder a faixa de US$ 60.000, mesmo com a Strategy anunciando medidas para reforçar sua estrutura de capital. Ao mesmo tempo, o mercado passou a observar dois testes distintos: a capacidade da empresa de sustentar dividendos e recompras sem pressionar o caixa, e a capacidade do ativo de retomar um nível técnico decisivo.
A Strategy apresentou um novo Digital Credit Capital Framework com reserva de US$ 2,55 bilhões em dólar. O pacote também inclui revisão da política de dividendos do STRC, US$ 2 bilhões em recompras combinadas e autorização do conselho para monetizar BTC. Assim, as ações da MSTR subiram cerca de 6% no pré-mercado, enquanto o STRC avançou para perto de US$ 81, ainda abaixo do valor de paridade de US$ 100.
Na prática, o pacote reduz o risco imediato de pressão financeira sobre a companhia. Ainda assim, ele não resolve o principal problema do mercado à vista de Bitcoin, que continua lidando com desequilíbrio entre oferta e demanda.
Fluxos para exchanges elevam risco de liquidação
A queda abaixo de US$ 60.000 expôs um mercado que operava com relativa complacência desde fevereiro. Além disso, a quebra desse suporte ocorreu após forte movimento de moedas para endereços de depósito ligados a grandes exchanges.
Segundo a CryptoQuant, mais de 550.000 BTC chegaram a carteiras vinculadas à Binance e à OKX, no maior fluxo desse tipo desde o mercado de baixa de 2023. Desse total, mais de 220.000 BTC seguiram para endereços ligados à Binance. Já mais de 330.000 BTC foram para endereços associados à OKX.
Embora essas transferências não confirmem venda imediata, elas aproximam as moedas das plataformas onde a liquidação pode ocorrer. Portanto, o movimento ganhou mais peso no momento em que o Bitcoin perdeu um dos níveis técnicos mais observados do ciclo.
Ao mesmo tempo, os ETFs spot de Bitcoin registraram saídas de cerca de 71.600 BTC no último mês, segundo a Glassnode. No mesmo período, trusts de ativos digitais adicionaram apenas cerca de 7.500 BTC. Dessa forma, o fluxo institucional líquido combinado, ajustado pela nova emissão, ficou em torno de menos 77.000 BTC.
Esse quadro mostra uma diferença importante. A Strategy diminuiu as chances de virar uma vendedora forçada, mas isso não significa retorno da demanda institucional. Em outras palavras, a melhora interna da companhia não substitui os compradores que deixaram os ETFs depois da perda dos US$ 60.000.
ETFs e exchanges definem o curto prazo
O mercado agora observa se a saída de capital dos ETFs vai desacelerar e se o fluxo para exchanges perderá força. Caso isso não ocorra, a pressão sobre o preço pode continuar, sobretudo porque a oferta já está mais próxima de pontos potenciais de venda.
Com efeito, um programa corporativo de recompra de ações ou títulos não compensa sozinho um vácuo dessa magnitude. Por isso, a leitura predominante segue centrada em fluxo, liquidez e posicionamento.
Strategy compra tempo com reserva em dólar
A reserva de US$ 2,55 bilhões cobre aproximadamente 17,4 meses das obrigações anuais de dividendos preferenciais e juros da companhia. Essa conta considera compromissos anuais estimados em cerca de US$ 1,76 bilhão. Além disso, o conselho definiu uma política que exige ao menos 12 meses de cobertura mínima.
A empresa também elevou o dividendo do STRC para 12%, acima dos 11,5% anteriores, com efeito para datas de registro posteriores a 1º de julho. Em seguida, criou um processo de revisão mensal vinculado a níveis de negociação, spreads de crédito, preço e volatilidade do Bitcoin e cobertura da reserva.
Lacie Zhang, analista de pesquisa da Bitget Wallet, afirmou que analistas vinham alertando que as reservas de caixa da Strategy haviam encolhido a ponto de cobrir apenas 14 meses do custo de dividendos preferenciais. Segundo ela, a companhia carregava cerca de US$ 904 milhões em obrigações anuais frente a apenas US$ 150 milhões em fluxo de caixa operacional da área de software.
