França reage a 77 crimes ligados a criptomoedas

A França ampliou sua resposta aos crimes violentos ligados ao mercado de criptomoedas após a alta de sequestros, cárcere privado e extorsão contra pessoas associadas ao setor. Assim, o foco das autoridades deixou de recair apenas sobre carteiras, chaves privadas e custódia. Agora, também inclui a proteção direta de indivíduos que podem ser localizados, ameaçados e forçados a autorizar transferências.

O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou que as autoridades francesas registraram 77 casos em 2026 envolvendo cárcere privado, sequestro, extorsão ou tentativa de extorsão ligados a atores do setor. Além disso, o Le Parisien, em conjunto com a AFP, comparou esse número com 45 casos registrados ao longo de 2025.

Risco pessoal entra na agenda de segurança

Os novos dados mostram que a França passou a tratar a coerção ligada ao mercado de criptomoedas como um problema recorrente de crime organizado. Segundo Laurent Nuñez, as autoridades prenderam 200 pessoas após os incidentes ou de forma preventiva. Ao mesmo tempo, 724 participantes do setor entraram em sistemas de identificação imediata. Esses sistemas buscam ajudar serviços de emergência a reconhecer com mais rapidez indivíduos considerados de alto risco.

Esse modelo marca uma mudança prática. Em vez de depender apenas de armazenamento a frio, frases-semente, carteiras de hardware, multisig e controles de retirada, a resposta francesa inclui compartilhamento de inteligência. Além disso, prevê uma rede de especialistas conectando o setor ao Estado e cooperação operacional com jurisdições estrangeiras onde os organizadores desses crimes podem atuar.

Infográfico sobre a mudança na segurança de criptomoedas na França

Fonte: infográfico sobre a mudança na segurança de criptomoedas na França.

A superfície de ataque, portanto, não envolve mais apenas exchanges, contratos inteligentes ou carteiras digitais. A própria pessoa por trás da conta passou a ocupar o centro do risco. Em outras palavras, um fundador com endereço exposto, um funcionário com cargo identificável ou um grande detentor de ativos cuja riqueza aparece online pode enfrentar uma ameaça que controles de software sozinhos não conseguem conter.

As autoridades francesas destacam que a ameaça permanece mais concentrada em pessoas expostas e atores do setor do que no conjunto dos investidores. Ainda assim, a implicação é direta para empresas e indivíduos visíveis no mercado. Informações pessoais, padrões de viagem, aparições públicas, endereço residencial e canais de resposta emergencial agora fazem parte da postura de segurança.

Proteção deixa de ser apenas técnica

A cultura de segurança em criptomoedas historicamente priorizou a prevenção de acessos digitais não autorizados. Ferramentas como multisig, carteiras de hardware, atrasos de retirada e estruturas de custódia reduzem a chance de um invasor remoto drenar fundos sem consentimento. Contudo, a coerção física muda o problema. Quando criminosos identificam uma pessoa com autoridade para movimentar ativos, a barreira técnica deixa de ser a única linha de defesa.

Laurent Nuñez descreveu três eixos para a nova estratégia. Em primeiro lugar, o governo quer reforçar o compartilhamento de inteligência. Em segundo lugar, pretende aprofundar a parceria com a ADAN, associação francesa do setor de ativos digitais, por meio de uma rede de especialistas do setor e agentes estatais. Por fim, busca ampliar a coordenação operacional entre os serviços franceses e os países onde os mandantes possam estar presentes.

Dados pessoais viram elo crítico da segurança

A abordagem francesa parte da ideia de que os autores desses ataques operam em rede, e não apenas como oportunistas isolados. Além disso, considera que muitos dados úteis para os criminosos estão fora da blockchain. Endereços, vínculos familiares, cargos executivos, histórico em redes sociais, cadastros vazados, registros empresariais, presença em conferências e informações sobre quem pode autorizar movimentações financeiras formam esse mapa de exposição.

