Open USD mira DeFi com Visa, Mastercard e Coinbase
O mercado de stablecoins entrou em uma nova etapa com o avanço da Open Standard e de seu token Open USD. Depois de anos em que usuários de finanças descentralizadas ajudaram a consolidar a USDC em negociação institucional, empréstimos e liquidação, a nova proposta tenta redistribuir parte relevante da receita gerada pelas reservas para parceiros do ecossistema.
A Open Standard afirma que empresas podem emitir e resgatar Open USD sem custo e sem limite de volume. Além disso, a receita das reservas, após o desconto de uma taxa de administração, vai para as empresas parceiras. A iniciativa já reúne mais de 140 negócios, incluindo Visa, Mastercard e Coinbase, bem como carteiras, corretoras e protocolos de DeFi.
Na prática, esse desenho altera a disputa entre stablecoins. Antes, a concorrência girava em torno da confiança, com USDT e USDC buscando credibilidade. Em seguida, o foco passou para a regulação, com normas como o GENIUS Act nos Estados Unidos e o MiCA na Europa favorecendo emissores regulados. Agora, o centro da competição migra para o incentivo econômico, já que empresas e protocolos disputam quem remunera melhor o uso do próximo dólar digital.
Novo modelo transfere receita das reservas
O comentarista de DeFi Ignas afirmou no X que usuários nativos do setor ajudaram a construir a liquidez, o volume e o hábito de uso da USDC. Ainda assim, boa parte do ganho econômico ficou concentrada em Circle, Coinbase e seus distribuidores. A crítica reforça a tese de que o valor gerado pelo ativo não retornou de forma proporcional para quem sustentou sua adoção.
“Os usuários nativos de DeFi construíram a liquidez e o uso da USDC, mas a maior parte da economia ficou com Circle, Coinbase e parceiros de distribuição.”

Um dos principais testes deve ocorrer na Plasma, rede que se apresenta como infraestrutura para gasto, poupança, envio e rendimento com stablecoins por meio do produto Plasma One. A proposta inclui transferências instantâneas, uso global, cashback e ganhos baseados em saldo. O Open USD deve estrear ainda neste ano com suporte nativo na Plasma e também na Tempo.
Se essa integração avançar, a receita das reservas poderá chegar ao usuário final por meio de incentivos de rede. Dessa forma, um parceiro que receba parte desse fluxo pode convertê-lo em mineração de liquidez, taxas reforçadas em lending, cashback em carteiras ou abatimento no roteamento por bridges. Nesse sentido, a tese do projeto vai além da emissão e busca impulsionar o uso efetivo do token.
As rotas previstas incluem recompensas por liquidez em DEXs, maior APY para depósitos usados como colateral em protocolos de lending, cashback para gastos ou manutenção de saldo em Open USD e redução de taxas entre redes. Por consequência, o objetivo é ampliar profundidade de mercado, utilidade como colateral e adoção em pagamentos e liquidação.
Regulação ainda define os limites do modelo
Esse formato também tenta operar dentro das limitações regulatórias atuais. O GENIUS Act impede emissores de stablecoins de pagarem juros diretamente aos detentores. Ainda assim, a regra deixa espaço para debate sobre até onde afiliadas e terceiros podem oferecer benefícios econômicos ligados ao uso desses ativos. Coinbase já paga recompensas sobre saldos de USDC, enquanto o PayPal também remunera usuários de PYUSD.
A lista de parceiros da Open Standard, que inclui Aave, Morpho, MetaMask e Trust Wallet, posiciona o projeto justamente nessa zona regulatória ainda indefinida. Em outras palavras, o emissor não entrega rendimento direto. Porém, permite que parceiros usem sua parcela da receita das reservas para criar incentivos ao redor do token.
Esse ponto importa porque o desenho preserva aderência regulatória sem abandonar a competição por retorno. Ao mesmo tempo, ele pressiona modelos já consolidados, sobretudo quando a distribuição de receita vira ferramenta agressiva de aquisição de liquidez no DeFi.
Open USD disputa espaço em mercado de US$ 312 bilhões
O tamanho do prêmio ajuda a explicar a intensidade da disputa. Dados da DeFiLlama apontam uma oferta total de stablecoins próxima de US$ 312 bilhões, com USDT em cerca de US$ 184,6 bilhões e USDC em torno de US$ 73,9 bilhões. Ademais, o Citi elevou sua projeção para esse mercado em 2030 para US$ 1,9 trilhão no cenário base e US$ 4 trilhões no cenário otimista.
Com rendimento de 3,7%, faixa próxima à dos títulos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos, cada US$ 1 bilhão em circulação de Open USD poderia gerar cerca de US$ 37 milhões por ano em receita bruta de reservas, antes de taxas e custos.

Os números recentes da Circle mostram como esse fluxo financeiro já define boa parte do setor. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou US$ 653 milhões em receita de reservas, contra US$ 407 milhões em custos de distribuição, transação e outros gastos. A companhia informou que esse montante subiu por causa de pagamentos maiores a parceiros. Em seu relatório anual de 2025, a Circle também revelou que compartilha receita ligada às reservas diretamente com a Coinbase para manter a USDC líquida e amplamente utilizada.
Foi justamente essa semelhança de estratégia, agora ampliada desde o início para uma base muito maior de parceiros, que mexeu com o mercado. As ações da Circle chegaram a cair até 17% durante o pregão no dia do anúncio, tocando uma mínima próxima de US$ 63. Portanto, investidores passaram a precificar um possível impacto direto sobre a receita de reservas que sustenta o negócio da empresa.
Cenários para adoção no DeFi e em pagamentos
No cenário mais favorável para a Open Standard, Plasma, Tempo, carteiras e protocolos de DeFi convertem rapidamente sua fatia da receita em campanhas de liquidez. Assim, pools de Open USD podem surgir em exchanges nativas da Plasma. Além disso, mercados de empréstimo podem aceitar o ativo como colateral, enquanto carteiras podem combinar cashback com recompensas da rede. Mesmo um repasse parcial dessa receita pode criar subsídios fortes o bastante para atrair capital hoje estacionado em pools de USDC e USDT.
Por outro lado, no cenário menos favorável, a renda das reservas ficaria concentrada onde fosse recebida. Empresas de pagamento e exchanges tratariam sua parte apenas como margem, enquanto incentivos no DeFi seriam esporádicos. Nessa hipótese, usuários tenderiam a permanecer em USDC e USDT, que já possuem profundidade de liquidez e suporte como colateral em escala muito superior.
Como resultado, a Open Standard entra na disputa com um mercado de stablecoins de quase US$ 312 bilhões, projeções do Citi de até US$ 4 trilhões até 2030, rendimento estimado de US$ 37 milhões anuais a cada US$ 1 bilhão em Open USD e uma base de mais de 140 parceiros, incluindo Visa, Mastercard, Coinbase, Aave, Morpho, MetaMask e Trust Wallet. Se o modelo funcionar, o DeFi pode abrir uma nova etapa na guerra por rendimento entre dólares digitais.