Opções da Bitget diferem de ações tokenizadas
A Bitget lançou nesta semana a negociação de opções de ações dos EUA. A exchange afirmou que nenhuma outra grande plataforma de criptomoedas oferece esse produto neste momento. A estreia começou pelo formato mais simples do mercado, já que usuários elegíveis podem comprar contratos individuais de call ou put. Além disso, a empresa deve adicionar estratégias mais complexas conforme a oferta amadurecer.
Ao mesmo tempo, o novo produto passa a dividir o mesmo aplicativo com mercados de criptomoedas, ações tokenizadas e contratos por diferença ligados a ouro, câmbio e índices. Assim, a plataforma mostra como instrumentos financeiros parecidos na interface podem entregar direitos muito diferentes na prática.
O movimento ocorre após um ano recorde no mercado de opções dos Estados Unidos. Segundo a Cboe, o volume de opções listadas no país alcançou 15,2 bilhões de contratos em 2025. Isso representou alta de 26% na comparação anual e marcou o sexto recorde consecutivo. Em média, cerca de 61 milhões de contratos mudaram de mãos por dia.
Como funcionam as opções de ações
Direito contratual, e não participação acionária
A Securities and Exchange Commission define opções como contratos que dão ao comprador o direito, mas não a obrigação, de comprar ou vender um ativo a um preço fixo dentro de um período determinado. Em outras palavras, o investidor compra uma exposição estruturada ao movimento de uma ação.
Por exemplo, se uma ação estiver cotada a US$ 100, o investidor pode esperar uma alta após a divulgação de resultados. Nesse caso, ele pode comprar uma call com preço de exercício de US$ 110 e pagar um prêmio menor que o valor da ação. Se o papel subir o suficiente antes do vencimento, o contrato ganha valor. No entanto, se isso não ocorrer, a opção expira sem valor. Assim, a perda do comprador fica limitada ao prêmio pago.
Uma call expressa uma aposta de alta. Já uma put indica uma aposta de queda ou uma proteção para quem já possui ações. Ainda assim, o risco não é igual para todos. Para compradores de calls e puts simples, a perda máxima costuma ser o prêmio desembolsado. Em contrapartida, vendedores de opções podem assumir perdas muito superiores ao valor recebido. Por isso, corretoras normalmente restringem esse tipo de operação a clientes experientes e previamente aprovados.
Esse desnível ajuda a explicar por que a Bitget começou apenas com compras. Afinal, operações mais sofisticadas, como venda de opções ou combinações de múltiplos contratos, ficaram de fora por enquanto. Dessa forma, a exposição negativa do usuário permanece limitada ao valor gasto na aquisição do contrato.
A popularidade das opções cresceu porque elas permitem controlar uma exposição maior em ações com desembolso inicial menor. Além disso, investidores institucionais usam esse mercado para proteger carteiras. Já investidores de varejo recorrem às opções para especular sobre balanços e movimentos de curto prazo.
Recorde nos EUA e contratos de curtíssimo prazo
Os contratos de prazo curtíssimo ajudaram a impulsionar o recorde de 2025. Dados da Cboe e da OCC mostram que as opções com vencimento no mesmo dia responderam por 24,1% do volume total nos Estados Unidos. No mercado cripto, a demanda por instrumentos semelhantes também avançou. O valor total em aberto das opções de Bitcoin superou o dos futuros de Bitcoin pela primeira vez em janeiro, refletindo uma mudança no perfil de risco buscado pelos investidores.
Apesar da facilidade de acesso, negociar opções está longe de ser simples. De fato, o preço de um contrato depende da cotação da ação, do preço de exercício, do prazo até o vencimento, da volatilidade esperada e das taxas de juros. Além disso, a opção perde valor com o passar dos dias, porque o prazo encurta continuamente. Assim, o investidor pode acertar a direção do mercado e ainda perder dinheiro se o movimento vier tarde demais ou com força insuficiente.