“A lacuna de financiamento é estrutural, não temporária. Reconstruir as reservas para US$ 2,55 bilhões e estender o horizonte para 26 meses compra tempo e restaura a credibilidade com os acionistas preferenciais, especialmente os detentores de STRC, que viram o papel negociar 25% abaixo de seu valor de paridade de US$ 100.”
O programa também autoriza vendas de até US$ 1,25 bilhão em BTC para três finalidades. A Strategy poderá recompor a reserva em dólar, financiar dividendos preferenciais e juros quando a administração considerar mais vantajoso vender Bitcoin do que emitir novo capital, e sustentar os programas de recompra.
Atualmente, a Strategy detém 847.363 BTC, adquiridos a um custo agregado de US$ 64,1 bilhões. Com o Bitcoin em torno de US$ 60.000, esse valor fica cerca de US$ 16.000 abaixo do custo médio da posição. Assim, a empresa sinaliza uma mudança relevante em relação à postura histórica de apenas acumular.
“A Strategy está administrando o Bitcoin como um ativo de tesouraria com disciplina real de liquidez, e não apenas como uma posição ideológica. Se isso é positivo ou negativo depende de para onde o Bitcoin irá a seguir, o que sempre foi a única questão realmente importante aqui.”
Liquidez melhora, mas não muda o mercado à vista
A Strategy comprou tempo e reduziu o risco de uma venda forçada repentina. No entanto, o mercado de Bitcoin continua dependente de nova demanda em escala, especialmente por parte de investidores institucionais.
Opções colocam US$ 55 mil no radar
Operadores de opções montaram proteção concentrada entre US$ 55.000 e US$ 58.000 para o vencimento de julho. Na Deribit, há aproximadamente US$ 1,2 bilhão em interesse em aberto concentrado nos strikes de US$ 55.000 e US$ 50.000. Portanto, esse posicionamento pode acelerar o movimento em qualquer direção.
Se o Bitcoin recuperar os US$ 60.000 e sustentar esse patamar, parte dessas proteções baixistas pode ser desmontada. Como resultado, um repique ganharia força. Contudo, se a retomada falhar, a faixa entre US$ 55.000 e US$ 58.000 tende a virar o próximo teste real do mercado.

Cenários para as próximas semanas
No cenário de recuperação, quatro fatores precisariam avançar juntos. Em primeiro lugar, o Bitcoin teria de retomar e sustentar os US$ 60.000. Em segundo lugar, os fluxos dos ETFs precisariam voltar ao campo positivo. Além disso, as transferências para endereços ligados a exchanges teriam de esfriar em direção às médias históricas. Por fim, o STRC precisaria reduzir a distância em relação ao valor de paridade de US$ 100.
Já no cenário baixista, a falha em sustentar os US$ 60.000 transformaria esse nível em resistência. Nesse sentido, a atenção migraria para a faixa entre US$ 55.000 e US$ 58.000. Ademais, saídas persistentes dos ETFs reforçariam a leitura de demanda institucional ausente, independentemente do alívio interno obtido pela Strategy.
Há ainda um cenário de atraso macroeconômico. O índice de preços ao consumidor de junho sairá em 14 de julho. Depois disso, o CPI de julho, previsto para 12 de agosto, poderá oferecer uma leitura mais limpa da inflação. Em seguida, o vencimento da janela de licença de petróleo do Office of Foreign Assets Control ocorrerá em 21 de agosto. Já o índice PCE de julho, marcado para 26 de agosto, trará a métrica de inflação preferida do Federal Reserve sem a mesma distorção do choque inicial.
Até esses eventos, o Bitcoin deve continuar reagindo principalmente a fluxo e posicionamento. A Strategy reduziu o risco de venda forçada por parte de uma das maiores tesourarias corporativas expostas ao ativo. Ainda assim, o mercado segue precisando de compradores em escala suficiente para absorver a oferta potencial associada a mais de 550.000 BTC movimentados para endereços de depósito de exchanges e um mês inteiro de saídas dos ETFs spot.