Regulação inaugura nova fase do mercado cripto e redefine quem serão os vencedores do setor
A aprovação da Lei 14.478/2022 e a construção das normas complementares conduzidas pelo Banco Central representam mais do que a formalização das regras para o mercado de ativos digitais. O processo marca o início de uma transformação estrutural capaz de redefinir o perfil das empresas que atuarão no setor nos próximos anos.
Durante mais de uma década, o mercado cripto global cresceu impulsionado principalmente pela inovação tecnológica e pela velocidade de criação de novos produtos.
Em muitos casos, a expansão ocorreu antes mesmo da definição de marcos regulatórios claros, criando um ambiente altamente dinâmico, mas também marcado por incertezas jurídicas, assimetrias operacionais e diferentes padrões de governança.
O crescimento consistente da adoção de ativos digitais em diferentes regiões do mundo ajuda a explicar a relevância desse debate. O país figura entre os líderes globais de adoção de ativos digitais. De acordo com o Índice Global de Adoção de Criptomoedas de 2025, elaborado pela Chainalysis, o Brasil ocupa a quinta posição mundial no ranking de adoção de criptoativos, atrás apenas de Índia, Estados Unidos, Paquistão e Vietnã.
Agora, a tendência observada em mercados como Brasil, União Europeia, Reino Unido e Singapura aponta para um cenário diferente. A discussão deixou de ser se o mercado será regulado e passou a ser como as empresas irão se adaptar a um ambiente cada vez mais próximo das exigências aplicadas ao sistema financeiro tradicional.
Nesse novo ambiente, especialistas avaliam que as empresas mais bem posicionadas serão aquelas capazes de combinar inovação tecnológica com estruturas robustas de governança, gestão de riscos, compliance e capacidade operacional.
Em outras palavras, o diferencial competitivo tende a migrar da velocidade de crescimento para a capacidade de operar dentro de padrões cada vez mais próximos aos exigidos pelo sistema financeiro tradicional.
Para Denise Cinelli, COO Global da NotBank,, a regulamentação está mudando o próprio conceito de competitividade dentro do mercado de ativos digitais. Segundo ela, durante muitos anos crescer rapidamente era praticamente sinônimo de sucesso, mas esse cenário ficou para trás.
“Quem quiser permanecer relevante vai precisar provar que consegue crescer com estrutura, controles, governança e capacidade operacional”, afirma.
Na avaliação da executiva, o setor vive um processo natural de amadurecimento, no qual empresas que já investiram em compliance, gestão de riscos e relacionamento institucional entram em vantagem, enquanto aquelas que adiaram essa construção enfrentarão uma adaptação mais complexa.
Compliance deixa de ser custo e passa a ser vantagem competitiva
Uma das principais mudanças trazidas pelo avanço regulatório é a crescente valorização dos mecanismos de compliance e governança corporativa.
Historicamente, muitas empresas do setor concentravam seus investimentos em tecnologia, desenvolvimento de produtos e aquisição de clientes. Com o amadurecimento do mercado, porém, áreas relacionadas à prevenção à lavagem de dinheiro, monitoramento de transações, segurança operacional e gestão de riscos passaram a ocupar posição estratégica dentro das organizações.
O movimento acompanha uma demanda crescente de investidores, parceiros institucionais e clientes corporativos por ambientes que ofereçam previsibilidade e mecanismos robustos de controle. Mais do que atender exigências regulatórias, essas práticas começam a funcionar como um diferencial competitivo em um mercado cada vez mais sofisticado.
Na avaliação de Cinelli, confiança passou a ser um ativo estratégico para as empresas do setor. A executiva afirma que compliance deixou de ser visto apenas como uma obrigação regulatória para integrar a estratégia dos negócios. “Na prática, confiança virou um ativo econômico. Bancos analisam, parceiros analisam, investidores analisam e até grandes clientes corporativos avaliam a maturidade operacional antes de fechar qualquer parceria”, destaca.
Segundo ela, essa sempre foi uma prioridade da NotBank. “Crescer de forma sustentável exige investir naquilo que muitas vezes o cliente nem vê: controles internos, segurança operacional, prevenção à lavagem de dinheiro, monitoramento de riscos e processos sólidos.”
Para Denise, quando esses pilares estão bem estruturados, deixam de representar apenas custos operacionais e passam a impulsionar novos negócios e fortalecer relacionamentos institucionais.
Stablecoins podem se tornar a principal porta de entrada da economia digital regulada
Enquanto o debate público ainda associa o mercado cripto principalmente ao investimento em ativos digitais, uma das transformações mais relevantes acontece no campo dos pagamentos e movimentações internacionais.
As stablecoins, ativos digitais lastreados em moedas fiduciárias como o dólar, vêm ampliando seu espaço em operações de remessas internacionais, liquidação financeira, pagamentos transfronteiriços e proteção cambial.
O avanço desses ativos também ajuda a explicar uma mudança importante de percepção sobre o setor.
Segundo levantamento da consultoria McKinsey em parceria com a Artemis Analytics, os pagamentos realizados por meio de stablecoins movimentaram cerca de US$ 390 bilhões em 2025, mais que o dobro do registrado no ano anterior, com destaque para operações corporativas e transferências internacionais.
Em um cenário regulado, essas aplicações tendem a crescer entre empresas que buscam eficiência operacional, redução de custos e maior velocidade nas transações globais.
