Taiwan aprova lei de stablecoin e dá vantagem a bancos
Taiwan aprovou uma nova lei para ativos virtuais que muda de forma relevante a disputa pelo mercado local de stablecoin. O texto passou em terceira leitura no Legislativo em 30 de junho e criou uma estrutura específica para plataformas de negociação de criptomoedas, emissores de stablecoin e outros prestadores de serviços de ativos virtuais.
Na prática, a norma leva a emissão de stablecoin para um ambiente de licenciamento e supervisão financeira. Assim, bancos, empresas fiduciárias, plataformas de custódia, auditorias e companhias com estrutura robusta de compliance tendem a largar em vantagem. Afinal, esse grupo reúne mais condições para cumprir exigências como aprovação regulatória, reservas integrais, custódia doméstica e auditorias recorrentes.
Sob o novo marco, emissores de stablecoin precisarão manter reservas com lastro integral. Além disso, terão de guardar esses ativos de forma segregada em estruturas fiduciárias de trust por meio de instituições financeiras domésticas. Também precisarão passar por auditorias regulares e não poderão pagar juros nem qualquer outro rendimento aos detentores.
Dessa forma, o eixo da concorrência muda. Em vez de vencer quem lançar o token primeiro, sairá na frente quem operar em escala institucional. Para isso, o emissor terá de atender exigências de aprovação, custódia, reservas e divulgação.

Marco amplia a supervisão sobre ativos virtuais
Taiwan já contava com um regime de registro antilavagem de dinheiro para prestadores de serviços de ativos virtuais, os VASPs. Esse modelo servia como base de monitoramento para prevenir lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. No entanto, a nova lei vai muito além desse patamar.
O projeto apresentado em abril pelo Executivo buscava criar um marco abrangente para VASPs e emissores de stablecoin. O foco incluía solidez financeira, custódia segregada, prevenção de práticas comerciais desleais e estabilidade de mercado. Além disso, pelo texto aprovado, os VASPs precisarão obter autorização da Financial Supervisory Commission antes de operar. As empresas também terão de cumprir exigências de controles internos, cibersegurança e continuidade de negócios.
A diferença é central para o mercado. Um simples registro antilavagem verifica controles mínimos para atuar em um setor monitorado. Em contrapartida, um regime de licenciamento avalia modelo de negócios, estrutura de capital, proteção ao cliente e sistemas operacionais antes da entrada no mercado.
Para a stablecoin, essa mudança é ainda mais profunda. A emissão doméstica deixa de funcionar apenas como produto de uma empresa do setor de criptomoedas. Agora, ela passa a integrar uma atividade supervisionada, conectada à qualidade das reservas, ao local de custódia, às auditorias e à estabilidade financeira. Assim sendo, esse tipo de ativo se aproxima da infraestrutura regulada de pagamentos.
A Focus Taiwan informou que os VASPs já registrados no regime antilavagem antes da vigência da lei terão 12 meses para solicitar licenças e 21 meses para obter aprovação. Ainda assim, esse cronograma dependerá da data efetiva da lei e das normas secundárias que o governo ainda precisa definir.
Reservas integrais elevam barreiras de entrada
O ponto central para a competição está nas regras da stablecoin. Os emissores precisarão manter reservas integrais, com ativos segregados e mantidos em trust por instituições financeiras domésticas. Além disso, esses ativos de reserva terão proteção contra outros credores caso o emissor entre em falência.
Os emissores também terão de passar por auditorias regulares. Ao mesmo tempo, não poderão oferecer juros ou outros retornos aos usuários. Com efeito, esses mecanismos aumentam a proteção ao cliente ao vincular a emissão a reservas identificáveis e a arranjos fiduciários locais.
Por outro lado, a nova estrutura eleva de forma importante a barreira operacional. Um emissor precisará administrar ativos de reserva, provar a segregação, atender auditorias, cumprir obrigações de resgate e trabalhar com instituições financeiras domésticas antes de escalar no mercado. Portanto, o custo regulatório sobe de maneira significativa.
É nesse ponto que começa a vantagem estrutural dos bancos. O histórico público ainda deixa espaço para emissores não bancários. Contudo, as instituições financeiras locais passaram a ocupar papel central na guarda e na proteção das reservas. Dessa maneira, bancos, empresas fiduciárias e parceiros regulados de custódia ganham posição privilegiada antes que emissores nativos do mercado cripto alcancem adoção doméstica relevante.