Ações tokenizadas podem ter direitos diferentes
Estruturas distintas mudam o que o investidor possui
A Bitget já oferece mais de 500 ações tokenizadas. Ainda assim, esse tipo de ativo não equivale automaticamente a uma ação mantida em uma corretora tradicional. Dependendo da estrutura adotada, o token pode representar uma ação real mantida por um custodiante em nome do comprador. Também pode apenas replicar a variação de preço sem conceder propriedade. Em outros casos, pode funcionar como acordo privado com o emissor ou como registro formal de titularidade em blockchain.
A equipe da SEC abordou esse ponto em uma declaração de 28 de janeiro, na qual descreveu valores mobiliários tokenizados como ativos tradicionais registrados total ou parcialmente em blockchain. A mensagem central do regulador foi direta: o funcionamento do produto, e não seu nome comercial, define o enquadramento regulatório.
Em termos legais, uma ação continua sendo uma ação, esteja ela em um sistema tradicional de corretagem ou em blockchain. Contudo, um token criado por uma empresa externa que apenas imita o preço de um papel pode até entrar na categoria de security-based swap, sujeita a forte supervisão nos Estados Unidos.
A diferença central para as opções está na natureza do produto. A ação representa participação societária em uma empresa. A ação tokenizada pode empacotar essa propriedade ou apenas sua oscilação de preço em um token transferível entre carteiras e plataformas. Já a opção de ação fica ainda mais distante do ativo original, pois seu valor deriva da ação sem envolver propriedade acionária.
SEC avalia isenção e mercado busca clareza
As opções listadas nos EUA operam dentro de uma estrutura amplamente supervisionada. Ela envolve bolsas, corretoras e câmaras de compensação que sustentam a liquidação das operações. Por outro lado, as ações tokenizadas podem trazer incertezas menos visíveis ao comprador. Entre elas estão quem efetivamente detém a ação subjacente, se o investidor tem direito a dividendos ou voto, se o token pode virar o ativo real e o que ocorre em caso de insolvência do emissor ou custodiante.
Os reguladores ainda tentam resolver esse descompasso. A Reuters informou em 17 de junho que a SEC prepara uma “isenção de inovação” para permitir que empresas de criptomoedas ofereçam negociação de ações tokenizadas. Segundo a reportagem, a Citadel Securities e a associação setorial SIFMA questionam como o modelo preservaria a proteção ao investidor e a resiliência do mercado.
Se essa isenção avançar, o mercado poderá acelerar a migração de ações tradicionais para infraestrutura baseada em blockchain. Ainda assim, isso também tende a aumentar a pressão para que plataformas expliquem com precisão o que o detentor do token realmente possui.
Medir o potencial imediato do novo mercado de opções da Bitget é mais difícil do que descrever sua proposta. A empresa afirma ter 125 milhões de usuários. Porém, o anúncio não detalha quais ações são suportadas, em quais países o produto está disponível, quais são os arranjos de compensação nem quais expectativas de volume existem. Na prática, o mercado real dependerá do subconjunto de usuários aprovados, aptos a entender os riscos e interessados em exposição a ações dos EUA dentro de uma conta voltada ao mercado cripto.
Mesmo assim, uma pequena fração dessa base já poderia gerar atividade relevante. Por fim, o ponto decisivo não está apenas no número de usuários. Ele também depende da qualidade da precificação e da execução oferecida pelas empresas que fornecem liquidez e preenchem ordens.
Em uma opção padronizada e listada, liquidada pela Options Clearing Corporation, como ocorre nas corretoras dos EUA, existe um conjunto conhecido de proteções. Também há uma câmara de compensação sustentando a operação. Entretanto, um produto com aparência de opção, mas estruturado por meios diferentes, pode se comportar de forma parecida em condições normais e muito distinta em momentos de estresse. O anúncio da Bitget não esclarece qual estrutura sustenta a oferta.
As ações tokenizadas carregam ambiguidade semelhante, porque seu valor para o investidor depende dos direitos que o token efetivamente concede. Nesse sentido, a novidade da Bitget chega quando as opções dos EUA acabaram de registrar 15,2 bilhões de contratos em 2025, com 24,1% do volume vindo de contratos com vencimento no mesmo dia, enquanto a SEC ainda busca definir como acomodar a negociação de ações tokenizadas.