A visibilidade das blockchains continua útil para investigadores rastrearem fundos roubados. No entanto, ela não impede a coerção antes do crime. A Chainalysis alertou, na introdução do 2026 Crypto Crime Report, que coerção física e violência cruzam cada vez mais com a atividade na blockchain, à medida que criminosos forçam vítimas a transferir ativos.

Da mesma forma, a CertiK informou, em seu relatório Skynet sobre ataques por coerção física, que houve 72 incidentes verificados desse tipo em todo o mundo em 2025. O número representa alta de 75% em relação a 2024. O sequestro apareceu como principal vetor, enquanto as agressões físicas subiram 250%. Embora as metodologias sejam diferentes das usadas pelas autoridades francesas, os números não devem ser comparados diretamente. Ainda assim, apontam para a mesma direção.

Esse cenário coloca a segurança de criptomoedas em uma zona intermediária entre crime cibernético, crime organizado, proteção executiva e inteligência financeira. Nesse sentido, a França já vinha montando um arcabouço de proteção para o setor antes da atualização mais recente. Em maio de 2025, o Ministério do Interior informou, após reunião com participantes da indústria, que as medidas incluiriam acesso prioritário a emergências, auditorias de segurança residencial para pessoas expostas, briefings por unidades de elite como GIGN, RAID e BRI, um ponto de contato para crimes cibernéticos e um grupo de trabalho ligado à ADAN.

Coordenação internacional ganha peso

A atualização de 30 de junho indica que essa estrutura está ganhando contornos mais formais. Assim, as plataformas de identificação imediata devem permitir reconhecimento mais rápido pelos serviços de emergência. Já o compartilhamento de inteligência busca tirar as autoridades de uma postura apenas reativa e ampliar a capacidade de mapear organizadores e sua logística. Além disso, a coordenação internacional se tornou central, porque mandantes, recrutadores ou operadores podem estar fora da França.

O sequestro de David Balland, cofundador da Ledger, ilustra a necessidade dessa resposta combinada. A Gendarmerie nationale descreveu uma operação com coordenação judicial voltada ao crime organizado, mobilização do GIGN, especialistas cibernéticos, rastreamento e congelamento de resgate em criptomoedas. A ação também envolveu mais de 230 gendarmes.

A França também começou a atuar na frente de exposição de dados. Um decreto de 2025 publicado no Légifrance permite que dirigentes de empresas e sócios com responsabilidade ilimitada solicitem confidencialidade para seus endereços residenciais em registros empresariais. Embora a medida seja mais ampla do que o mercado de criptomoedas, ela atinge diretamente um dos mecanismos que podem facilitar a seleção de executivos e empreendedores como alvo.

França amplia proteção fora do ambiente digital

Para empresas do setor, a implicação é objetiva. Uma companhia pode ter controles fortes de custódia e, ainda assim, expor pessoas por meio de registros públicos, perfis de funcionários, rotinas previsíveis, agendas de conferências ou procedimentos internos frágeis de escalonamento em caso de ameaça. Portanto, segurança física e minimização de dados passaram a ser questões operacionais para negócios com liderança exposta ou funcionários capazes de autorizar movimentações de fundos.

O mesmo vale para grandes detentores e influenciadores, embora o risco não se distribua de forma uniforme. Afinal, status público, riqueza visível e dados de localização identificáveis criam um perfil de exposição diferente daquele de um investidor comum. Quanto mais um agressor consegue conectar uma pessoa, um endereço, um cargo e um saldo presumido, mais a ameaça deixa de parecer um crime genérico de criptomoedas. Nesse ponto, ela se aproxima de uma extorsão direcionada.

Os dados apresentados por Laurent Nuñez, com 77 casos em 2026 contra 45 em 2025, 200 prisões e 724 pessoas inscritas em sistemas de identificação imediata, mostram uma resposta baseada em inteligência, registro de pessoas vulneráveis e coordenação internacional. Dessa forma, a França amplia a proteção para agentes expostos do mercado de criptomoedas muito além do ambiente digital.