SEC e CFTC sob risco político após decisão da Suprema Corte
Uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos abriu uma nova frente de incerteza para a regulação do mercado de criptomoedas no país. Em 29 de junho, o tribunal decidiu que o presidente Donald Trump tinha autoridade para demitir Rebecca Slaughter, comissária da Federal Trade Commission (FTC). Assim, a corte rejeitou limites legais que antes permitiam a exoneração de integrantes da agência apenas por justa causa.
Com a decisão, a Suprema Corte derrubou o precedente de 1935 conhecido como Humphrey’s Executor. Por mais de nove décadas, esse entendimento protegeu membros de certas agências independentes contra demissão sem motivo formal. Além disso, o tribunal afirmou que agências independentes não são independentes a ponto de ficarem livres da autoridade presidencial e responderem apenas ao povo dos Estados Unidos.
Donald Trump comemorou a decisão em sua rede Truth Social e a descreveu como uma ampliação relevante do poder do Executivo. Segundo o presidente, a disputa sobre esse conceito de poder se arrasta há quase 100 anos, desde Franklin Delano Roosevelt. Dessa forma, Trump afirmou que a decisão devolve poder adicional à Presidência, onde, em sua visão, esse poder pertence.
Questionado por repórteres na Casa Branca sobre novas demissões na burocracia federal, Trump não descartou a hipótese. Nesse sentido, ele disse que a decisão apenas restabelece o poder legítimo do Salão Oval.
Decisão aumenta pressão sobre reguladores financeiros
Embora o caso tenha tratado diretamente da FTC, a fundamentação adotada pela Suprema Corte aumenta a pressão sobre agências com estrutura semelhante. Entre elas estão a Securities and Exchange Commission (SEC) e a Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Historicamente, essas instituições operam com mandatos escalonados, composição bipartidária e certo distanciamento do controle direto da Casa Branca.
Esse modelo sempre teve peso na regulação financeira, já que os mercados valorizam previsibilidade e continuidade. Na prática, comissários e presidentes dessas agências influenciam prioridades de fiscalização, cronogramas de regras, concessão de isenções, decisões de acordos e interpretações da legislação existente. Portanto, mesmo sem mudança na lei, a liderança pode alterar de forma significativa a intensidade da aplicação das normas.
Para empresas ligadas ao mercado de criptomoedas, essa diferença é conhecida. Durante anos, o setor criticou a postura da SEC sob o comando do ex-presidente Gary Gensler. O argumento recorrente era que a agência usava ações de fiscalização para moldar a política regulatória, sem oferecer regras claras e aplicáveis.
Mudança pode acelerar regras e ampliar volatilidade
A administração atual seguiu direção oposta, com reguladores prometendo categorias mais definidas para ativos digitais e maior coordenação entre SEC e CFTC. Ainda assim, a decisão da Suprema Corte pode facilitar oscilações mais rápidas na condução regulatória. Com isso, essas agências podem ficar mais próximas das prioridades do presidente em exercício.
O momento amplia a relevância da decisão para os ativos digitais. Em janeiro, o presidente da SEC, Paul Atkins, e o presidente da CFTC, Michael Selig, participaram de um evento conjunto. A pauta incluiu harmonização regulatória entre as agências e o papel delas na liderança financeira dos Estados Unidos na era das criptomoedas.
Segundo a SEC, o encontro estava vinculado aos esforços para cumprir a promessa de Donald Trump de transformar os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas. Dessa forma, a sinalização marcou uma ruptura com a postura regulatória anterior. Em vez de disputas públicas sobre jurisdição ou dependência excessiva de fiscalização, as agências passaram a indicar preferência por classificações mais claras de ativos, supervisão coordenada e formulação de regras. O objetivo seria dar a corretoras, custodiantes, intermediários e emissores de tokens um caminho mais objetivo de conformidade.
Mesmo assim, Markus Levin, cofundador da XYO, afirmou que a decisão da Suprema Corte não altera a autoridade legal da SEC ou da CFTC sobre o setor. No entanto, ela pode dar a futuros governos mais influência sobre a forma como essas agências executam seus mandatos.