O movimento ajuda a reposicionar o setor, afastando-o da percepção exclusivamente ligada à especulação e aproximando-o de casos concretos de uso econômico.
De acordo com Denise, esse processo já está em curso. Segundo ela, as stablecoins deixaram de ser um instrumento restrito ao mercado de criptoativos para resolver desafios concretos das empresas, especialmente em pagamentos internacionais, remessas e gestão de liquidez.
“Na prática, elas reduzem custos, diminuem o tempo de liquidação e eliminam diversas ineficiências que ainda existem na infraestrutura financeira tradicional”, afirma.
Na avaliação da COO Global da NotBank, esse talvez seja um dos movimentos mais relevantes dos próximos anos. “Quando a tecnologia deixa de ser o centro da conversa e passa a resolver problemas concretos do dia a dia das empresas, a adoção acontece de forma muito mais consistente.”
Tokenização pode ser o próximo capítulo da transformação financeira
Outro segmento que tende a ganhar relevância em um ambiente regulatório mais estruturado é o da tokenização de ativos.
A tecnologia permite representar digitalmente ativos financeiros, recebíveis, imóveis, direitos creditórios e outros instrumentos econômicos, ampliando possibilidades de negociação e liquidez. Embora ainda esteja em estágio inicial, o tema já mobiliza instituições financeiras, gestoras de recursos e empresas de tecnologia em diferentes mercados, impulsionado pela busca por maior eficiência operacional e novas formas de acesso a investimentos.
Para parte dos especialistas, a tokenização possui potencial para gerar uma transformação tão relevante quanto a popularização das criptomoedas, ao impactar diretamente a infraestrutura dos mercados financeiros.
Para a diretora, o interesse crescente pela tokenização está relacionado à capacidade da tecnologia de transformar a circulação dos ativos. Segundo ela, a digitalização de ativos financeiros, recebíveis, imóveis e direitos creditórios amplia a liquidez, reduz barreiras de acesso e torna processos mais eficientes.
“Ainda estamos no início desse movimento, mas acredito que a tokenização terá um impacto semelhante ao que vimos com a digitalização dos meios de pagamento anos atrás. No começo parece uma inovação de nicho. Depois passa a fazer parte do funcionamento normal do mercado”, afirma.
Segurança jurídica abre caminho para o capital institucional
Para investidores institucionais, a previsibilidade costuma ser tão importante quanto a rentabilidade.
Se nos primeiros anos do mercado cripto o crescimento foi impulsionado principalmente por investidores de varejo, o próximo ciclo pode ser marcado pela entrada mais ampla de empresas, fundos e instituições financeiras.
Para esse público, a existência de regras claras não é apenas um requisito regulatório, mas uma condição básica para a alocação de recursos.
A construção de um ambiente previsível tende a reduzir barreiras de entrada e ampliar a participação de agentes que, até recentemente, observavam o setor à distância. O resultado pode ser uma nova etapa de maturidade para a indústria de ativos digitais, aproximando-a definitivamente das estruturas que caracterizam os mercados financeiros tradicionais.
Na visão de Denise, esse é um dos principais efeitos da regulamentação. A executiva explica que investidores institucionais não tomam decisões baseadas apenas no potencial de retorno, mas também na previsibilidade do ambiente de negócios.
“Regulação clara reduz incertezas, facilita a avaliação de riscos e cria um ambiente onde empresas conseguem planejar investimentos de longo prazo”, afirma.
Para ela, esse novo cenário tende a ampliar a confiança no setor e atrair investidores com perfil de longo prazo, reduzindo a dependência do mercado em relação ao capital mais disposto ao risco e contribuindo para elevar o nível de maturidade da indústria.
Brasil pode se posicionar como referência regional em ativos digitais
O protagonismo brasileiro na adoção de ativos digitais também coloca o país em uma posição estratégica na discussão regulatória global.
Enquanto diversos países ainda buscam definir seus modelos regulatórios, o avanço da regulamentação brasileira pode posicionar o país entre os mercados mais estruturados da América Latina para o desenvolvimento de ativos digitais.
Isso pode contribuir para a atração de investimentos, o desenvolvimento de novas soluções financeiras e a ampliação da participação brasileira em um mercado cada vez mais globalizado. A regulamentação deixa de ser apenas uma ferramenta de supervisão e passa a desempenhar um papel estratégico para o desenvolvimento econômico e tecnológico do setor.
Para ela, o Brasil reúne características que poucos mercados possuem simultaneamente: uma das maiores bases de usuários de ativos digitais do mundo, um sistema financeiro desenvolvido e um regulador que conduz o processo de forma técnica e estruturada. Segundo a executiva, se o país conseguir equilibrar inovação e segurança jurídica, poderá assumir uma posição de liderança regional.
“Mais do que atrair investimentos, isso significa desenvolver conhecimento, tecnologia e infraestrutura financeira dentro do país. O potencial vai muito além do mercado de criptoativos. Estamos falando da evolução da própria indústria financeira”, afirma.
Embora o processo regulatório ainda esteja em evolução, especialistas avaliam que o setor entrou em uma nova fase de desenvolvimento. O momento atual reflete uma mudança estrutural na forma como os ativos digitais se relacionam com a economia real, com os mercados financeiros e com a estratégia de crescimento das empresas que atuam nesse ecossistema.

Denise Cinelli
*Comunicado de imprensa