Análises jurídicas publicadas antes da aprovação já apontavam para esse desenho. Elas indicavam necessidade de aprovação da Financial Supervisory Commission em consulta com o banco central, reservas em instituições financeiras locais, separação patrimonial e auditorias periódicas. Também mencionavam possibilidade de reservas adicionais acima de certo volume de emissão e observância das regras cambiais do banco central.
Em suma, o mercado tende a ser moldado por instituições financeiras e por infraestrutura de compliance. Ainda assim, as regras finais podem preservar espaço para candidatos não bancários.
A proibição de rendimento também pesa nessa disputa. Se o detentor não puder receber juros ou qualquer retorno pela posse da stablecoin, a proposta de valor do emissor precisará se apoiar em acesso, resgate, confiança, liquidação e conformidade regulatória. Por consequência, esse desenho favorece infraestrutura de pagamentos, relações de custódia e liquidação regulada, em vez de estratégias de crescimento baseadas em altos rendimentos.

Regras podem redesenhar a concorrência local
Taiwan não busca necessariamente se tornar o maior mercado de stablecoin do mundo no curto prazo. Ainda assim, a relevância da medida é clara. As stablecoins se consolidaram como uma das principais infraestruturas de liquidez do mercado de criptomoedas. Nesse sentido, reguladores locais passaram a decidir quem pode emitir, custodiar e resgatar esses ativos dentro de suas fronteiras.
O tamanho desse setor ajuda a explicar o peso da nova legislação. A categoria de stablecoins estava em cerca de US$ 292,38 bilhões, com USDT e USDC concentrando a maior parte da dominância. Assim, regras locais podem definir se os trilhos domésticos de pagamento terão conexão com liquidez offshore, custódia bancária, plataformas licenciadas ou uma combinação desses elementos.
A direção anterior da política de Taiwan já indicava um modelo centrado em infraestrutura financeira. Agora, o novo texto transforma essa preparação em uma questão mais ampla de mercado. A dúvida é se empresas licenciadas do setor cripto conseguirão competir sozinhas ou se precisarão de relações com bancos e estruturas fiduciárias para oferecer serviços de stablecoin aprovados pelos reguladores.
Penalidades reforçam pressão sobre VASPs
A resposta tende a ser mista. Bancos podem não monopolizar a emissão, mas ainda assim dominar a infraestrutura ao redor dela. Custódia, gestão de reservas, auditorias, canais de resgate e reporte regulatório podem se transformar em funções de controle de acesso.
Por outro lado, emissores não bancários ainda podem disputar espaço. Porém, eles terão de provar que conseguem operar dentro dessa camada de controle financeiro.
O próximo teste está nas regras secundárias. Taiwan ainda precisa definir a data efetiva da lei. A Financial Supervisory Commission e outras autoridades também terão de detalhar critérios de elegibilidade para emissores, composição das reservas, exigências de divulgação e procedimentos de resgate. Além disso, o país terá de tratar stablecoins já usadas por traders, mas ainda não autorizadas para emissão doméstica ou serviços locais de negociação.
A lei não entrega formalmente a emissão de stablecoin aos bancos. No entanto, cria um regime em que a escala dependerá de aprovação regulatória, reservas integrais, trust ou custódia doméstica, auditorias e ausência de rendimento. Na prática, isso estabelece a infraestrutura supervisionada por bancos como ponto de partida do mercado.
As penalidades reforçam essa mudança. Operações ilegais de VASPs ou emissão irregular de stablecoin podem levar a até sete anos de prisão e multa de até NT$ 100 milhões. Já fraude ou manipulação de mercado podem resultar em penas de três a dez anos de prisão e multas de NT$ 10 milhões a NT$ 200 milhões.
Como resultado, Taiwan passa a cercar de forma executável quem pode operar, emitir e comercializar serviços ligados a ativos virtuais no país. O texto aprovado em 30 de junho exige autorização da Financial Supervisory Commission, reservas integrais segregadas em instituições domésticas, auditorias regulares e proibição de pagamento de juros aos detentores. Além disso, VASPs já registrados no regime antilavagem terão 12 meses para pedir licença e 21 meses para obter aprovação.