O que deve preocupar o setor é se os benefícios de uma formulação regulatória mais rápida compensam o risco de maior influência política sobre os reguladores financeiros. Empresas e investidores institucionais valorizam estruturas regulatórias que permaneçam consistentes entre diferentes governos. Se a implementação das regras para criptomoedas passar a ser moldada cada vez mais pelos ciclos políticos, as companhias poderão gastar tanto tempo se adaptando a prioridades em mudança quanto gastam para cumprir as próprias regras.
Markus Levin, cofundador da XYO.
CLARITY Act pode elevar peso político da SEC
Na avaliação de Levin, uma Casa Branca favorável aos ativos digitais pode acelerar regras de estrutura de mercado, política para stablecoins e iniciativas de tokenização. Por outro lado, uma administração menos favorável poderia empurrar as agências de volta para uma abordagem mais centrada em fiscalização. Também poderia atrasar a implementação de normas já em discussão.
A decisão da Suprema Corte surge enquanto o Congresso debate o Digital Asset Market CLARITY Act, hoje o projeto mais relevante de estrutura de mercado para ativos digitais em tramitação em Washington. Em maio, o Comitê Bancário do Senado aprovou o avanço do texto por 15 votos a 9.
A proposta foi desenhada para dividir a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC. Ao mesmo tempo, estabelece regras de divulgação, registro e proteção ao cliente para partes do mercado de criptomoedas. Em linhas gerais, o projeto ampliaria o papel da CFTC sobre commodities digitais e atividade no mercado à vista. Já a SEC preservaria autoridade sobre contratos de investimento e ativos digitais vinculados a valores mobiliários.
Empresas podem enfrentar mais risco entre governos
Esse arranjo busca resolver anos de incerteza sobre qual regulador deve supervisionar listagens de tokens, plataformas de negociação e intermediários. No entanto, a decisão da Suprema Corte não define se o CLARITY Act será aprovado. Ela muda, sobretudo, o ambiente institucional em torno do projeto. Se o Congresso entregar à SEC e à CFTC um mandato mais claro sobre criptomoedas, os nomes que comandarem essas agências ganharão ainda mais importância.
Presidentes e comissários terão papel central na redação de regras, concessão de isenções, aprovação de registros, fiscalização de corretoras e definição do grau de flexibilidade para empresas que migram de estruturas fora dos Estados Unidos ou estaduais para um regime federal. Antes, mandatos escalonados e proteções contra demissão ajudavam a desacelerar mudanças bruscas de direção. Agora, a nova decisão enfraquece esse amortecedor institucional.
Com isso, uma estrutura regulatória para criptomoedas que dependa fortemente da implementação da SEC e da CFTC pode ficar mais exposta à política presidencial. No curto prazo, parte do setor pode até se beneficiar se a atual Casa Branca usar sua influência para pressionar por regras mais rápidas. Também pode haver menos conflitos regulatórios conduzidos por fiscalização e aceitação mais ampla de mercados tokenizados.
Patrocinadores de ETFs, corretoras, emissores de stablecoin e firmas de negociação institucional podem ganhar com uma abordagem federal mais coordenada. Contudo, o risco é que a mesma engrenagem funcione no sentido oposto no futuro. Uma administração cética em relação aos ativos digitais poderia trocar lideranças, desacelerar regras pendentes, retomar teses de fiscalização mais agressivas ou restringir isenções nas quais o mercado começou a confiar.
Esse cenário pesa especialmente para empresas que planejam investimentos de longo prazo em infraestrutura nos Estados Unidos. Afinal, corretoras, custodiantes e gestoras de ativos precisam de regras duráveis para sustentar planos de conformidade, compromissos de capital e lançamentos de produtos ao longo de diferentes ciclos eleitorais. Em suma, a decisão da Suprema Corte, a fala de Donald Trump na Truth Social e o alerta de Markus Levin reforçam como o futuro da SEC e da CFTC pode se tornar ainda mais decisivo para a regulação das criptomoedas nos Estados Unidos.